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Por que trocar figurinhas da Copa ainda mobiliza tantas gerações na era das telas?

Segundo a psicóloga Danielle Mendes, mais do que um passatempo, o colecionismo estimula a socialização e funciona como refúgio contra as telas

18 jun 2026 - 17h40
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Em tempos de hiperconexão, onde a maior parte da nossa rotina acontece através de interações virtuais, um hábito inteiramente analógico teima em desafiar o império dos smartphones. O álbum de figurinhas da Copa do Mundo prova que certas tradições permanecem intocáveis. O ritual une crianças, jovens e adultos em torno de pacotinhos, trocas e encontros presenciais, transformando o torneio de futebol em uma grande vivência coletiva.

Segundo a psicóloga Danielle Mendes, o álbum da Copa estimula a socialização e funciona como refúgio contra as telas
Segundo a psicóloga Danielle Mendes, o álbum da Copa estimula a socialização e funciona como refúgio contra as telas
Foto: Getty Images Signature/kevinjeon00 / Bons Fluidos

Esse entusiasmo coletivo ganhou contornos impressionantes no mercado. A edição oficial de 2026 alcançou o topo do ranking Nielsen-PublishNews como a publicação mais vendida do Brasil no mês de maio. O feito ganha ainda mais destaque pelo tamanho do desafio atual: com a expansão do Mundial para 48 países, o livro ilustrado tornou-se o maior da história, trazendo 980 cromos espalhados por 112 páginas — um salto considerável frente às 670 imagens da edição de 2022.

O elo emocional que une passado e presente

Essa mobilização em massa encontra explicação no comportamento humano. Em entrevista à Bons Fluidos, a psicóloga Danielle Mendes, profissional do AmorSaúde, explica que o sucesso desse fenômeno vem da união entre desafio, emoção e afeto.

"Para os adultos, o álbum funciona como um portal para a infância, evocando lembranças de outras Copas, momentos vividos com familiares ou amigos e uma sensação de continuidade entre o passado e o presente. Para crianças e adolescentes, há o encanto da descoberta e a possibilidade de participar de um fenômeno mundial", esclarece.

Muitos pais que hoje compram os pacotinhos para os filhos pequenos repetem exatamente o mesmo costume que herdaram de seus pais. Por isso, a atividade atua como uma ponte de convivência. Conforme aponta a psicóloga, quando o preenchimento envolve o círculo familiar ou de amizade, ele se torna um marco de uma época da vida: "Essas memórias permanecem porque estão associadas à convivência, ao afeto e à sensação de fazer parte de algo maior que o individual"

Copa e refúgio sensorial

Além disso, o próprio cansaço do mundo digital ajuda a explicar o sucesso recente das atividades físicas e manuais. O processo lento e tátil de abrir o envelope, tocar no papel, separar as repetidas e colar cada imagem com precisão exige foco e presença real.

Nesse sentido, a brincadeira serve como um excelente contraponto à agitação dos feeds das redes sociais. Além do descanso para os olhos, o ato de completar os espaços vazios gera reações biológicas de prazer. A especialista esclarece que a mente humana é estimulada por tarefas que possuem etapas claras de evolução.

"Do ponto de vista psicológico, também existe o chamado efeito de completude: nosso cérebro é naturalmente motivado por tarefas que têm início, meio e fim. Cada figurinha colada representa um pequeno avanço, liberando dopamina e reforçando o prazer do processo. Por isso, o interesse atravessa gerações, o álbum oferece emoção, desafio e vínculo ao mesmo tempo", afirma.

Essa mecânica lúdica e previsível atua diretamente na melhoria do bem-estar diário, auxiliando em pontos centrais da saúde mental:

  • Redução do estresse: oferece um momento de distração leve e desconectada da rotina;
  • Sensação de evolução: permite acompanhar o avanço gradual da coleção de forma visual;
  • Estímulo à autoestima: promove pequenas doses de satisfação ao cumprir metas diárias;
  • Resgate de bem-estar: utiliza a nostalgia para ativar lembranças felizes do passado.

Habilidades que vão muito além da brincadeira

A necessidade de gerenciar quase mil ilustrações diferentes impulsiona, de forma natural, a etapa mais sociável da coleção: as famosas rodadas de trocas de figurinhas. Longe de ser um passatempo exclusivo para os mais novos, essa dinâmica exige e desenvolve competências interpessoais profundas, obrigando pessoas de diferentes idades e realidades a conversarem entre si.

"A troca de figurinhas cria encontros genuínos. Ela envolve diálogo, cooperação, negociação e um tipo de interação que não exige pressa, favorecendo a conexão", explica Mendes.

Dessa forma, a Copa e o mercado de trocas estimula uma série de virtudes sociais importantes no convívio comunitário:

  • Socialização ativa: rompe o isolamento ao incentivar o contato face a face;
  • Capacidade de negociação: ensina conceitos práticos de comunicação e flexibilidade;
  • Prática da cooperação: desenvolve o espírito de ajuda mútua para que todos alcancem o objetivo;
  • Senso de pertencimento: integra o indivíduo a um grupo com interesses e paixões idênticas.

Da mesma forma, o futebol cumpre um papel integrador que transforma a rotina das casas e escritórios durante o Mundial. Reunir-se para assistir aos jogos e debater os lances quebra a monotonia diária e cria memórias coletivas que duram muitos anos. Como conclui Danielle Mendes, partilhar os sentimentos do esporte é um dos melhores combustíveis para o afeto: "Torcer junto, vibrar ou até lamentar coletivamente promove uma experiência emocional compartilhada, algo muito potente para criar laços afetivos duradouros."

Bons Fluidos
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