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Alzheimer: novos remédios chegam ao Brasil com promessa de agir na causa da doença

A chegada de novos anticorpos monoclonais ao Brasil marca uma mudança relevante no tratamento do Alzheimer.

15 mai 2026 - 02h09
(atualizado às 07h22)
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remédio – depositphotos.com / ArturVerkhovetskiy
remédio – depositphotos.com / ArturVerkhovetskiy
Foto: Giro 10

A chegada de novos anticorpos monoclonais ao Brasil marca uma mudança relevante no tratamento do Alzheimer. Após anos com remédios focados apenas em aliviar manifestações como perda de memória e desorientação, surgem agora medicamentos que interferem diretamente nos mecanismos da doença. Entre eles estão o donanemabe e o lecanemabe, que a Anvisa já aprovou em um contexto em que o país ainda se adapta para oferecer diagnóstico e acompanhamento adequados.

Esses medicamentos fazem parte de uma geração chamada de terapias modificadoras da doença. Na prática, isso significa que o objetivo deixa de ser apenas suavizar sintomas por um período. Em vez disso, os novos remédios tentam desacelerar o avanço do Alzheimer em fases iniciais. A proposta consiste em atuar justamente na formação das placas beta-amiloides, estruturas que se acumulam no cérebro e se associam ao processo de degeneração dos neurônios.

Como os anticorpos monoclonais "limpam" as placas de beta-amiloide?

O Alzheimer se relaciona, entre outros fatores, ao acúmulo de uma proteína chamada beta-amiloide no cérebro. Essas proteínas podem se agrupar e formar placas que atrapalham a comunicação entre as células nervosas. Os novos anticorpos monoclonais, como donanemabe e lecanemabe, consistem em moléculas produzidas em laboratório, desenhadas para reconhecer especificamente esses depósitos.

Quando o médico administra o anticorpo na corrente sanguínea por via intravenosa, a substância circula até atingir o cérebro. Lá, o anticorpo se liga à proteína beta-amiloide e marca essas placas para remoção pelas próprias defesas naturais do organismo. Em termos simples, a imunoterapia de precisão funciona como uma espécie de "etiqueta" que ajuda o sistema imune a identificar o que precisa sair do caminho dos neurônios.

Estudos internacionais mostraram que, ao reduzir a quantidade de beta-amiloide, o tratamento consegue retardar a progressão do declínio cognitivo em pessoas em estágios muito iniciais da doença. Portanto, o método não oferece cura nem reverte o dano já instalado. Em vez disso, a estratégia tenta tornar o avanço da perda de memória e da autonomia mais lento do que ocorreria sem o tratamento.

Por que o tratamento é indicado apenas para estágios iniciais do Alzheimer?

Pesquisadores avaliaram os anticorpos monoclonais em pessoas com comprometimento cognitivo leve ou Alzheimer em fase inicial. Ou seja, indivíduos que começam a ter falhas de memória e organização, mas ainda mantêm boa parte das atividades do dia a dia. Nessa etapa, a carga de placas beta-amiloides ainda permite redução com impacto prático na evolução da doença.

Em estágios avançados, o cérebro já apresenta perda significativa de neurônios e conexões. Mesmo que o tratamento remova as placas, o dano estrutural se mostra muito maior, o que limita o ganho potencial. Por isso, as agências regulatórias e diretrizes internacionais mantêm indicações claras e restringem o uso desses remédios para fases iniciais. A expressão "terapia modificadora da doença" indica justamente essa tentativa de mudar o ritmo da trajetória do Alzheimer, e não consertar aquilo que já se destruiu.

Essa característica reforça a importância de que familiares e serviços de saúde mantenham atenção a sinais precoces. Entre eles, destacam-se dificuldade crescente para lembrar fatos recentes, repetição das mesmas perguntas, desorientação em trajetos conhecidos ou alterações de planejamento e organização. Assim, quanto mais cedo a equipe inicia a investigação, maiores se tornam as chances de enquadrar o paciente no perfil em que o uso de imunoterapia de precisão faz sentido.

Como é feito o diagnóstico para usar donanemabe e lecanemabe no Brasil?

Para receber esses novos tratamentos, o paciente não pode apenas relatar queixas de memória ou ter um diagnóstico clínico genérico de demência. Ele precisa confirmar a presença de amiloide no cérebro, porque os anticorpos monoclonais agem exatamente sobre essa proteína. Hoje, os dois principais caminhos incluem:

  • PET-amiloide: exame de imagem que utiliza um traçador radioativo e mostra, em tomografias especiais, se existe acúmulo de beta-amiloide;
  • Análise do líquor: coleta do líquido que circula ao redor do cérebro e da medula, por meio de punção lombar, para medir proteínas associadas ao Alzheimer.

Esses exames confirmam se se trata de um quadro de doença de Alzheimer amiloide-positiva, condição necessária para justificar os novos remédios. No Brasil, porém, a oferta de PET-amiloide ainda se concentra em grandes centros urbanos, principalmente nas capitais, e costuma envolver custos elevados. Já a análise do líquor aparece com maior frequência em serviços universitários e hospitais públicos de referência, mas enfrenta filas e restrições de acesso em diversas regiões.

Na prática, esse cenário mostra que o avanço da ciência chega mais rápido do que a capacidade de diagnóstico do sistema. Diante disso, especialistas defendem protocolos claros para definir quem deve receber prioridade nesses exames. Assim, o país pode evitar tanto o subdiagnóstico quanto o uso inadequado da tecnologia.

Quais são os desafios para aplicar essa imunoterapia nos hospitais brasileiros?

Donanemabe e lecanemabe passam por administração por infusão intravenosa periódica, em geral em hospitais-dia ou clínicas com estrutura para medicação endovenosa. O paciente permanece em observação durante e após a aplicação. Isso exige:

  • Salas específicas para infusão com poltronas ou leitos;
  • Equipe treinada em neurologia e alergia ou urgência;
  • Sistema organizado de agendamento recorrente, já que o tratamento exige longo prazo.

Além da aplicação, as equipes precisam realizar monitoramento de segurança. Um dos eventos mais acompanhados recebe o nome de ARIA (sigla em inglês para anomalias de imagem relacionadas à amiloide), que inclui inchaço e pequenos sangramentos no cérebro detectados por ressonância magnética. Em boa parte dos casos, essas alterações não geram sintomas relevantes. No entanto, em situações específicas, o quadro pode provocar dor de cabeça, confusão mental ou crises convulsivas, o que exige pausa ou ajuste da medicação.

Isso significa que quem inicia o tratamento precisa realizar ressonâncias de controle em intervalos definidos, especialmente nos primeiros meses. No contexto brasileiro, em que exames de imagem de alta complexidade já enfrentam fila para outras doenças, incorporar esse protocolo representa um desafio extra para a rede pública e para planos de saúde. Além disso, muitos serviços ainda não contam com equipe preparada para interpretar alterações de ARIA de forma padronizada.

Como fica o acesso aos novos remédios para Alzheimer no cenário nacional?

Alzheimer – depositphotos.com/IgorVetushko
Alzheimer – depositphotos.com/IgorVetushko
Foto: Giro 10

Com a aprovação pela Anvisa, donanemabe e lecanemabe passam a ter caminho livre para registro e comercialização no país. Porém, o acesso amplo ainda depende de outros passos. No Sistema Único de Saúde, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) avalia eficácia, segurança e custo-efetividade para decidir se esses medicamentos entrarão na lista de tratamentos ofertados pelo SUS.

Na saúde suplementar, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) analisa se incluirá a terapia no rol obrigatório de coberturas dos planos. Enquanto essas decisões não avançam ou não passam por atualização, o uso tende a se concentrar em centros privados especializados. Nesses locais, o tratamento apresenta custo elevado por infusão e exige exames de alto valor agregado, como PET-amiloide e ressonâncias seriadas.

Mesmo assim, pesquisadores apontam que essa nova etapa inaugura uma fase diferente no enfrentamento do Alzheimer no Brasil. A combinação de diagnóstico mais preciso, identificação precoce de quem apresenta comprometimento cognitivo leve e oferta gradual de imunoterapia de precisão indica uma mudança de foco. Agora, a estratégia deixa de se limitar à tentativa de aliviar sintomas e passa a buscar intervenção direta no mecanismo da doença. A expectativa aponta que, à medida que a infraestrutura se amplia e novas evidências científicas surgem, mais pessoas poderão se beneficiar desses avanços de forma segura, organizada e sustentável para o sistema de saúde.

Giro 10
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