Por que chamar seu filho de 'aborrecente' pode prejudicar a relação com ele?
Entenda por que o termo "aborrecente" pode reforçar estereótipos e afastar pais e filhos, além de como fortalecer a conexão durante a adolescência
Rotular jovens como "aborrecentes" prejudica o vínculo familiar e mascara as transformações típicas dessa fase. Segundo a educadora Cibele Renó, a conexão com os filhos é reflexo da infância e exige compreensão contínua. Para fortalecer essa relação, pais devem trocar estigmas pela escuta ativa e interesse genuíno na rotina dos adolescentes, mantendo o diálogo aberto e limites claros, garantindo o acolhimento necessário durante essa transição de identidade.
A adolescência costuma vir acompanhada de mudanças de humor, necessidade de privacidade, novas opiniões e uma busca maior por independência. Para os pais, nem sempre é simples acompanhar tantas transformações. Mas transformar essa fase em sinônimo de problema - inclusive usando expressões como "aborrecente" - pode dificultar ainda mais a aproximação com os filhos.
Para a educadora e psicopedagoga Cibele Renó, o primeiro passo para atravessar esse período de maneira mais saudável é justamente abandonar os estereótipos e buscar compreender o que acontece com os jovens. "Não adianta a gente querer só ser mãe de adolescente e taxá-los como aborrecente. Nós precisamos estudar e entender como eles funcionam. Afinal de contas, a gente também foi adolescente", afirmou a especialista em entrevista à revista Crescer.
A relação com o adolescente começa muito antes
Um dos principais pontos levantados pela educadora é que a qualidade da relação entre pais e adolescentes não começa a ser construída quando os filhos chegam à puberdade. Os vínculos, hábitos de comunicação e espaços de confiança são formados desde os primeiros anos de vida. "Adolescência é infância vivida. Tudo que eles vivem agora é o que vai refletir lá na adolescência", afirma.
Isso significa que esperar o filho chegar aos 12, 13 ou 14 anos para tentar criar uma rotina de conversas pode tornar esse processo mais difícil. Se desde pequeno ele encontra espaço para falar sobre sentimentos, acontecimentos e preocupações sem ser imediatamente julgado, há mais chances de manter essa abertura conforme cresce.
Como fortalecer a relação com os filhos na adolescência?
Grandes programas em família não são a única maneira de construir intimidade. Pequenos momentos do cotidiano podem ter um peso importante quando existe atenção verdadeira. Isso pode significar deixar o celular de lado durante uma conversa, assistir a uma série escolhida pelo filho, acompanhar um treino, mandar uma mensagem carinhosa durante o dia ou simplesmente demonstrar interesse genuíno por algo que ele gosta.
As refeições também podem se transformar em momentos de conexão. Sempre que possível, sentar-se à mesa sem telas cria uma oportunidade para que as conversas apareçam de maneira espontânea, sem que o adolescente sinta que está participando de um interrogatório.
Outra estratégia é entrar um pouco no universo dos filhos. Não é necessário gostar de tudo o que eles gostam. Mas conhecer seus jogos, músicas, filmes, esportes ou outros interesses pode abrir novas portas para o diálogo.
Ao mesmo tempo, proximidade não significa ausência de limites. Algumas regras familiares precisam permanecer claras, enquanto outras podem ser negociadas conforme o adolescente ganha autonomia. Dar espaço para que ele participe de determinadas decisões também ajuda a desenvolver responsabilidade.
Menos rótulos, mais escuta
O termo "aborrecente" muitas vezes é usado como uma brincadeira, mas vale refletir sobre a mensagem escondida nessa palavra. Quando comportamentos típicos de uma fase complexa são resumidos à ideia de que o jovem é "chato", "difícil" ou "insuportável", existe o risco de deixar de enxergar o que está por trás deles.
A adolescência envolve uma série de transformações físicas, emocionais e sociais. Nesse processo, o jovem começa a conquistar mais independência, construir sua identidade e encontrar novas formas de se relacionar com o mundo - enquanto ainda precisa do apoio e da segurança proporcionados pelos adultos de referência.
Por isso, em vez de esperar que essa etapa simplesmente passe, os pais podem aproveitá-la para conhecer quem o filho está se tornando. No fim, substituir o rótulo pela curiosidade pode fazer uma diferença enorme. Por trás de comportamentos que parecem desafiadores existe um jovem atravessando uma das maiores transformações da vida. E ter adultos dispostos a escutá-lo, respeitá-lo e continuar presentes pode tornar esse caminho muito mais acolhedor.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.