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Febre do Nilo Ocidental: o que você precisa saber sobre o vírus que circula no país e fez uma vítima fatal

Com os dois registros em São Paulo e os dois em Santa Catarina, país soma quatro casos confirmados em 2026. Mas a doença não é uma novidade: o West Nile Virus circula no país há 20 anos e não vai se tornar uma epidemia

26 ago 2026 - 10h55
(atualizado às 14h28)
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Resumo
O Brasil confirmou quatro casos de febre do Nilo Ocidental em 2026, com uma morte registrada. Transmitido pelo pernilongo comum a partir de aves silvestres, o vírus já circula no país há quase 20 anos. Embora 80% das pessoas não desenvolvam sintomas, menos de 1% pode apresentar quadros neurológicos graves, com maior risco para idosos. A doença não tem potencial epidêmico como a dengue porque humanos são hospedeiros finais, mas especialistas alertam para a necessidade de saneamento e diagnóstico.

Na última segunda-feira, 24 de agosto, a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo confirmou os dois primeiros casos humanos de febre do Nilo Ocidental: uma mulher de 34 anos, de Ribeirão Preto, que já se recuperou, e uma jovem de 18 anos, de São José do Rio Preto, que permanece internada.

A primeira paciente viajou recentemente para a região amazônica, mas o local provável de infecção dos dois casos ainda está sob investigação. Até agora, a autoridades de saúde não divulgaram quais foram os sintomas específicos apresentados pelas duas pacientes.

No mesmo dia, Santa Catarina confirmou que uma senhora de 77 anos, moradora de Imbituba, no litoral do estado, falecida em 8 de agosto depois de apresentar febre e evoluir para um quadro neurológico grave, estava infectada pelo vírus do Nilo Ocidental. Santa Catarina registrou ainda um segundo caso, em um homem de 56 anos, de Caçador, que apresentou manifestações neurológicas, foi internado e já recebeu alta.

Com os dois registros paulistas e os dois catarinenses, o Brasil soma quatro casos confirmados em 2026, um deles com morte. Há ainda um caso provável no Piauí. A notícia assustou. Vamos por partes.

Causada pelo vírus do Nilo Ocidental (West Nile virus, WNV), cujo nome científico é Orthoflavivirus nilense, a doença não é uma novidade no país: o vírus circula no Brasil há quase 20 anos. Nós é que não estávamos olhando para ele. Também não vai se tornar uma epidemia como a dengue, como muita gente receia.

Que doença é essa? Quais são os sintomas?

O vírus do Nilo Ocidental é, originalmente, um vírus de aves. Ele circula entre aves silvestres e é transmitido principalmente por mosquitos do gênero Culex. Sim, é aquele pernilongo comum, que entra pela janela, zumbe no ouvido de madrugada e se cria em água com muita matéria orgânica, como a de fossas, valas e esgoto a céu aberto.

E o que acontece com quem é picado por um mosquito infectado? Na esmagadora maioria das vezes, nada. Cerca de 80% das pessoas infectadas não apresentam sintomas e nem sequer sabem que foram infectadas.

Outros 20% têm febre, dor de cabeça, dor no corpo e, às vezes, manchas na pele. É um quadro que, no Brasil, tem tudo para ser confundido com dengue e passar sem ser investigado.

E há uma minoria — menos de 1% das pessoas infectadas, algo como uma em cada 150 — que desenvolve a forma grave. Nesses casos, o vírus atinge o sistema nervoso. Aí sim aparecem meningite, encefalite (inflamação do cérebro) ou uma paralisia parecida com a da poliomielite. Entre essas pessoas, cerca de uma em cada dez morre — e o risco dobra depois dos 70 anos.

Não existe vacina para humanos em nenhum país do mundo, nem remédio que ataque especificamente o vírus. O tratamento é de suporte.

Por que nem incomoda alguns e pode vitimar outros?

Essa é a pergunta mais interessante a ser feita, e a ciência dos últimos vinte anos deu uma resposta bem concreta.

Tudo se decide numa corrida de poucos dias. De um lado, depois da infecção pela picada do mosquito que carrega o vírus, o microrganismo se multiplica dentro do corpo humano. De outro, entra em ação a primeira linha de defesa do corpo — um grupo de substâncias chamadas interferons, que o organismo dispara nas primeiras horas de qualquer infecção viral.

Se os interferons combaterem o vírus, você nem percebe que esteve doente. Se eles falharem, o vírus ganha tempo e pode chegar ao cérebro, um dos seus destinos preferidos.

Uma das razões para ocorrerem essas raras falhas na defesa contra o vírus está nos genes: certas variantes herdadas dificultam a chegada das células de defesa ao nosso cérebro. A outra é surpreendente — cerca de 40% das pessoas que desenvolvem a forma grave têm no sangue anticorpos que atacam os próprios interferons. É o corpo sabotando a sua própria defesa, sem que a pessoa jamais suspeitasse.

E é aqui que a idade entra. Esses anticorpos autossabotadores aparecem em menos de 1% das pessoas abaixo dos 65 anos e em cerca de 5% acima dos 70. Boa parte do que chamamos de "risco da idade" é, na verdade, isso. A mulher de Imbituba tinha 77 anos.

Isso pode virar uma epidemia, como a dengue?

Não, não vai. E vale entender o motivo, porque essa dúvida pode aparecer em muitos lugares nas próximas semanas.

A dengue explode em número de casos porque o mosquito Aedes aegypti pica gente, se infecta ao picar gente e transmite a doença para gente. É um ciclo fechado, urbano, que se retroalimenta. Por isso, um bairro inteiro pode adoecer em poucas semanas.

A febre do Nilo Ocidental depende das aves infectadas para continuar existindo. Nós somos, para esse vírus, o fim da linha: quando um mosquito pica uma ave e se infecta e depois pica uma pessoa, cria-se aí um beco sem saída. A quantidade de vírus no sangue humano é pequena demais para infectar o próximo mosquito que picar essa pessoa. Além disso, nosso sangue carrega o vírus por cerca de um a três dias somente.

Por isso, seres humanos são considerados hospedeiros acidentais ou terminais: podemos adoecer, mas não mantemos o ciclo de transmissão. O mesmo acontece com os cavalos.

Em quase trinta anos de circulação do vírus do Nilo Ocidental pelas Américas, nenhum país registrou nada remotamente parecido com os milhões de casos anuais de dengue que temos no Brasil.

Então, a febre do Nilo Ocidental não é problema?

Errado. Ela é sim um problema, mas com diversos aspectos a serem considerados. O primeiro é que os casos dessa doença existem, mas não estão sendo vistos nem diagnosticados.

Um estudo publicado no ano passado por pesquisadores brasileiros foi atrás de 561 pacientes do Ceará que tiveram febre ou problemas neurológicos sem explicação. Os pesquisadores testaram todos os indivíduos e encontraram 68 casos de febre do Nilo Ocidental — 12% do total. No entanto, oficialmente, até julho deste ano, o estado do Ceará não havia registrado nenhum caso confirmado em humanos. Não há mistério nesses números. Quem não procura, não acha.

O segundo aspecto é que o vírus não é novidade. Nós é que finalmente olhamos para ele. A análise genética do mesmo estudo mencionado acima mostra que esse microrganismo está no Brasil desde o final de 2007. Ele foi encontrado em cavalos do Pantanal em 2009, depois na Bahia, no Mato Grosso do Sul e na Paraíba, e foi isolado pela primeira vez em um cavalo no Espírito Santo em 2018.

O terceiro aspecto é que a população brasileira está envelhecendo. O grupo de 65 anos ou mais cresceu 57% entre 2010 e 2022. Desse modo, aumenta, ano a ano, exatamente a população que a doença atinge com maior gravidade.

E o quarto aspecto é o mosquito. Todo o nosso combate aos mosquitos foi desenhado contra o Aedes. Agente de saúde batendo à porta durante o dia, prato de planta, pneu, água limpa parada. Nada disso, sozinho, alcança o pernilongo comum, que encontra condições para se reproduzir em águas com muita matéria orgânica, como esgoto, fossas e valas, e pica principalmente à noite. Espécies de Culex presentes no Brasil já foram testadas em laboratório e demonstraram capacidade de transmitir esse vírus. Combater o Culex não é campanha de mutirão no fim de semana. É também saneamento básico.

E o que fazer, na prática?

Quase nada de novo — só que agora valendo também para a madrugada. Repelente ao anoitecer e ao amanhecer, telas em janelas e portas, roupas cobrindo braços e pernas perto de mata ou de locais com água suja parada. E, se houver vala, fossa aberta ou córrego poluído perto de casa, isso é conta para cobrar do poder público. Não é uma tarefa doméstica.

Quem tem mais de 60 anos, fez transplante ou faz tratamento que baixa a imunidade deve redobrar o cuidado. Em caso de febre com confusão mental, rigidez de pescoço ou fraqueza nas pernas, deve-se procurar atendimento no mesmo dia, seja qual for o vírus.

Do lado do sistema de saúde, o caminho é igualmente conhecido: investigar até o fim as meningites e encefalites sem causa definida, levar a sério quando aves e cavalos adoecem numa região — eles avisam antes de nós — e discutir a testagem de doadores de sangue onde o vírus circula. Foi assim que a Holanda encontrou seu único caso do ano e a Itália identificou 40 doadores infectados sem nenhum sintoma.

A pergunta que fica não é quantos casos o Brasil tem. É quantos casos o Brasil ainda não viu.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Klinger Soares Faíco Filho é fundador e editor-chefe da InfectoCast, plataforma de educação médica em doenças infecciosas que oferece podcast, cursos, aplicativo por assinatura, eventos e conteúdos voltados a profissionais de saúde. A InfectoCast não teve participação neste artigo.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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