Conheça o Pretinhosidade, primeiro bloco afro de Curitiba
Haverá duas apresentações do bloco: na Vila Torres, no próximo domingo, dia 14; e no centro da cidade, dia 21
Curitiba, a cidade mais negra do Sul do país, com 24% da população autodeclarada parda ou preta, é palco de histórias de reconexão ancestral, como a do Bloco Afro Pretinhosidade. É o primeiro da capital paranaense, na Vila Torres, comunidade onde nasceu também a primeira escola de samba de Curitiba, a Colorado, com sua bateria Bocas Negras -- além da primeira banda percussiva de adolescentes, as Princesas do Ritmo.
“Tem algo aqui que a gente não consegue explicar. A gente só sente, vivencia e vamos aprendendo com essa vivência. Aqui, nesse espaço de terra, existe uma ligação forte com os tambores”, diz Diorlei do Espírito Santo, presidente do Bloco Pretinhosidade.
A ideia do bloco nasceu durante um dos almoços comunitários das famílias pretas em 2017. A primeira saída aconteceu no ano seguinte, data firmada como a do nascimento do Bloco Pretinhosidade. Após ensaios, o grupo fez uma postagem no Facebook divulgando o primeiro evento. No dia, compareceram aproximadamente mil e quinhentas pessoas.
“A partir dali, a gente viu a necessidade de ter um bloco afro na cidade de Curitiba”, afirma Diorlei, que esteve em Salvador e se inspirou nas vivências do tradicional Ilê Aiyê.
Chica da Silva, coordenadora de dança, afirma que o Pretinhosidade nasceu da ansiedade de um espaço preto dentro de uma sociedade racista. Com algumas inspirações, eles vêm formando sua própria cultura afro diaspórica. “Nossa dança vem do ritmo samba-reggae e procuramos levar os ritmos dos nossos ancestrais em todas as coreografias”, explica.
Papel social e político
Além das saídas e desfiles em fevereiro, o Afro Pretinhosidade tem desempenhado papel social e político. Durante todo o ano, são oferecidas aulas gratuitas de percussão e dança para pessoas pretas e indígenas. Para participar, não tem burocracia, basta entrar em contato pelo perfil do Instagram @blocoafropretinhosidade.
Também são arrecadados alimentos para distribuição de cestas básicas em outras comunidades, principalmente durante as festividades de final de ano. “A gente faz arrecadação e leva para outras vilas. Aqui, por ser perto do centro, acaba chegando bastante doação”, explica Diorlei.
Atualmente, 60 pessoas, quase todas pretas, participam dos ensaios e atuam na dança, bateria e apoio do Pretinhosidade. Segundo Alan Coimbra, diretor, o bloco tem reconhecimento do poder público e da sociedade curitibana. “Conseguimos uma cadeira no Conselho Municipal de Política Étnico Racial e fomos indicados para a presidência.”
Em novembro de 2023, o bloco participou da primeira edição do Prêmio Pretas Potências, em São Paulo, e venceu na categoria Patrimônio Imaterial.
Comunidade chega pra conversar
Enquanto realizamos a entrevista na sede do bloco, algumas pessoas param para conversar com Alan e Diorlei. Uma delas é Fabrício Souza, mais conhecido na Vila Torres como Criolo.
“Não tem nem palavras pra dizer o que eles fazem aqui na comunidade. É muito lindo, é perfeito, tudo organizadinho e sempre que posso, ajudo”, afirma o rapaz, com brilho nos olhos.
José Cordeiro é outro morador que fala com muito carinho e admiração sobre o trabalho do bloco. Proprietário do espaço onde funciona a sede alugada, e da mercearia ao lado, ele resume a história: “Faz 51 anos que eu moro aqui na Vila Torres. O bloco é diferenciado de tudo que já teve aqui e acho que alguns membros não têm noção da dimensão do quanto isso é positivo pra cidade. São espíritos de luz, alegria e preocupação com o próximo”.