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Indígenas fazem ritual de dança na favela Real Parque, em SP

Na região de maior concentração pankararu na capital paulista, festa marca resistência do povo que migrou de Pernambuco

19 abr 2024 - 14h25
(atualizado às 14h27)
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Resumo
Povo Pankararu, originário de Pernambuco, realizou o toré na UBS Real Parque, zona sul de São Paulo, local que conquistaram como referência de saúde indígena. Toré é dança ritual da terra ancestral Brejo dos Padres, em Tacaratu. A etnia pankararu veio para a capital paulista em busca de sobrevivência. É a maior de fora do estado, vivendo na capital, Região Metropolitana e interior paulista.
Apresentação do toré, dança pankararu que atrai boas energias, na sala de recepção da Unidade Básica de Saúde do Real Parque
Apresentação do toré, dança pankararu que atrai boas energias, na sala de recepção da Unidade Básica de Saúde do Real Parque
Foto: Marcos Zibordi

Na manhã de 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas, representantes da etnia pankararu pararam por meia hora o atendimento na Unidade Básica de Saúde (UBS) do Real Parque, zona sul da capital paulista. A sala de recepção ficou repleta de pessoas e sons de chocalhos, os maracás, para a o ritual do toré, dança que atrai boas energias.

O povo pankararu é originário de Pernambuco. Vieram para São Paulo desde a década de 1940, fugindo da seca e de outras dificuldades. Na capital paulista, trabalharam em obras monumentais, como o Palácio dos Bandeirantes e o Estádio do Morumbi.

Muitos ficaram na zona sul, morando precariamente perto do trabalho. Fixaram-se no Jardim Panorama e na favela Real Parque, onde vive a maior quantidade de parentes pankararu da capital paulista, cerca de mil pessoas.

Henrique Pankararu nasceu no dia 19 de abril. Sua avó, que o criou, morreu no Dia dos Povos Indígenas. Ele se entendia como negro, mas se descobriu pankararu
Henrique Pankararu nasceu no dia 19 de abril. Sua avó, que o criou, morreu no Dia dos Povos Indígenas. Ele se entendia como negro, mas se descobriu pankararu
Foto: Marcos Zibordi

Articulados, mantém associação e conquistaram a primeira Unidade Básica de Saúde com atenção às necessidades indígenas, no Real Parque. Foi nela que oito homens e mulheres, devidamente paramentados, entoaram cantos, agitaram seus maracás e dançaram o toré.

Foram acompanhados por cerca de 30 pessoas, entre funcionários da UBS, pacientes e parentes da área e de outros bairros. Um deles é Henrique Pankararu, 32 anos – aniversariando exatamente no Dia dos Povos Indígenas. Ele mora em Pinheiros e veio prestigiar os parentes. “São minha maior referência”, diz.

Família trabalha unida

Ivone Pankararu é casada com Adilson Luiz Nascimento. Ela nasceu em São Paulo; o marido, em Brejo dos Padres, Tacaratu, Pernambuco, a terra ancestral pankararu. O casal sobrevive da venda de artesanato indígena.

Ivone foi uma das primeiras a chegar na UBS Real Parque. “Vendo para todo lugar, pegou meu cartão?”. Os objetos podem ser encomendados pelo WhatsApp. O marido não sabe bem o preço das peças. “Eu faço, mas ela que vende, quem cuida do dinheiro é ela”, explica Adilson.

As parentes Ivone Pankararu, artesã, e Katelyn França, estudante da Fonoaudiologia, mostram pintura de urucum feita especialmente para o Dia dos Povos Indígenas
As parentes Ivone Pankararu, artesã, e Katelyn França, estudante da Fonoaudiologia, mostram pintura de urucum feita especialmente para o Dia dos Povos Indígenas
Foto: Marcos Zibordi

Sua esposa chegou à UBS com a parente Katelyn França, de 20 anos, que a ajudou a montar a banca. Junto à dupla estava Maria Erileide, nascida na aldeia em Pernambuco. Com 57 anos, vive há meio século em São Paulo. “Não tinha nenhum prédio desses quando cheguei aqui”, relembra.

A favela Real Parque é uma quebrada peculiar. Em algumas partes, prédios chiques, ruas planas, sinalizadas, SUVs para todo lado. Em outras, ruas em declive, casas pobres, prédios populares. Em um deles, funciona a associação, com portinha discreta no térreo.

Três gerações pankararu no Real Parque: Maria Erileide, 57 anos; a sobrinha Ivone Pankararu, 42 anos; e Ketelyn França, 20 anos.
Três gerações pankararu no Real Parque: Maria Erileide, 57 anos; a sobrinha Ivone Pankararu, 42 anos; e Ketelyn França, 20 anos.
Foto: Marcos Zibordi

Adilson “desabou no mundão”

A trajetória de Adilson Luiz Nascimento representa a maioria das histórias do povo pankararu em São Paulo. Na aldeia onde nasceu, a seca castigou. Viveu lá até os 22 anos e, sem oportunidade de emprego, veio sozinho para São Paulo.

“Resolvi desabar no mundão. Vim, meti as caras e já era. Depois de três dias de viagem de busão, desci no Brás”, conta. Apesar da selva de pedras, ele se surpreendeu por encontrar áreas verdes na capital, como havia no Real Parque, quando chegou.

Caminho da marginal Pinheiros em direção à favela Real Parque escancara a diferença social: prédios luxuosos estão entre os mais caros de São Paulo
Caminho da marginal Pinheiros em direção à favela Real Parque escancara a diferença social: prédios luxuosos estão entre os mais caros de São Paulo
Foto: Marcos Zibordi

Trabalhou em diversos locais e ocupações. Na cozinha de um hotel, no Morumbi, permaneceu por mais tempo, seis anos. Hoje, vive do artesanato que aprendeu em São Paulo, com os parentes. “Na aldeia não fazia tanto, fui aprender aqui, via os primos fazendo, sou bom de memória, gravei e fui produzindo”.

Ele tem dois filhos com Ivone. E voltou para a escola. “Não tive oportunidade antes, mas nunca é tarde para começar”. Vive repetindo aos filhos que precisam estudar. Feliz pela data, diz que “estamos mostrando nossa cultura para Deus e o mundo ver”. Que Deus?

Os espíritos encantados, que são plantas, animais, ancestrais, tudo que vive ou virou espírito, conforme compreensão pankararu.

Fonte: Visão do Corre
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