O que é pancreatite, que gerou alerta associado ao uso indevido de ‘canetas emagrecedoras’
Nos últimos cinco anos foram registradas 145 suspeitas no Brasil, com seis casos terminando em mortes, segundo a Anvisa
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta sobre o risco de pancreatite aguda associada ao uso indevido de ‘canetas emagrecedoras’, que vêm ganhando cada vez mais força no Brasil. Na nota, divulgada na segunda-feira, 9, a agência afirma que, nos últimos cinco anos, houve o registro de 145 notificações de suspeitas do tipo, com seis casos que terminaram em morte. Mas, afinal, o que é pancreatite? E qual sua é a sua associação com as canetas emagrecedoras?
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
Falar sobre pancreatite é falar sobre o pâncreas. Este órgão tem múltiplas funções no corpo. Ele é responsável por produzir hormônios como a insulina e o glucagon, que auxiliam na regulação da glicemia (açúcar no sangue), além de produzir suco pancreático, que auxilia na digestão. Quando ocorre uma inflamação nesse órgão, temos a pancreatite. É o que explica o gastrocirurgião Alvaro Faria, que atua na Clínica Gastro ABC, em entrevista ao Terra.
“Quando ocorre um processo inflamatório no pâncreas, ele se torna edemaciado (inchado), levando a dores abdominais, principalmente na região superior do abdômen, podendo irradiar para as costas, náuseas, vômitos nos casos leves, e nos casos mais graves, até icterícia, quando há obstrução dos ductos biliares. Quando grave, a pancreatite pode levar a necrose de parte dos tecidos do pâncreas e complicar com a formação de abscessos e pseudocistos”, complementa.
O que causa a pancreatite? É variável, e pode incluir desde pequenos cálculos da vesícula que se deslocam, provocando um entupimento momentâneo dos ductos biliares que passam pelo pâncreas, até em decorrência da grande ingestão de álcool, além de doenças metabólicas, alguns vírus e também em decorrência de alguns medicamentos, diz o especialista.
E as canetas emagrecedoras? A relação é conhecida, com estudos que apontam um aumento do risco de desenvolvimento de pancreatite aguda com o uso destes medicamentos, embora o risco seja considerado baixo e as medicações extremamente seguras para o uso. “Com o aumento do uso deste tipo de medicamentos, obviamente vamos ver com maior frequência a presença dos eventuais efeitos adversos, mas que não contra indicam o uso das canetas emagrecedoras, desde que sejam feitas sob a supervisão e acompanhamento com um médico”, pontua Faria.
Esse é um dos motivos que ressaltam a importância de que o uso das canetas emagrecedoras seja feito com o devido acompanhamento médico e com a partir de receitas regularizadas. “As canetas emagrecedoras podem aumentar discretamente o risco de pancreatite, especialmente em indivíduos predispostos, e a decisão de uso deve considerar o histórico clínico e monitoramento adequado que só ocorre quando o paciente realiza o acompanhamento médico adequado”, explica.
A preocupação em torno da questão fez a Anvisa determinar, em junho de 2025, que farmácias e drogarias passassem a reter a receita desses medicamentos. “Desde então, a prescrição médica passou a ser feita em duas vias, e a venda só pode ocorrer com a retenção da receita na farmácia ou drogaria, assim como acontece com os antibióticos. A validade das receitas é de até 90 dias, a partir da data de emissão”, informa a agência em nota.
Como a pancreatite é diagnosticada? A pancreatite é diagnosticada apenas por especialistas, com auxílios de exames laboratoriais específicos, assim como exames de imagem como a tomografia computadorizada. “O tratamento da pancreatite normalmente envolve a reposição de fluídos intravenosos de maneira bem agressiva, o jejum para ‘repouso’ do pâncreas e o suporte clínico geral, não havendo uma ‘medicação específica’ para o caso. Após a resolução do quadro de pancreatite, deve se tratar a causa que levou a inflamação, quando conhecida, ou seja, no caso de pedras na vesícula, a cirurgia, quando relacionado com álcool, o tratamento do etilismo e o monitoramento de triglicerídeos e eventuais uso de medicamentos”, finaliza.
Obesidade e pancreatite
Ricardo Cohen, cirurgião bariátrico e diretor do Centro de Obesidade e Diabetes do Oswaldo Cruz, alerta para a associação das medicações para tratar a obesidade quando o tratamento é feito da maneira correta. “A gente tem que tomar cuidado em assumir relação, porque ‘causa’ e ‘efeito’, não quer dizer a mesma coisa que associação. Existe uma associação de obesidade com pancreatite. Será que esses indivíduos que tomam as medicações iriam ter a pancreatite com ou sem a medicação? Não sabemos”, pontua.
Em contrapartida, a obesidade, em si, é um fator que causa pancreatite, alega. “Pessoas com obesidade têm mais chance de ter pancreatite. Tomando ou não medicação. Então a gente sempre fica de olho”.
