Solidão na gravidez: o que muitas mulheres sentem, mas nem sempre conseguem nomear
Solidão na gravidez pode surgir mesmo em gestações desejadas. Entenda por que esse sentimento é mais comum do que parece.
O relato de Rafa Kalimann sobre a solidão vivida durante a gestação ajuda a colocar luz sobre um sentimento que muitas mulheres conhecem, mas nem sempre conseguem nomear.
Mesmo quando a gravidez é desejada, ela pode ser atravessada por medo, ansiedade, fragilidade e desamparo emocional. E reconhecer isso é importante porque a maternidade ainda costuma ser tratada como se fosse um período de felicidade plena.
Na vida real, nem sempre a experiência acontece dessa forma. A gestação pode reunir sentimentos opostos ao mesmo tempo.
Amor, alegria, medo, frustração e insegurança podem coexistir na mesma mulher, inclusive quando esse bebê foi muito esperado.
Isso não significa falta de amor. Significa apenas que a gravidez real nem sempre corresponde àquela imagem idealizada que muitas mulheres construíram antes de engravidar.
Ambivalência não é rejeição
Na psicologia perinatal, isso tem nome. Ambivalência é quando sentimentos opostos convivem dentro da mesma experiência.
Uma mulher pode desejar muito ser mãe e, ainda assim, se sentir mal em alguns momentos da gestação.
Pode estar feliz com a chegada do bebê e, ao mesmo tempo, sofrer com sintomas físicos, mudanças no corpo, medo do futuro e alterações na relação com o parceiro.
Esses altos e baixos não deveriam ser tratados como exagero nem como sinal de fraqueza. Eles fazem parte da realidade emocional de muitas gestantes.
O problema é que ainda existe uma expectativa social de que toda gravidez deveria ser vivida com plenitude.
Quando isso não acontece, a mulher pode achar que há algo de errado com ela. E é justamente aí que a culpa costuma crescer.
Solidão na gestação não é só ausência física
Outro ponto importante é que a solidão na gravidez nem sempre acontece quando a mulher está sozinha de fato. Muitas vezes, ela aparece mesmo dentro de uma relação.
Presença não é apenas estar no mesmo ambiente.
Presença envolve escuta, disponibilidade emocional, divisão de responsabilidades e capacidade de acolher essa mulher em um período em que ela está mais vulnerável.
Quando isso existe, funciona como fator de proteção para a saúde mental materna. Quando não existe, a sobrecarga emocional tende a aumentar.
A chegada de um bebê costuma sobrecarregar o casal. Mas a parceria muda a forma como essa sobrecarga é vivida.
Quando existe divisão real e corresponsabilidade, a mulher sente que não está carregando tudo sozinha. E isso faz diferença na forma como ela atravessa a gestação e o pós-parto.
A saúde mental do pai também precisa entrar na conversa
Ao mesmo tempo, eu considero importante fazer uma ressalva. Nem todo afastamento de um pai durante a gestação, como no relato de Rafa Kalimann sobre Nattan em seu documentário, deve ser lido automaticamente da mesma forma.
Há casos, sim, em que existe irresponsabilidade afetiva. Mas também há situações em que a fuga, a evitação ou a dificuldade de se implicar podem sinalizar sofrimento emocional diante da chegada de um filho.
Isso não diminui a dor da mulher, nem relativiza sua solidão. Mas ajuda a compreender a dinâmica familiar de forma mais completa.
Saúde mental materna e saúde mental paterna não precisam ser tratadas como temas concorrentes.
Antes de reduzir esse comportamento à ideia de descaso, é importante observar se esse padrão já existia antes, se houve mudança na relação e como esse casal vinha lidando com a chegada do bebê.
Em alguns casos, o homem está apenas repetindo um padrão de ausência. Em outros, pode haver ali um sofrimento que aparece de forma diferente.
Os primeiros meses podem ser especialmente confusos
Outro aspecto que costuma pesar é que, no início, muitas mulheres sabem que estão grávidas, mas ainda não sentem essa experiência de forma concreta.
Não há barriga evidente, não há movimentos fetais, e a experiência pode parecer mais mental do que real.
Isso pode aumentar a sensação de estranhamento e dificultar até a construção do vínculo com a gestação.
Aos poucos, conforme o corpo muda, a barriga aparece e os movimentos do bebê começam, essa experiência pode se tornar mais palpável para a mulher e para a família.
Além disso, as transformações físicas também pesam.
Ganho de peso, crescimento da barriga, aumento dos seios, manchas e estrias fazem parte do processo, mas nem sempre são vividos com tranquilidade.
Quando essa mulher construiu uma relação rígida com o próprio corpo, essas mudanças podem afetar a autoestima e, com ela, a saúde emocional.
Quando buscar ajuda
Oscilações emocionais podem fazer parte da gravidez, mas merecem atenção quando o sofrimento se torna intenso, frequente ou começa a afetar o sono, o apetite, a rotina, os vínculos ou a relação da mulher com a gestação.
Existem alguns sinais que merecem atenção especial:
- tristeza persistente
- ansiedade intensa
- crises de pânico
- sensação constante de desamparo
- sofrimento que começa a comprometer a rotina
- dificuldade importante de se conectar com a gestação
Nesses casos, buscar apoio profissional é importante. Não para transformar toda experiência difícil em diagnóstico, mas para evitar que esse sofrimento siga sendo tratado como algo que a mulher deveria suportar sozinha.
Falar sobre saúde mental materna ajuda justamente a reduzir a culpa de quem não vive a gravidez como um período idealizado.
Porque uma mulher pode se sentir bem em alguns momentos e mal em outros. Pode desejar esse bebê e, ainda assim, atravessar a gestação com solidão, medo e ambivalência.
E reconhecer isso também faz parte do cuidado.
Leitura Recomendada: Mês das Mães: 7 sinais de que o sofrimento materno pode estar sendo silenciado
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.