Mais dor, menos escuta: o desafio das mulheres com dor crônica
Especialista explica por que a dor crônica em mulheres é mais comum e por que ainda é minimizada
A dor crônica em mulheres é mais frequente do que em homens, segundo dados da Sociedade Brasileira para Estudo da Dor (SBED). Ainda assim, muitas pacientes relatam que suas queixas são minimizadas no atendimento médico.
O problema envolve fatores biológicos, hormonais e também sociais. Entender essa combinação é essencial para melhorar diagnóstico e tratamento.
Por que mulheres sentem mais dor crônica?
Estudos mostram que diversas condições dolorosas são mais prevalentes no sexo feminino. Entre elas estão:
-
Dor lombar.
-
Dor no ombro e joelhos.
-
Dor orofacial.
-
Enxaqueca (migrânea).
-
Fibromialgia.
Na fibromialgia, por exemplo, a proporção pode chegar a quatro mulheres para cada homem diagnosticado.
Também existem síndromes específicas do sexo feminino, como:
-
Dismenorreia (dor menstrual).
-
Dor pélvica crônica.
-
Dor vulvar crônica.
-
Dor lombar na gestação.
-
Dor do parto.
Esses dados mostram que a diferença não é pontual, mas consistente.
O papel dos hormônios
As diferenças biológicas ajudam a explicar parte do cenário. O estrogênio, hormônio fundamental para a função reprodutiva feminina, influencia a sensibilidade à dor.
Variações hormonais ao longo do ciclo menstrual, da gravidez e até pelo uso de anticoncepcionais podem alterar a resposta do sistema nervoso.
Pesquisas indicam que flutuações hormonais podem aumentar a excitabilidade de células nervosas, tornando o organismo mais sensível a estímulos dolorosos.
Isso significa que a dor não é exagero. É resposta fisiológica real.
Dor minimizada: um problema recorrente
Mesmo sendo mais prevalente e, muitas vezes, mais intensa, a dor crônica em mulheres costuma ser desvalorizada. Relatos indicam que pacientes são frequentemente rotuladas como "emocionais" ou "exageradas".
Estudos de revisão apontam um paradoxo preocupante: embora as mulheres sofram mais com dor crônica, seus relatos são levados menos a sério.
Em muitos casos, elas recebem:
-
Mais antidepressivos.
-
Menos analgésicos adequados.
-
Encaminhamentos tardios para especialistas.
Essa diferença no tratamento pode atrasar o diagnóstico e prolongar o sofrimento.
Senso comum x ciência
É importante diferenciar percepção social de evidência científica. A ciência já confirmou que diferenças biológicas existem. Isso não invalida a dor feminina, nem a transforma em fragilidade emocional.
A dor crônica é definida como aquela que persiste por mais de três meses. Ela pode ter origem inflamatória, neuropática ou multifatorial.
Quando ignorada, compromete qualidade de vida, saúde mental e funcionalidade.
Quando buscar ajuda?
Se a dor persiste, limita atividades ou interfere no sono, é essencial procurar avaliação médica. O ideal é buscar profissionais que escutem de forma atenta e realizem investigação completa.
Também pode ser necessário acompanhamento multidisciplinar, envolvendo fisioterapia, psicologia e controle medicamentoso adequado.
Dor não é "frescura". É sintoma. E merece escuta, respeito e tratamento.