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Trabalhar do tatame melhora a concentração e reduz a ansiedade, diz estudo japonês

Pesquisa japonesa identificou mudanças na atividade cerebral e relatos de menor tensão entre jovens que realizaram tarefas sentados sobre tatames de igusa; entenda

8 set 2026 - 17h10
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Resumo
Um estudo da Universidade de Kyushu, no Japão, revelou que trabalhar sentado em tatames feitos de igusa, um junco tradicional, melhora a concentração e reduz a ansiedade. Testes de eletroencefalograma mostraram aumento nas ondas cerebrais ligadas ao foco, além de efeitos relaxantes associados ao aroma da planta. Apesar dos resultados promissores, os cientistas ressaltam que o teste foi preliminar e recomendam alternar posturas e materiais no dia a dia em vez de abandonar a cadeira de escritório.

Passar horas sentado diante do computador já se tornou parte da rotina de muita gente. E, enquanto cadeiras ergonômicas, mesas ajustáveis e até poltronas reclináveis aparecem como alternativas para tornar esse período mais confortável, pesquisadores japoneses resolveram investigar uma possibilidade muito mais tradicional: sentar sobre um tatame.

Pesquisa japonesa identificou mudanças na atividade cerebral e relatos de menor tensão entre jovens que realizaram tarefas sentados sobre tatames de igusa; entenda
Pesquisa japonesa identificou mudanças na atividade cerebral e relatos de menor tensão entre jovens que realizaram tarefas sentados sobre tatames de igusa; entenda
Foto: Reprodução: Jens F/Pexels / Bons Fluidos

Presente há séculos na cultura japonesa, o tatame feito com igusa, uma espécie de junco utilizada na fabricação desse revestimento, pode ter efeitos interessantes sobre a concentração e o estado emocional durante tarefas que exigem atenção. É o que indica uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade de Kyushu, no Japão, e publicada na revista científica Scientific Reports.

Os resultados sugerem que permanecer sobre esse material durante a realização de determinadas atividades pode favorecer padrões de atividade cerebral associados à atenção e ao envolvimento cognitivo. Os voluntários também relataram menor tensão e ansiedade. Mas será que isso significa que chegou a hora de abandonar a cadeira do escritório?

Tatame pode ajudar na concentração?

Para investigar a questão, os pesquisadores criaram um ambiente controlado e compararam o desempenho de pessoas submetidas a duas condições diferentes. Os participantes foram colocados em uma sala à prova de som. Parte realizou as atividades sentada sobre tatames confeccionados com igusa, enquanto a condição de comparação utilizou colchonetes de polipropileno, material plástico sem o aroma característico do junco.

Enquanto os voluntários executavam tarefas que exigiam atenção, os pesquisadores observaram tanto o tempo de reação quanto a atividade elétrica cerebral por meio de eletroencefalograma (EEG).

Depois, os participantes responderam a questionários que ajudaram a avaliar aspectos como conforto e estresse. "Nossa equipe tem utilizado métodos científicos objetivos para investigar os efeitos do Igusa nas pessoas. Anteriormente, demonstramos que os compostos aromáticos do Igusa têm efeitos relaxantes. Desta vez, quisemos explorar outros benefícios, como o humor, a resiliência ao estresse e o engajamento em tarefas", explica Kuniyoshi Shimizu, professor responsável pela pesquisa.

O que aconteceu no cérebro dos participantes?

As medições revelaram diferenças na atividade cerebral quando as tarefas eram realizadas sobre o tatame de igusa. Os pesquisadores identificaram alterações em determinadas ondas cerebrais durante a comparação entre momentos de descanso e de atividade. Entre os achados, houve aumento da atividade beta em algumas regiões enquanto os participantes executavam as tarefas - resultado interpretado pelos autores como sinal de maior foco e engajamento cognitivo.

A atividade das ondas alfa, por sua vez, apresentou maior estabilidade durante os períodos de repouso. "Contamos com um total de 17 voluntários com idade média de 21,5 anos. Ao compararmos os resultados das tarefas realizadas no tapete Igusa com a condição de controle, observamos uma diferença significativa. Os resultados do EEG mostraram que, quando os participantes estavam sentados nos tapetes Igusa enquanto realizavam suas tarefas, apresentavam um aumento na atividade das ondas beta em certas partes do cérebro. Isso indica que eles tiveram maior foco e melhor engajamento cognitivo", afirma Shimizu.

Além das medições cerebrais, os relatos dos próprios participantes apontaram para redução da tensão e da ansiedade na condição com o material tradicional japonês.

O segredo pode estar também no cheiro do tatame

Um detalhe importante é que não estamos falando simplesmente de "trabalhar no chão". O material utilizado na pesquisa foi o igusa, que possui características próprias, inclusive um aroma natural.

Esse aspecto interessa aos cientistas porque pesquisas anteriores da mesma equipe já haviam investigado os compostos aromáticos liberados pela planta e observado possíveis efeitos relacionados ao relaxamento.

Assim, os resultados não permitem concluir que trocar a cadeira por qualquer tapete, almofada ou piso produzirá os mesmos efeitos. Parte da experiência pode estar ligada justamente às características sensoriais do igusa, além da própria maneira de se sentar.

Então trabalhar no tatame melhora o rendimento?

Os resultados são interessantes, mas ainda precisam ser interpretados com cautela. A pesquisa contou com apenas 17 participantes, todos bastante jovens - a média de idade era de 21,5 anos. Isso significa que não é possível afirmar que os mesmos efeitos apareceriam em pessoas de outras faixas etárias ou em situações reais de trabalho durante várias horas.

Também existe uma diferença importante entre apresentar sinais de maior engajamento durante uma tarefa experimental e, de fato, tornar-se mais produtivo durante um expediente inteiro.

O estudo, portanto, não prova que abandonar a cadeira fará alguém trabalhar melhor ou produzir mais. Ele oferece pistas de que o ambiente físico (incluindo os materiais com os quais temos contato) pode interferir na maneira como nos sentimos e nos envolvemos com uma atividade.

Vale trocar a cadeira pelo chão?

Não é preciso aposentar a cadeira ergonômica depois de ler os resultados. Permanecer durante muitas horas em qualquer posição pode gerar desconforto, especialmente quando o corpo não está acostumado.

Mas a pesquisa traz uma reflexão interessante para quem trabalha ou estuda por longos períodos: talvez variar o ambiente e a postura ao longo do dia seja mais interessante do que permanecer imóvel durante horas.

Criar um pequeno espaço confortável no chão para ler, estudar, meditar ou realizar tarefas por períodos mais curtos pode ser uma forma de experimentar outra relação com o ambiente - desde que não provoque dores ou desconfortos.

Mais do que transformar o tatame em uma nova regra para o home office, a descoberta reforça algo cada vez mais explorado pela ciência: o espaço ao nosso redor não é apenas cenário. Texturas, aromas, postura e outros estímulos sensoriais também podem participar da forma como o cérebro responde às atividades do cotidiano.

Bons Fluidos
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