Será que é enxaqueca?
Doença neurológica confundida com enxaqueca pode levar à cegueira
A hipertensão intracraniana idiopática afeta predominantemente mulheres jovens
Uma dor de cabeça diária, zumbido constante no ouvido, visão turva e a sensação de que algo pressiona o cérebro por dentro. Esses são os sintomas mais comuns da hipertensão intracraniana idiopática (HII), uma condição neurológica - confundida com enxaqueca - que afeta predominantemente mulheres em idade fértil, com incidência de até 20 casos por 100 mil pessoas entre mulheres com obesidade, segundo dados dos Manuais MSD (2025). Em mulheres com peso normal, essa proporção cai para 1 por 100 mil.
Ainda pouco conhecida pelo grande público, a doença pode levar à perda visual permanente se não tratada a tempo. E um dos maiores obstáculos para isso é justamente o diagnóstico tardio.
Uma doença silenciosa e subdiagnosticada confundida com enxaqueca
Para o neurocirurgião Victor Hugo Espíndola, a confusão com outras condições está no centro do problema. "Apesar da gravidade potencial, a HII frequentemente é confundida com enxaqueca ou outros tipos de cefaleia, e essa confusão retarda o diagnóstico e o tratamento", afirma.
Entre os pacientes diagnosticados, de 68% a 98% apresentam cefaleia como sintoma principal, segundo estudo publicado na Radiologia Brasileira (2022). Mas não para por aí. "Outros sinais incluem papiledema, que é o inchaço no nervo óptico, escurecimentos visuais transitórios, zumbido pulsátil, diplopia e dor retro-orbitária", complementa o especialista.
O médico também explica como acontece o aumento da pressão dentro do crânio. "As veias responsáveis pela drenagem do sangue do cérebro, os chamados seios venosos, apresentam um estreitamento, chamado de estenose. Isso dificulta a drenagem e eleva progressivamente a pressão intracraniana", detalha Espíndola.
Diagnóstico
Segundo o especialista, o diagnóstico da HII é de exclusão e exige uma sequência de exames. A ressonância magnética com venografia (angioRM venosa) é o exame de imagem de escolha para identificar eventuais estenoses nos seios venosos. A punção lombar é recomendada para medir a pressão do líquido cefalorraquidiano e confirmar a elevação. O acompanhamento oftalmológico, com análise do campo visual e fundo de olho, é essencial para monitorar o papiledema e o risco de perda visual.
Tratamento da doença confundida como enxaqueca
Os tratamentos para a HII evoluíram muito nos últimos anos. "Por muito tempo, as opções se limitavam a medicamentos, punções lombares repetidas e cirurgias invasivas, como a derivação ventriculoperitoneal ou a fenestração da bainha do nervo óptico, procedimentos eficazes, mas com altas taxas de recorrência e complicações", conta o neurocirurgião.
Hoje, uma alternativa minimamente invasiva tem ganhado força: o implante de stent no seio venoso. A técnica consiste em abrir o estreitamento da veia com um dispositivo que mantém o vaso dilatado, restaurando o fluxo sanguíneo e reduzindo a pressão intracraniana.
Para Espíndola, o avanço mudou o panorama do tratamento. "Quando identificamos que há uma estenose no seio venoso contribuindo para o aumento da pressão, o implante do stent se torna uma opção muito precisa e eficaz, minimamente invasiva e com resultados consistentes na literatura científica recente. O mais importante é que, quando tratada a tempo, é possível preservar completamente a visão do paciente", afirma.
O médico reforça ainda a importância de não ignorar os sinais. "Toda mulher jovem com dor de cabeça persistente, zumbido pulsátil ou alterações visuais deve ser investigada. A HII não é rara, ela é subdiagnosticada. E a janela para preservar a visão pode ser curta", alerta.
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