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Marjane Satrapi faleceu 'de tristeza': é possível morrer pela perda da pessoa amada?

Segundo familiares e pessoas próximas, a autora de Persépolis, diretora e ativista franco-iraniana morreu em decorrência da dor causada pela morte do marido, o produtor e ator Mattias Ripa.

6 jun 2026 - 11h51
(atualizado às 12h31)
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Marjane Satrapi morreu um ano após o marido, Mattias Ripa.
Marjane Satrapi morreu um ano após o marido, Mattias Ripa.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

É possível morrer de tristeza?

É o que muitos têm se perguntado após a morte, aos 56 anos, de Marjane Satrapi, autora, diretora, ilustradora e ativista franco-iraniana conhecida principalmente pela série de graphic novels Persépolis.

Publicada em 2000, a obra que conquistou o mundo narra a história da jovem Marjane durante e após a Revolução Iraniana, também conhecida como Revolução Islâmica.

Oito anos depois, a adaptação para o cinema, codirigida pela própria Satrapi, foi indicada ao Oscar de Melhor Filme de Animação.

Embora não tenham sido divulgadas oficialmente as causas médicas da morte de Satrapi, familiares e pessoas próximas a atribuíram à "tristeza" que ela sofreu após a perda do marido.

"Marjane Satrapi morreu de tristeza pouco mais de um ano após a morte de Mattias Ripa, seu marido e o amor de sua vida", disse a família em comunicado enviado nesta quinta-feira (5/6) à agência AFP.

Recentemente, a autora havia publicado uma série de mensagens emocionadas no Instagram em que escrevia: "Perdi o amor da minha vida."

Ripa morreu em abril de 2025, aos 53 anos. Na ocasião, Satrapi publicou uma nota no jornal Le Figaro anunciando o falecimento.

"Marjane Satrapi anuncia com profunda tristeza o falecimento de Mattias Ripa, o homem e o amor de sua vida, que nos deixou aos 53 anos após 31 anos de uma vida maravilhosa juntos", escreveu.

Mas o luto por alguém amado pode ser tão intenso a ponto de nos levar à morte por causas naturais?

Um estudo publicado em 2014 na revista JAMA Internal Medicine descobriu que, embora raro, o número de pessoas que sofreram infarto ou AVC no mês posterior à morte de alguém querido era o dobro comparado a um grupo que não estava em luto.

No grupo de enlutados, formado por 30.447 pessoas, 50 sofreram alguma das condições mencionadas, o que representa 0,16%. No grupo sem luto, apenas 0,08%.

Sunil Shah, um dos autores do estudo e professor da Universidade de Londres, disse à BBC: "Costumamos usar a expressão 'coração partido' para nos referir à dor de perder alguém amado. Nosso estudo mostra que o luto pode ter um efeito direto na saúde do coração."

Em 2016, um dia após a morte da atriz Carrie Fisher (princesa Leia de Star Wars), sua mãe, a também atriz Debbie Reynolds, estrela do clássico Cantando na Chuva, faleceu aos 84 anos.
Em 2016, um dia após a morte da atriz Carrie Fisher (princesa Leia de Star Wars), sua mãe, a também atriz Debbie Reynolds, estrela do clássico Cantando na Chuva, faleceu aos 84 anos.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Coração atordoado

Algumas pessoas falam em "síndrome do coração partido", conhecida mais formalmente como cardiomiopatia induzida por estresse ou cardiomiopatia de Takotsubo.

"É uma condição temporária na qual o músculo cardíaco enfraquece de repente ou fica atordoado. O ventrículo esquerdo, uma das cavidades do coração, muda de forma", explica a British Heart Foundation, fundação britânica de saúde cardiovascular.

O nome científico, cardiomiopatia de Takotsubo, vem da palavra japonesa que designa um tipo de armadilha de fundo arredondado e gargalo estreito usada para capturar polvos.

O estresse súbito faz com que o ventrículo esquerdo do coração, responsável por bombear o sangue, assuma essa forma.

A anomalia pode ser desencadeada por um abalo emocional.

"Cerca de três quartos das pessoas diagnosticadas com cardiomiopatia de Takotsubo passaram por estresse emocional ou físico significativo antes de adoecer", diz a fundação. Esse estresse pode estar relacionado ao luto, mas também a qualquer outro problema.

Há casos documentados de pessoas que sofreram a condição após serem assustadas em uma brincadeira por colegas ou em decorrência do estresse de falar diante de um grande público.

Especula-se que a liberação repentina de hormônios — em particular a adrenalina — cause o atordoamento do músculo cardíaco.

Ataque do coração

Raio-x de um paciente sofrendo de cardiomiopatia.
Raio-x de um paciente sofrendo de cardiomiopatia.
Foto: SPL / BBC News Brasil

Essa situação é diferente do infarto, em que o coração para devido à interrupção do fluxo sanguíneo, geralmente por causa de artérias obstruídas.

"A maior parte dos infartos ocorre devido a bloqueios e coágulos sanguíneos que se formam nas artérias coronárias, que levam sangue ao coração", explica um artigo sobre a síndrome do coração partido publicado pela Universidade Johns Hopkins.

A maioria dos pacientes com cardiomiopatia "tem artérias coronárias bastante normais e não apresenta bloqueios graves ou coágulos", diz a instituição em seu site.

Muitas pessoas simplesmente se recuperam. O estresse passa e o coração volta à forma normal.

Mas, em outros pacientes, como idosos ou pessoas com problemas cardíacos preexistentes, a mudança no formato do coração pode levar a um desfecho fatal.

Morrer de amor?

Há também evidências de maior risco de morte após a internação de um dos membros do casal, segundo estudo publicado em 2006 no New England Journal of Medicine.

Outros estudos publicados em 2011 sugerem que as chances de morte do parceiro sobrevivente aumentam nos seis meses seguintes à morte do companheiro.

Especialistas apontam que um casamento em que os cônjuges se apoiam mutuamente atua como um alívio contra o estresse. Os parceiros também cuidam um do outro e incentivam hábitos saudáveis: lembram-se de tomar os medicamentos, por exemplo, e verificam se o outro não está bebendo demais.

Cardiomiopatia de Takotsubo é o nome correto da doença cardíaca que pode ter afetado Satrapi, mas "coração partido" explica melhor o que aconteceu.

*Com colaboração de Stephen Evans.

As chances de uma pessoa morrer aumentam nos seis meses seguintes à partida do parceiro.
As chances de uma pessoa morrer aumentam nos seis meses seguintes à partida do parceiro.
Foto: BBC News Brasil
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