Nova iniciativa da OPAS busca conter altas taxas de suicídio nas Américas
De acordo com o órgão, a campanha tem como objetivo salvar vidas, oferecendo aos países intervenções práticas e baseadas em evidências
Alerta: a reportagem abaixo trata de temas como suicídio e transtornos mentais. Se você está passando por problemas, veja ao fim do texto onde buscar ajuda.
O continente americano foi a única região do mundo que teve um aumento nas mortes por suicídio desde o ano 2000. Os registros aumentaram em 17%. Diante do cenário, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) lançou uma iniciativa para tentar frear esses números.
A campanha funcionará em três frentes principais. Primeiro, vai fortalecer os planos nacionais, ajudando os países a criar ou atualizar estratégias de prevenção do suicídio adaptadas às necessidades de cada população em risco.
Outra medida considerada essencial é ampliar o acesso à saúde mental de qualidade. A ideia é capacitar profissionais de saúde e comunidades para identificar pessoas em risco, oferecer apoio adequado e também dar suporte a famílias afetadas.
Por fim, a campanha também buscará sensibilizar e reduzir o estigma sobre o assunto, colaborando com a mídia para garantir uma cobertura responsável e promovendo campanhas que quebrem tabus sobre saúde mental.
Em 2021, mais de 100 mil pessoas nas Américas morreram por suicídio. Embora o aumento das taxas na América do Norte seja um dos principais fatores que impulsionam essa tendência, os países do Sul do continente também apresentam crescimento significativo, segundo a OPAS. Os países do Caribe têm as maiores taxas de mortalidade por suicídio da região.
De acordo com o comunicado divulgado pelo órgão, o suicídio afeta desproporcionalmente pessoas idosas: 71% das ocorrências entre homens e 65% entre mulheres ocorrem em pessoas acima de 50 anos. Apesar de as taxas serem mais altas entre homens (14,7 por 100 mil, frente a 4 por 100 mil nas mulheres), o crescimento foi mais intenso na população feminina (uma alta de 23% desde 2000, contra 14,4% nos homens). As mulheres também registraram quase cinco vezes mais tentativas de suicídio.
Entre os homens, o suicídio está fortemente ligado ao consumo de álcool e drogas, além do desemprego e de residir em áreas com altas taxas de homicídios. Para as mulheres, a desigualdade educacional e o desemprego são fatores altamente associados.
"Cada suicídio é uma tragédia profunda que afeta indivíduos, famílias e comunidades", afirmou Jarbas Barbosa, diretor da OPAS, no comunicado à imprensa. "Esta iniciativa busca transformar a liderança, governança e ações de prevenção do suicídio para reduzir essas perdas."
Sinais e abordagem
Nem sempre pessoas que pensam no suicídio dão sinais evidentes. Em muitos casos, o sofrimento se revela em mudanças sutis na rotina, no convívio ou nas falas. Estar atento a esses indícios é importante para abrir caminho para o diálogo e incentivar a busca por atendimento especializado.
Os sinais de risco de suicídio nem sempre são explícitos, mas costumam aparecer em mudanças de comportamento e falas. Entre os indícios mais comuns estão isolamento, perda de interesse em atividades antes prazerosas, irritabilidade, apatia, alterações no sono e no apetite, descuido com a aparência e comentários que revelam desesperança, como "não aguento mais" ou "vocês vão ficar melhor sem mim".
Também é importante estar atento a postagens em redes sociais e a uma melhora repentina e súbita, que pode ser enganosa e anteceder recaídas graves.
A abordagem deve ser feita com empatia, sem julgamentos ou minimização da dor. É fundamental mostrar-se disponível, resgatar lembranças positivas, incentivar a busca por ajuda profissional e esclarecer que o tratamento pode levar tempo até surtir efeito. Frases como "isso é drama" ou "é só uma fase" devem ser evitadas, pois reforçam o estigma.
O mais importante é acolher, oferecer apoio e encaminhar para serviços de saúde mental, como o CVV (188), os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e outras redes de suporte.
Psiquiatras brasileiros lançam cartilha para influenciadores digitais
Os influenciadores também têm um papel importante na prevenção e precisam ter responsabilidade na forma de se comunicar. De olho nisso, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) lançou uma cartilha voltada a criadores de conteúdo, com orientações sobre como abordar temas relacionados à saúde mental. O material pode ser baixado de forma gratuita.
Entre as principais recomendações, estão evitar a romantização do sofrimento, não detalhar métodos de suicídio nem oferecer ajuda direta como se fossem profissionais de saúde. Também se alerta contra a divulgação de testes de autodiagnóstico, conteúdos sensacionalistas ou sugestões de tratamentos sem comprovação científica.
Onde buscar ajuda
Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, veja abaixo onde encontrar ajuda:
- Centro de Valorização da Vida (CVV)
Se estiver precisando de ajuda imediata, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço gratuito de apoio emocional que disponibiliza atendimento 24 horas por dia. O contato pode ser feito por e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188.
- Canal Pode Falar
Iniciativa criada pelo Unicef para oferecer escuta para adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. O contato pode ser feito pelo WhatsApp, de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h.
- SUS
Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas para o atendimento de pacientes com transtornos mentais. A lista com os endereços dos Caps na cidade de São Paulo pode ser conferida aqui.
- Mapa da Saúde Mental
O site traz mapas com unidades de saúde e iniciativas gratuitas de atendimento psicológico presencial e online. Disponibiliza ainda materiais de orientação sobre transtornos mentais.
NOTA DA REDAÇÃO: Suicídios são um problema de saúde pública. Antes, o Estadão, assim como boa parte da mídia profissional, evitava publicar reportagens sobre o tema pelo receio de que isso servisse de incentivo. Mas, diante da alta de mortes e tentativas de suicídio nos últimos anos, inclusive de crianças e adolescentes, o Estadão passa a discutir mais o assunto. Segundo especialistas, é preciso colocar a pauta em debate, mas de modo cuidadoso, para auxiliar na prevenção. O trabalho jornalístico sobre suicídios pode oferecer esperança a pessoas em risco, assim como para suas famílias, além de reduzir estigmas e inspirar diálogos abertos e positivos. O Estadão segue as recomendações de manuais e especialistas ao relatar os casos e as explicações para o fenômeno.