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'Passam até 6h por dia na academia': por que cada vez mais meninos querem ficar musculosos

O especialista em transtornos da imagem corporal Roberto Olivardia aborda os motivos por que cada vez mais meninos e jovens ficam obcecados pela prática de exercícios e pela formação de músculos.

26 ago 2026 - 11h18
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Resumo
A obsessão por músculos tem afetado meninos cada vez mais jovens, impulsionada pelas redes sociais, alerta o psicólogo Roberto Olivardia. A dismorfia muscular é de difícil detecção por ser associada à disciplina e saúde. Porém, essa busca inalcançável gera distorção da autoimagem, treinos exaustivos de até seis horas e uso de substâncias nocivas, tornando vital que pais e treinadores fiquem atentos a impactos na rotina e comportamentos extremos.
Jovem musculoso de costas para a câmera, em ambiente aberto em dia de sol
Jovem musculoso de costas para a câmera, em ambiente aberto em dia de sol
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Nas últimas décadas, a maioria das pessoas aprendeu a detectar os sinais de que uma adolescente está desenvolvendo uma relação pouco saudável com seu corpo.

Geralmente, ela deseja ficar mais magra.

Mas conversei com o médico Roberto Olivardia, que estuda os problemas de imagem corporal há mais de 30 anos. Ele acredita que a sociedade não seja tão eficaz para detectar os problemas verificados com os meninos.

A obsessão de muitos meninos e adolescentes não é por emagrecer, mas sim por ganhar massa muscular. Por isso, a detecção do problema pode ser muito mais difícil, pois fazer exercício e ganhar força costumam ser considerados sinais de disciplina e saúde.

Embora a maioria dos jovens esportistas não desenvolva nenhum transtorno, Olivardia afirma que esta tendência de problemas de imagem corporal entre os meninos vem se agravando.

Recentemente, ele tem atendido no seu consultório meninos de apenas 10 anos de idade e afirma que um dos principais motivos são as redes sociais.

"Depois de me dedicar por tanto tempo a este trabalho e de observar a situação antes e depois da chegada das redes sociais, posso dizer que, hoje, enfrentamos um fenômeno totalmente diferente", afirma ele.

Confira abaixo a entrevista.

A jornalista da BBC News Katty Kay entrevistou o médico Roberto Olivardia, sobre o que ele chama de dismorfia muscular
A jornalista da BBC News Katty Kay entrevistou o médico Roberto Olivardia, sobre o que ele chama de dismorfia muscular
Foto: BBC News Brasil

BBC: Muitas pessoas já sabem identificar uma adolescente extremamente magra e compreendem quando tudo começa a se agravar.

Mas acho que o mesmo não ocorre com os meninos e seus músculos. Precisamos agora ter uma conversa similar sobre como é um corpo em forma no caso deles?

Roberto Olivardia: Sem dúvida, com os meninos, é diferente.

Temos estudos que remontam ao século 17 sobre as mensagens opressoras recebidas pelas mulheres em relação à magreza e à feminilidade. Mas, com os homens, foi um pouco diferente.

Segundo nossas pesquisas, este fenômeno começou a ser realmente incorporado à cultura popular no final dos anos 1970 e início da década de 1980, quando começamos a observar uma maior proliferação de corpos musculosos.

Não foi por acaso que Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone foram os maiores astros de bilheteria daquela época. Em muitos sentidos, seus corpos eram seu principal patrimônio.

Assim como falamos para as meninas e mulheres, que seu corpo não define quem elas são, essas conversas, em grande parte, foram ignoradas em relação aos meninos.

Aqueles que têm mais músculos são considerados mais masculinos. Hoje, esta ideia é promovida de forma evidente, provavelmente como nunca antes, nas redes sociais e, especialmente, na chamada "machosfera".

BBC: Vamos voltar à década de 1990, quando você e seus colegas cunharam o termo "dismorfia muscular". O que era preocupante sobre este transtorno na época?

Olivardia: Em meados dos anos 1990, eu investigava transtornos alimentares em meninos, adolescentes e homens adultos e recebia muitas ligações de pessoas interessadas em participar dos nossos estudos.

Muitos homens me diziam: "Antes, eu sofria de anorexia ou bulimia nervosa. Não tenho mais este problema, mas estou mergulhado nessa busca obsessiva para desenvolver mais musculatura. A diferença é que, agora, esta obsessão, de alguma forma, é socialmente aceita."

De fato, em vez de serem questionados, eles, muitas vezes, recebem elogios. As pessoas dizem: "Você tem muita disciplina", "que força de vontade!".

Não costumamos imaginar que um homem musculoso possa ter uma patologia e a maioria deles, é claro, não tem.

Mas estes são homens que, embora sejam corpulentos, musculosos e até considerados por muitas pessoas como alguém com o corpo ideal, continuam acreditando que são pequenos demais.

Eles vivem com o receio de que, no dia seguinte, poderão repentinamente se tornar frágeis.

Estes homens pensam constantemente no tamanho do seu corpo e na sua aparência, até o ponto em que esta preocupação acaba afetando significativamente diferentes aspectos da sua vida.

'Assim como falamos para as meninas e mulheres, que seu corpo não define quem elas são, essas conversas, em grande parte, foram ignoradas em relação aos meninos', explica Roberto Olivardia
'Assim como falamos para as meninas e mulheres, que seu corpo não define quem elas são, essas conversas, em grande parte, foram ignoradas em relação aos meninos', explica Roberto Olivardia
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

BBC: O que você observa hoje no seu consultório, que não havia 5 ou 10 anos atrás?

Olivardia: Bem, em primeiro lugar, as redes sociais criaram uma cultura em que todos são especialistas.

Por isso, quando um influenciador difunde determinadas ideias sem nenhum tipo de respaldo científico, vejo que a minha opinião, como psicólogo clínico, a de um médico ou de qualquer especialista em um determinado tema é completamente descartada ou, pelo menos, colocada no mesmo nível daquela pessoa.

BBC: Que a de um influenciador do TikTok, por exemplo?

Olivardia: Exatamente. A de um influenciador do TikTok, simplesmente porque ele tem 10 milhões de seguidores, como se isso automaticamente lhe outorgasse credibilidade.

BBC: Como profissional de saúde, deve ser desesperador para você.

Olivardia: Sem dúvida. Não por uma questão de ego, mas porque existem pessoas sofrendo as consequências das informações que recebem.

Anos atrás, quando surgiu a internet, todos aqueles grupos que promoviam transtornos do comportamento alimentar eram preocupantes. Mas, de alguma forma, aquilo parecia um fenômeno mais contido.

Agora, existe outro nível, totalmente diferente.

'Não costumamos imaginar que um homem musculoso possa ter uma patologia e a maioria deles, é claro, não tem'
'Não costumamos imaginar que um homem musculoso possa ter uma patologia e a maioria deles, é claro, não tem'
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Dez anos atrás, se encontrássemos um jovem batendo no próprio rosto com um martelo, como promovem alguns desses influenciadores do looksmaxxing, este comportamento seria considerado quase psicótico, pois era algo extremamente incomum.

Até pessoas com obsessão pela própria imagem corporal, que talvez não tivessem chegado tão longe, diriam: "Isso já é demais."

Mas, quando você é exposto constantemente a este tipo de conteúdo, este comportamento acaba sendo normalizado.

É preciso ter em conta que trabalho com meninos de apenas 10 anos que têm problemas de imagem corporal, além de adolescentes muito vulneráveis, que buscam o mesmo que todos nós: aceitação e conexão.

Este comportamento está sendo normalizado porque existem influenciadores que recebem muita atenção, ganham muito dinheiro, desfrutam dos seus 15 minutos de fama e acumulam milhões de seguidores, o que, de alguma forma, outorga credibilidade a eles.

São eles que dizem a estes jovens: "Se você fizer isso, terá acesso às mulheres, ao poder, ao respeito e a tudo o mais."

'Eu vejo este paciente durante 50 minutos por semana, enquanto ele pode estar ouvindo um influenciador entre 10 e 15 horas semanais'
'Eu vejo este paciente durante 50 minutos por semana, enquanto ele pode estar ouvindo um influenciador entre 10 e 15 horas semanais'
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

BBC: Conte como pessoas cada vez mais jovens apresentam dismorfia muscular e esta obsessão por desenvolver ao máximo sua musculatura. A que você acha que isso se deve?

Olivardia: A idade vem diminuindo.

Acredito que, em parte, isso ocorre porque há pessoas que dirigem suas mensagens especificamente para este público e porque os jovens têm acesso a essas vozes através das redes sociais.

Uma das primeiras perguntas que faço aos meus pacientes homens quando abordamos este tema é: "Quem você segue nas redes sociais?"

Eu já conheço muitos desses influenciadores e, quando não conheço, analiso o conteúdo que eles publicam.

Porque eu vejo este paciente durante 50 minutos por semana, enquanto ele pode estar ouvindo aquela outra pessoa entre 10 e 15 horas semanais.

Esta é realidade que enfrentamos nós, pais, médicos e profissionais de saúde mental.

'Fazer exercício é bom, mas 10 horas de exercício não são necessariamente melhores que uma'
'Fazer exercício é bom, mas 10 horas de exercício não são necessariamente melhores que uma'
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

BBC: Existe uma linha muito tênue entre praticar exercício de forma saudável e de maneira pouco sadia. E nem sempre é fácil diferenciar uma da outra.

O que você diria aos pais e treinadores para ajudá-los a identificar a diferença?

Olivardia: Vinte e cinco anos atrás, escrevi, junto com um colega, o livro The Adonis Complex ("O complexo de Adonis", em tradução livre).

Lembro que, às vezes, recebíamos críticas como: "Então vocês são contra o exercício e a alimentação saudável." E claro que não é assim.

Sabemos que existem graves problemas de saúde que também afetam os jovens, como a obesidade, a falta de atividade física e a privação do sono.

Quando penso nessa linha que separa o saudável do problemático, existem dois aspectos que considero fundamentais.

O primeiro é: a pessoa se percebe a si própria de forma realista?

Se você é pai ou treinador e seu filho, aluno ou esportista, diz: "Meu Deus, estou muito gordo" quando não está; ou "estou magro demais" quando, na verdade, tem uma musculatura considerável, este já é um sinal de alerta.

O segundo aspecto é até que ponto este comportamento afeta outras áreas da sua vida.

Tenho pacientes obcecados por fazer exercícios. Eles passam cinco ou seis horas por dia na academia e ficam completamente esgotados.

E qualquer pessoa ficaria, se levantasse pesos durante cinco ou seis horas diárias. No final, não sobra tempo para mais nada e eles acabam presos em um círculo vicioso.

E, é claro, também é importante prestar atenção em comportamentos perigosos, como o consumo de esteroides e outras substâncias. Tenho muitos pacientes que acabam desenvolvendo dependência de opioides, devido à dor que eles sofrem por excesso de treinamento na academia.

Definitivamente, não sou contra a promoção da alimentação saudável, de fazer exercícios ou de dormir bem.

Fazer exercício é bom, mas dez horas de exercício não são necessariamente melhores que uma. Dormir oito horas é excelente, mas, se alguém dorme 15 horas, provavelmente algo não estará funcionando bem.

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