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Na 'era das pandemias', mais de 500 mil vírus podem 'saltar' para humanos, alertam cientistas

Painel intergovernamental ligado à ONU defende que esse risco está diretamente relacionado ao impacto humano no meio ambiente, como desmatamento e tráfico de animais, e para escaparmos desse perigo é preciso lidar com essas questões

29 out 2020
11h11
atualizado às 12h39
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Futuras pandemias surgirão com cada vez maior frequência, se espalharão mais rapidamente, causarão mais danos à economia mundial e matarão mais pessoas do que a situação atual que vivemos com a covid-19, se não forem adotadas globalmente estratégias preventivas que envolvam também uma proteção maior ao meio ambiente. O alerta foi dado nesta quinta-feira, 29, por um painel internacional de cientistas que classificou o momento que vivemos como 'Era das Pandemias'.

O trabalho, encomendado pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), foi conduzido por um grupo de 22 cientistas que revisaram as evidências sobre a relação entre a expansão de doenças infecciosas transmitidas de animais para pessoas e a biodiversidade.

Eles indicam que é possível escaparmos dessa "Era das Pandemias" adotando medidas mais preventivas que reativas. Isso passa, recomendam, por adotar políticas e ações relacionadas à forma como lidamos com a natureza que podem diminuir os riscos de futuras pandemias. A ideia é reduzir problemas que já levam a uma série de outros impactos, como desmatamento, por exemplo.

"As pandemias têm sua origem em diversos micróbios transportados por reservatórios animais, mas seu surgimento é inteiramente impulsionado por atividades humanas", escrevem os pesquisadores no sumário executivo do relatório. "As causas subjacentes das pandemias são as mesmas alterações ambientais globais que impulsionam a perda de biodiversidade e as mudanças climáticas. Isso inclui mudança no uso da terra, expansão e intensificação da agricultura e comércio e consumo de animais selvagens", apontam.

De acordo com os pesquisadores, todas essas condições - que deixam próximos a vida selvagem, animais de criação e pessoas - acabam facilitando que micróbios dos animais se movam para as pessoas, levando a "infecções, às vezes surtos, e mais raramente a verdadeiras pandemias que se espalham por redes rodoviárias, centros urbanos e viagens globais e rotas comerciais".

O trabalho destaca que 70% das doenças emergentes no mundo, como ebola e zika, e quase todas as pandemias (influenza, HIV/Aids, covid-19) são zoonoses, ou seja, causadas por micróbios que infectavam originalmente animais. E o surgimento dessas doenças entre as pessoas está acelerando - eles calculam cinco novas por ano.

Os pesquisadores estimam que possam existir cerca de 1,7 milhão de vírus hoje desconhecidos tendo como hospedeiros mamíferos, em especial os morcegos - como ocorreu com a própria covid-19 -, ou aves. Destes, entre 540 mil e 850 mil poderiam ter a capacidade de fazer o salto das espécies e contaminar humanos.

Mas o ponto, fazem questão de frisar os autores, não é culpar a natureza, mas entender que o surgimento das doenças só ocorre porque estamos impactando o ambiente onde os micróbios estão quietinhos. O desmatamento, a expansão agrícola, o tráfico de animais nos aproxima deles. O aquecimento global e as mudanças climáticas, já associados, por exemplo, à encefalite transmitida por carrapatos na Escandinávia, podem aumentar o risco de surgimento de novas doenças ao impulsionar migrações de pessoas e de animais ao tornar algumas regiões inabitáveis.

Estratégias para prevenir novas pandemias

Agir para reduzir todas essas pressões humanas, sugerem os pesquisadores, é mais barato que lidar com uma pandemia como a de covid-19. "Estima-se que as estratégias globais para prevenir pandemias baseadas na redução do comércio de animais selvagens e de mudanças no uso da terra, além do aumento da vigilância custem entre US$ 40 bilhões e US$ 58 bilhões anuais (aproximadamente entre R$ 200 bilhões e R$ 290 bilhões) - duas ordens de magnitude a menos do que os danos causados ??pelas pandemias. Isso fornece um forte incentivo econômico para mudanças transformadoras para reduzir o risco de pandemias", escrevem os autores.

Eles comparam com alguns cálculos que estimam um custo de até US$ 16 trilhões só nos Estados Unidos até o ano que vem, isso se uma vacina contra a covid-19 já estiver sendo aplicada amplamente. Ainda não há imunizante com eficácia cientificamente comprovada contra a doença, mas já existem estudos em fase avançada de testes.

A pesquisadora brasileira Mariana Vale, professora do Departamento de Ecologia da UFRJ, que em julho publicou um estudo na revista Science também com esse alerta, comenta que a relação entre desmatamento e emergência dessas doenças é muito bem estabelecida já pela ciência e que não há mais motivos para adiar uma ação nesse sentido para prevenir novas pandemias.

"Ou a humanidade muda de atitude em relação à natureza, ou teremos que aprender a conviver com pandemias recorrentes como a covid-19", disse ao Estadão.

Ela explica que a Amazônia, que vem sofrendo com uma alta do desmatamento, oferece um risco particularmente alto para o surgimento de novas doenças. É onde está a maior diversidade de morcegos do mundo. Vivem na floresta cerca de 120 espécies de morcegos.

Para a pesquisadora, pode ser considerada uma sorte que a devastação da Amazônia até hoje ainda não tenha resultado no encontro de humanos com um vírus potencialmente pandêmico. "Alguns cientistas acham que a probabilidade é baixa. Eu sou da turma que acha que é alta", diz.

Entre as recomendações do painel científico, eles sugerem que seja criado um "conselho intergovernamental de alto nível sobre prevenção de pandemias para fornecer aos tomadores de decisão a melhor ciência e evidências sobre doenças emergentes". A ideia é que esse grupo possa prever quais são as áreas de mais alto risco, avaliar o impacto econômico de pandemias em potencial e destacar lacunas na pesquisa. Esse conselho também poderia coordenar o desenho de uma estrutura de monitoramento global.

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Estadão
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