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Caso Kabuto: por que uma lesão na coluna pode causar dor mesmo após perda dos movimentos?

Lutador teve fraturas graves após golpe ilegal em luta de jiu-jítsu; especialista explica as dores

5 set 2026 - 05h58
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Kabuto sofre fortes dores e está recebendo morfina.
Kabuto sofre fortes dores e está recebendo morfina.
Foto: Vakinha / Vakinha

O caso do lutador de jiu-jítsu Willian Hiroyuki Masuda, conhecido como Kabuto, chamou atenção pela gravidade da lesão sofrida durante uma competição em Londrina (PR). Após o impacto, o atleta perdeu os movimentos e a sensibilidade do tórax para baixo. Segundo relatos divulgados pela família, ele passou por cirurgia e está recebendo fortes medicamentos, como morfina, para controlar a dor intensa e a febre. 

Em 22 de agosto, Kabuto recebeu um golpe conhecido como "bate-estaca", movimento proibido em competições da modalidade, e sofreu uma fratura e luxação entre a quinta e a sexta vértebras cervicais (C5 e C6), com compressão da medula espinhal. Ele passou por uma cirurgia complexa para reposicionar e estabilizar as vértebras e permanece em recuperação. 

Mesmo com uma lesão tão grave a ponto de perder os movimentos, Kabuto segue com fortes dores. “A dor que ele está tendo é até onde ficou a última raiz sensitiva e motora. Ela deve estar possivelmente na região cervical e até onde vai no braço, que são partes das raízes que ainda estão preservadas após o trauma. Ele não está sentindo dor na perna, no tórax, na barriga, é nos braços e cervical”, explicou o ortopedista e traumatologista César Daniel Macedo, em entrevista ao Terra. 

O que é dor neuropática

No caso de uma lesão cervical como a do atleta, esse incômodo é classificado como dor neuropática, que é uma alteração causada por danos ou compressão de nervos e raízes nervosas na região do pescoço.

“Quando você sente a dor é uma dor neuropática após uma lesão da raiz que acontece nesse nível de C5 e C6. É onde ainda se preservou alguma coisa”, disse Dr. Macedo.

Ela pode ter características diferentes de uma dor provocada simplesmente por uma pancada ou inflamação. Pode ser descrita como queimação, choque, formigamento, pontadas ou dor irradiada ao longo do trajeto de um nervo.

O ortopedista ainda ressalta que a dor neuropática é muito comum em pessoas que tiveram trauma medular.

“São raízes que levam a informação para o braço, é uma dor irradiada para o braço e no pescoço. Não é uma dor inflamatória, é uma dor de percurso nervoso”, contou. 

O que aconteceu com a coluna de Kabuto?

Segundo o médico Macedo, especialista em cirurgia de coluna pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP), o mecanismo do acidente ajuda a entender a extensão da lesão.

“Não só pela queda em si, mas pela força que o outro companheiro fez em cima dele, levando uma carga que a gente chama de axial. Fazendo com que batesse a cabeça no chão, transmitisse essa carga axial para a região cervical, levando a uma luxação dessas duas vértebras, C5 e C6. Quando ele cai, bate a cabeça no chão e torce o pescoço para frente, isso leva a vértebra a escorregar para frente, com esmagamento de medula”, explicou.

O resultado foi lesão grave com fratura e luxação, em que uma vértebra se desloca em relação à outra, comprimindo a medula. A cirurgia envolveu abordagens pela parte anterior e posterior da coluna para estabilizar a região.

“Foi uma lesão bifacetária, onde ele escorregou toda a vértebra. E por isso que a gente considera como uma lesão completa. Pegou tanto a parte anterior como posterior da medula. E isso leva tanto a uma lesão motora quanto sensitiva. Tem lesões que acabam não fazendo todo esse escorregamento, sendo parcial, com possibilidade do paciente voltar às funções neurológicas”, contou o Dr. Macedo. 

A febre pode ser sinal de inflamação?

A febre é outro sintoma que precisa ser interpretado com cautela. Segundo Macedo, pacientes com lesões medulares graves podem apresentar alterações no funcionamento do Sistema Nervoso Autônomo (SNA), responsável por controlar funções involuntárias do organismo, como pressão arterial, frequência cardíaca e regulação da temperatura.

Um exemplo é o chamado choque neurogênico, que pode ocorrer após determinadas lesões da medula e provocar alterações cardiovasculares e na regulação da temperatura corporal.

“O choque neurogênico que acontece nesses pacientes, alterando um pouco o sistema simpático, pode causar alterações tanto da temperatura como da pressão. Às vezes pode ser um início de uma infecção de pneumonia, tanto que ele está sendo bem acompanhado na questão respiratória para ver se não vai entrar em quadro de infecção pulmonar”, explicou o Dr. Macedo.

Essa preocupação é particularmente relevante porque pacientes com lesões cervicais graves podem apresentar dificuldade para respirar adequadamente e ficam mais vulneráveis a complicações respiratórias. A imobilidade prolongada também aumenta o risco de outras complicações, como lesões e infecções de pele e trombose.

Ainda é possível recuperar movimentos?

No caso de Kabuto, a avaliação da extensão do dano depende de exames neurológicos, imagens e da evolução clínica ao longo do tempo.

O ortopedista destaca ainda que a recuperação de uma lesão nervosa pode ser lenta. Segundo ele, determinados nervos periféricos podem apresentar regeneração em uma velocidade aproximada de 1 milímetro por dia, enquanto a recuperação da medula espinhal é muito mais complexa e imprevisível.

Segundo o Dr. Macedo, não é possível estabelecer agora um prognóstico definitivo. A evolução de uma lesão medular depende de diversos fatores, incluindo a extensão do dano, o nível da lesão, o que foi preservado neurologicamente e a resposta individual ao tratamento.

“É muito cedo ainda para julgar se ele vai ficar tetraplégico para o resto da vida ou não. Nós temos até dois anos de espera para ver se os níveis motores podem voltar, mas pelo mecanismo de trava e pelas imagens tomográficas e da ressonância é de um trauma muito grave. No máximo ele tende a ter força para a movimentação do cotovelo e do ombro, da parte de baixo ele perderia praticamente toda a função”, explicou o ortopedista.

Para o Dr. Macedo, o fundamental agora é cuidar do pós-operatório e focar em tratamento de terapia ocupacional com Kabuto. “E o mais importante que nos preocupamos é a pinça para poder pegar objetos, poder usar a mão em funções do dia-a-dia”, disse.

O especialista relata que, em sua experiência com traumas, já acompanhou casos nos quais houve recuperação parcial após uma lesão inicialmente classificada como completa. “Mas a gente nunca deve dizer alguma coisa. Já há relatos de casos de pacientes que chegaram com lesão total e conseguiram pelo menos levantar e sentar, mas não ficar de pé”, finalizou. 

Fonte: Portal Terra
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