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Dani Alves, Corinthians e Cianorte: futebol não é pra pobre

O mundo caro de um futebol medíocre vem matando o amor do povão, que o abandona paulatinamente por falta de grana

23 fev 2024 - 08h23
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Torcedores no metrô de São Paulo vão ao estádio do Corinthians. Futebol vem deixando de ser acessível ao cidadão comum.
Torcedores no metrô de São Paulo vão ao estádio do Corinthians. Futebol vem deixando de ser acessível ao cidadão comum.
Foto: Rovena Rosa/AB

O dia começa mal. Cedinho, Daniel Alves pega pena de ladrão de galinha por estupro e, inacreditável, os anos de cadeia diminuem porque ele depositou, antes do julgamento, 150 mil euros à vítima. O valor, baixíssimo para um crime impagável, virou atenuante, “uma vontade reparadora” nas palavras da sentença. Alguém sabia que isso era possível? Ou só eu no universo desconhecia a lei espanhola?

No final da noite, comendo suspeitíssimo cachorro-quente em uma avenida de Osasco, ouço pelo rádio da barraca que o ingresso para o jogo entre Corinthians e Cianorte, que acabara de acabar, teria custado 580 reais. Tá tirando, né?

Eu voltando da segunda jornada de trabalho, quinta-feira, quebrado, acordei seis da manhã, e o ingresso custo 580 reais? Houve quem pagou meia, completa o repórter. Fiquei aliviado ao calcular mentalmente que a meia custaria 290 reais. Eu e as pessoas nos ônibus que passam à minha frente na avenida, quase meia-noite, inclusive a tiazinha do dog, que fica “até cinco horas da manhã, meu filho”.

Sabe, é aí que coisa embaça, na moral. Não ia falar, tenho odiado debates, não sei se me entendem, mas vai minando o amor, saca? A pior forma de matar o amor não é de uma hora pra outra, mas minando. É o que já fizemos com o futebol brasileiro. E muito porque a grana entrou na jogada, tomou conta, elitizou, excluiu. Ou melhor, não é o dinheiro, que todo mundo quer; eu, pelo menos, quero; mas a forma como ele participa “da coisa do futebol”.

Lembrei do técnico que, dia desses, deu declaração histórica sobre “um monte de jogador meia boca cobrando salário de duzentos mil reais”. E empresários especulando no “mercado da bola”, enquanto a maioria, repito, a maioria dos moleques e cada vez mais meninas pobres deste país tem seus sonhos frustrados cotidianamente porque não podem pagar a “escolinha” – nunca um diminutivo significou tanto.

O problema, tiozão, não é o valor pago. É jogar mal e em geral não ter o mínimo de cidadania, de ética, de postura dentro e fora de campo, de consciência de mundo, do papel social da profissão, de política, de cultura, de nada. É assim que se chega facinho ao horror de pagar para atenuar uma pena de estupro, tendo estátua em praça pública na cidade natal. 

O cachorro-quente vai piorando as coisas e entro naquele estado Belchior de “a minha alucinação é suportar o dia a dia, e meu delírio é a experiência com coisas reais”. Lembro que os advogados de Daniel Alves recorrerão da sentença. Sério? Acham que ele está pagando, digamos, caro demais? 

O repórter continua lendo seu boletim e informa que o jogo do Corinthians contra o Cianorte não foi na cidade do time paranaense, mas em Cascavel, a 273 quilômetros, para onde foi quem, o pobre?

Penso nas minhas alunas e alunos de Jornalismo que querem cobrir esporte, e me preocupo. O futebol brasileiro não merece seu entusiasmo genuíno porque cada vez menos participa dos destinos fundamentais da nação, pela absoluta falta de competência e pela desconexão com a vida nacional do povão que o fez. 

Mas esta não é uma nota triste, nem uma noite triste. Há um monte de coisas lindas na minha e na sua vida para amarmos de verdade, muito maiores do que seu time do coração, do que a seleção. Constato, e vou para casa feliz porque, apesar do cachorro-quente, comi; ao invés de pegar o busão sonolento, cheguei em casa no meu carro. 

Minha esposa linda, que eu amo imensamente, abre o portão. Eu a beijo e digo “te amo, baby”. Subimos a escada abraçados, entro e beijo minhas filhas, que dormem. Amo o cheiro delas. Então venho escrever este texto, porque amo minha profissão.

E não pago nada, nem meia entrada, por essa imensidão de amor verdadeiro.

Fonte: Marcos Zibordi Colunista do Visão do Corre
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