Viúva cearense viaja à Europa para jogar cinzas e realizar últimos desejos do marido: 'Viver para honrá-lo'
Esther de Jesus compartilha nas redes sociais a última etapa da viagem para espalhar as cinzas do marido na França
A influenciadora Esther Alencar de Jesus, 27 anos, irá realizar em agosto os últimos pedidos feitos pelo marido antes de morrer. No dia 27 de julho, ela parte para a Europa com as cinzas de Ever de Jesus para fazer um mochilão, que batizou com o nome “Beleza e Aventura", duas palavras que definem bem a história de amor improvável da cearense com o curitibano.
A história do casal foi interrompida pelo diagnóstico de um câncer metastático em 2024, quando Ever descobriu um tumor no estômago. A notícia levou Esther a registrar o último ano das aventuras que viveu com o marido e compartilhar com seus mais de 219 mil seguidores nas redes sociais. “Esse mochilão é um grande combo de coisas que ele me pediu. Vai ser muito sobre ele e vai terminar o ciclo das cinzas”, afirma a criadora de conteúdo.
Como último pedido, o professor de música deixou para Esther a missão de espalhar suas cinzas por três lugares ligados à história do casal: Fortaleza, Curitiba e Lyon, na França. Para cumprir a promessa, ela vai realizar o mochilão que passará pela Escócia, Holanda e Itália, antes de chegar ao destino final, na França. Todos os momentos estão sendo registrados e compartilhados em tempo real nas redes sociais da influenciadora.
“Quando o Ever me pede para jogar as cinzas nesses três lugares, ele me desafia a não ficar quieta. Então acho que com todas essas coisas, ele está me pedindo para viver. No fundo, parece um mapa para eu me movimentar”, conta a criadora de conteúdo.
Amor à primeira vista que virou casamento
A trajetória do casal viralizou em 2024, quando Esther publicou vídeos contando como os dois se conheceram. Os detalhes da história são tão inusitados, que os seguidores chegaram a compará-la a um “roteiro de filme de romance”. O vídeo mais famoso da série alcançou 6 milhões de visualizações e mostra, em três minutos, como a influenciadora conheceu e perdeu o amor de sua vida.
Em 2020, a artista plástica de Fortaleza (CE) viajou a São Paulo para participar do evento musical gospel The Send, realizado no Estádio do Morumbi. Segundo a organização, 80 mil pessoas estiveram no local. Em meio às 12 horas de música, Esther reparou em um rapaz de cabelos ondulados e All Star vermelho, que pulava e dançava no meio da multidão. Era Ever de Jesus, professor e contabilista que morava em Curitiba (PR) e havia viajado à capital paulista com amigos.
“Poderíamos estar em vários lugares do estádio, mas estávamos lado a lado no campo, a três metros de distância”, conta. Segundo ela, só foi preciso os dois começarem a conversar para a paixão nascer. “Nos conhecemos através de um amigo meu que puxou assunto com ele. Parecia que eu e ele éramos melhores amigos de uma vida toda. Gostávamos das mesmas bandas, fazíamos piadas parecidas e ficamos conversando por horas”, recorda.
O que marcou a artista naquele momento aconteceu quando Ever tentou adivinhar seu nome e, de primeira, arriscou: “Esther”. Foi mais um dos ‘mistérios do acaso’ que pareciam unir o casal naquele dia 8 de fevereiro de 2020. “Ali pensei que, se fosse para casar, seria com aquele tipo de homem. Eu nunca tinha sentido isso por alguém. E ele me contou, depois que já estávamos juntos, que também teve esse tipo de pensamento sobre mim”, relata.
O namoro engatou em meio ao início da pandemia da covid-19 e à distância, os dois mantinham o relacionamento por chamadas de vídeos. Ainda no primeiro semestre de 2020, Ever viajou a Fortaleza para conhecer a família de Esther.
Durante o período de isolamento social, ficou hospedado na casa da mãe dela, Chel Alencar, 52, e passou a conviver de perto com a irmã da namorada, Sarah Alencar, 21, o pai, Sérgio Lima, 57, e o padrasto, Sérgio Lopes, 62. “Foi ali que ele virou família. Passávamos o dia todo juntos, conversando sobre tudo”, conta.
Oito meses depois do primeiro contato, em outubro, os dois se casaram e se mudaram para Curitiba. Nesse período, Ever, segundo Esther, já havia “conquistado" todos da família e seus os amigos dela. “Casar rápido não era uma coisa que eu e ele sonhávamos, simplesmente aconteceu. Mas quando chegamos no episódio do câncer percebemos que tinha que ser rápido porque precisávamos de todo tempo do mundo porque Deus sabia que não teríamos tanto tempo assim.”
O diagnóstico que mudou a vida do casal
Em maio de 2024, os dois viviam um momento de realização profissional em Curitiba. Dividiam o tempo entre os empregos que ajudavam a pagar as contas e os projetos ligados ao que sempre sonharam fazer. Esther trabalhava com arte e educação no Sesc e cursava a faculdade de Artes Visuais, enquanto Ever atuava na área de contabilidade da Prefeitura. Paralelamente, ela produzia quadros por encomenda, e ele dava aulas de música e francês no projeto de oficinas artísticas que os dois haviam criado, o ‘Ateliê Secreto’, além de participar de uma banda.
No entanto, dores persistentes de estômago que Ever sentia acenderam o sinal de alerta para o casal. “Um dia, eu acordei de madrugada e o ouvi vomitando. Me lembro de ter pensado: ‘Isso tem cara de câncer’”, conta. Foi então que ela marcou uma consulta com um especialista, que pediu uma endoscopia.
O resultado do exame mudou a vida dos dois para sempre: Ever foi diagnosticado com câncer no estômago e precisaria passar por uma cirurgia para retirar o tumor e iniciar o tratamento adequado. Sem pensar duas vezes, Esther comprou passagens de última hora. No dia seguinte, eles voltaram para Fortaleza, onde poderiam contar com o apoio da família dela, que foi essencial para Ever, já que ele havia perdido a mãe ainda na adolescência e nunca conheceu o pai.
“Nesse dia a gente perdeu tudo. Não íamos mais voltar para Curitiba, outras pessoas fizeram a mudança da nossa casa para nós. E, em Fortaleza, o Ever ficou internado. Precisou colocar uma sonda até fazer a cirurgia, e começou a perder muito peso”, relembra. “Até então era só um diagnóstico de câncer no estômago. O que podíamos imaginar era que seria retirado o tumor ou o estômago", diz.
Duas semanas depois, Esther aguardava na sala de espera do hospital quando foi chamada ao centro cirúrgico em menos de 15 minutos após o início da cirurgia de Ever. O médico que surgiu, ainda de máscara, revelou que o quadro era ainda mais preocupante do que se esperava: Havia um câncer metastático no peritônio. Confusa, a esposa perguntou o que aquilo significava, e o doutor respondeu: “Não tem cura.”
“Na primeira notícia de diagnóstico do câncer de estômago eu não chorei. Sempre achei que seria o tipo de pessoa que choraria muito se recebesse essa notícia, mas enxuguei três lágrimas e só me decepcionei com a vida”, conta Esther. “Na segunda vez, quando soube que era metástase, desci as escadas do hospital, liguei para minha mãe e pedi para ela voltar. Me sentei no chão e fiquei dez minutos em silêncio. Lembro de olhar para o céu e dizer ‘Não estou entendendo’ [...] Em vários momentos eu pensava ‘Essa não é minha vida. Vou acordar desse pesadelo’”, relembra.
De acordo com o Dr. Mauro Donadio, oncologista na Oncoclínicas, na maioria das vezes, o câncer no peritônio tem origem em outros órgãos e se espalha para a membrana. “O peritônio é uma fina membrana que reveste a parte interna do abdômen e envolve diversos órgãos. Quando falamos em ‘câncer de peritônio’, estamos nos referindo a um tumor que acomete essa membrana. Na maioria das vezes, não se trata de um câncer que nasce no peritônio, mas sim de uma disseminação de tumores originados em órgãos como intestino, estômago, apêndice, pâncreas ou ovário e, menos frequentemente, de outros sítios primários. Nesses casos, as células cancerígenas se desprendem do tumor original e se implantam na superfície do peritônio”, explica o especialista.
“O principal fator de risco depende do câncer de origem. Algumas síndromes hereditárias podem aumentar o risco de desenvolver determinados tumores digestivos em idade precoce, mas representam apenas uma pequena parcela dos casos.”
Ever recebeu da equipe médica a estimativa de oito meses a um ano de vida. Durante o tratamento, foram tentadas sessões de quimioterapia que, segundo a influenciadora, o debilitaram muito e não surtiram efeito esperado de melhora de qualidade de vida. Por isso, o casal decidiu interromper as tentativas e passou a concentrar as energias em aproveitar os últimos momentos juntos.
A lista de desejos de Ever e o último ano
O diagnóstico de metástase levou o casal a mudar a forma como viviam. Os dias passaram a ser dedicados a idas às praias, comer as comidas favoritas, gravar as composições de Ever, conhecer novos lugares juntos no Ceará e registrar os momentos que, em breve, se tornariam memórias. “Eu queria viver, mas ter esses momentos guardados. Sinceramente, teve períodos em que nem lembramos que ele tinha câncer, porque estávamos vivendo”, argumenta.
Além de viver intensamente o presente, Ever definiu diretrizes para que a esposa continuasse realizando sonhos e construindo a própria história mesmo após sua partida.
“Começamos a falar mais sobre a morte quando os sintomas começaram a aparecer. O medo daquela fraqueza também trazia o medo da morte. Foi então que começamos a conversar sobre todas essas coisas que ele me pediu para fazer depois. A gente debatia e negociava... Negociamos até o tempo que eu deveria ficar sem namorar ninguém”, conta. Segundo Esther, o músico queria que ela voltasse a “paquerar” menos de um ano após sua morte, mas ela não concordava com o pedido.
A lista reúne desde pedidos mais simples, como a forma como Esther deveria se manter autêntica até no corte de cabelo e jamais se esconder do mundo com timidez, até desejos maiores, como formar uma nova família, mudar de cidade, conhecer o Rio de Janeiro, comprar uma câmera e viajar pelo mundo registrando as novas aventuras.
Foi justamente uma dessas aventuras que Ever deixou planejada para Esther viver depois de sua partida. Ele pediu para ser cremado e que suas cinzas fossem espalhadas por três lugares do mundo que fizeram parte de sua história. A primeira parada foi Fortaleza, no Ceará, onde a despedida aconteceu na Prainha, onde Esther estava ao lado de amigos e familiares.
“Eu não sabia se eu ria ou chorava", conta. “Foi um sentimento estranho, é muita coisa ao mesmo tempo. Uma onda muito forte veio e eu mergulhei nela. Tentei soltar as cinzas com dificuldade, aquela coisa nada romantizada. Quando soltei, caiu a minha volta. Era azul. Me lembrei que ele foi cremado com uma camisa da França, a favorita dele. Quando saí do mar, parecia que eu tinha nascido de novo, eu entrei mal e saí aliviada, nova. Foi muito difícil, mas passei, e passei com meus amigos."
O segundo local escolhido foi Curitiba, onde viveram juntos a maior parte dos anos de casados e o lar de Ever antes de conhecer Esther. Ela viveu esse momento junto com o irmão de Esther, Gabriel Alencar, 31 anos. “Foi mais calmo, bonito. Porque joguei em um lago e vi as cinzas paradinhas, formando uma figura abstrata. Foi mais leve", diz.
O terceiro e último destino escolhido foi Lyon, na França, onde Ever morou entre 2017 e 2018, durante um intercâmbio. Lá, Esther provará algumas comidas francesas que Ever considerava “obrigatórias” em uma viagem pelo país: um queijo e o tradicional pain au chocolat. “Na última parte eu estarei sozinha. A gente pensa que vai ser incrível, ou que vai ser triste, mas tem que chegar lá para ver como vai ser”, avalia.
Mochilão de luto e planos para o futuro
Ever morreu em fevereiro de 2025, aos 25 anos, após um ano de beleza, aventura e despedidas. Segundo a esposa, ele partiu durante a noite, após receber a visita de pessoas queridas, que cantaram louvores ao seu lado. Naquela mesma noite, os dois tiveram a última atividade juntos, antes de Ever perder a consciência: uma partida de xadrez.
Após o funeral, que foi regado a lágrimas e boas lembranças, a viúva revelou que dedicou tempo a descansar e manter-se rodeada de amigos e familiares. Primeiro, ela se mudou de casa. Depois, iniciou o processo para realizar o que Ever havia pedido que ela fizesse para manter-se em movimento em meio ao luto.
“Foi um processo de descobrir o que eu queria ser. Porque eram tantas possibilidades, mas uma fragilidade emocional tão grande. Eu descobri o que é estar ‘só’ em um sentido existencial”, revela.
Em 2025, ela realizou um mochilão pelo Brasil e visitou cidades de Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais, Brasília e Rio de Janeiro, registrando nas redes sociais o seu ‘mochilão de luto’ com reflexões sobre como é continuar vivendo após perder o amor de sua vida.
“Me dediquei a viajar porque era uma coisa que ele tinha pedido. Acho que eu queria sair do meu cenário, conhecer pessoas que não sabiam o que tinha acontecido.Você acaba reconhecendo quem você é fora do cenário do luto. Você não é só a pessoa que está sofrendo”, avalia.
Ao ser questionada sobre o receio de receber ataques por expor sua história nas redes sociais, Esther afirma que os comentários de haters são comuns, mas que são as críticas relacionadas ao marido que a afetam. Por isso, caso volte a se relacionar, pretende preservar o início do relacionamento antes de expor na internet. “Os haters só querem que você note eles. Acho que se eu for me relacionar com alguém eu não vou expor. Prefiro evitar e ser feliz e quando a coisa estiver estruturada eu exponho. Porque os comentários e a comparação podem até abalar o relacionamento. Certamente virá comparação. Acho toda comparação injusta. Vai ser segredo”, pontua.
Agora, Esther parte para a última etapa dessa jornada. Com o auxílio da agência de viagem Intercâmbio Cristão, ela passará por Edimburgo, na Escócia; Amsterdã, na Holanda; Florença, na Itália; Paris, na França; e, por fim, Lyon, onde cumprirá o último desejo de Ever. A viúva tem compartilhado nas redes sociais os preparativos para a viagem, que acredita que será “transformadora” por unir a despedida do marido e sua primeira saída do Brasil.
Entre os planos para o futuro, ela deseja se mudar da cidade natal, retomar e concluir a faculdade e terminar de escrever o livro que conta a história do casal, o “Everesther Romance”, como chama nas redes sociais, além de divulgar mais seu primeiro livro já lançado, Baru, e suas pinturas.
“Saber que posso honrar a vida do Ever com a minha vida me traz paz. Porque, às vezes, o luto mente para você, dizendo que você não pode ser feliz. Como se, sendo feliz, estivesse dizendo que gostou que a pessoa morreu e não é verdade. Sendo feliz você estará honrando a pessoa que partiu”, diz. “Um recado que eu deixo para as pessoas que passaram por isso é que vocês não estão sozinhos. Atravessar essa experiência faz dessas pessoas muito fortes e admiráveis", afirma.
“Passei cinco anos com o Ever, tive pouco tempo de vida com ele. Mas a ótica pela qual escolhi ver nossa história é de que tenho sorte de ter tido esse tempo. Ele mudou a minha família, ele me mudou. Vi muitas pessoas sendo suas melhores versões perto dele. Escolho reconhecer a sorte de ter vivido com ele e deixar esse sentimento ser maior do que o azar de não tê-lo agora", finaliza Esther.

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