O que a derrota do Brasil para a Noruega pode nos ensinar sobre a mente humana
A eliminação do Brasil vai além do futebol e convida a refletir sobre como lidamos com fracassos, expectativas e a capacidade de aprender com os erros
Toda derrota machuca. Mas algumas doem mais porque quebram uma expectativa. Quando torcemos para uma seleção como a brasileira, acostumada a carregar a história de um país inteiro, não sofremos apenas pela eliminação. Sofremos porque imaginávamos um final diferente.
É curioso perceber que, na maioria das vezes, a dor não nasce do resultado em si, mas da distância entre aquilo que esperávamos e aquilo que aconteceu. Essa é uma das armadilhas do cérebro humano. Nós não reagimos apenas aos fatos. Reagimos às histórias que contamos sobre eles.
No esporte, costumamos olhar apenas para o placar. Na vida, fazemos exatamente a mesma coisa. Julgamos relacionamentos por um término, carreiras por uma demissão, projetos por um fracasso e pessoas por um único momento ruim. Como se um resultado tivesse o poder de resumir uma trajetória inteira.
Mas a ciência do desempenho mostra justamente o contrário. Pesquisas sobre atletas de alta performance demonstram que aqueles que evoluem mais não são necessariamente os que vencem sempre. São os que conseguem transformar o erro em informação. Eles não perguntam apenas "por que perdi?". Perguntam "o que essa derrota pode me ensinar?".
Esse tipo de mentalidade é conhecido na psicologia como growth mindset, ou mentalidade de crescimento. Pessoas com essa característica entendem que competência não é algo fixo. Ela pode ser construída. O fracasso deixa de ser um atestado de incapacidade e passa a funcionar como um laboratório para o próximo passo.
Talvez seja justamente isso que o futebol nos lembre de tempos em tempos. Nenhuma seleção é imbatível. Nenhum profissional acerta sempre. Nenhuma família vive apenas dias felizes. Nenhuma pessoa passa pela vida sem colecionar derrotas. A diferença está na forma como interpretamos esses momentos.
Existe ainda outro aspecto interessante. Nosso cérebro possui um viés chamado viés do resultado. Quando algo dá errado, temos uma tendência quase automática de acreditar que todas as decisões tomadas antes também foram ruins. Mas isso nem sempre é verdade. É possível fazer uma boa escolha e ainda assim ter um resultado desfavorável. Da mesma forma, uma decisão ruim pode, por acaso, terminar bem. Resultado e qualidade da decisão nem sempre caminham juntos.
Essa distinção é importante porque, quando confundimos uma derrota com incompetência, corremos o risco de abandonar estratégias que ainda poderiam dar certo apenas porque o primeiro desfecho não foi o esperado.
Também vale lembrar que perder faz parte de qualquer processo de excelência. Na neurociência da aprendizagem, sabemos que o cérebro aprende justamente quando percebe um erro. É nesse momento que ele compara aquilo que esperava acontecer com aquilo que realmente aconteceu e reorganiza suas conexões para responder melhor da próxima vez. Em outras palavras, o erro é um dos motores do aprendizado.
Talvez por isso as pessoas mais resilientes não sejam aquelas que nunca caíram. São aquelas que desenvolveram a capacidade de levantar com um pouco mais de conhecimento do que tinham antes da queda.
A derrota do Brasil para a Noruega certamente gerou frustração para milhões de torcedores. Mas talvez ela também nos convide a uma reflexão que vai muito além do futebol. Na vida, todos nós enfrentaremos partidas que não terminam como gostaríamos. Haverá entrevistas de emprego que não darão certo, relacionamentos que acabarão, sonhos que precisarão ser adiados e projetos que fracassarão antes de florescer.
A pergunta que realmente importa não é quantas vezes perdemos. É o que fazemos depois que o juiz apita o fim do jogo. Porque, no esporte e na vida, perder uma partida não significa perder a capacidade de vencer a próxima.
Sobre a autora
Jéssica Martani é médica psiquiatra, especialista em TDAH, saúde mental e regulação emocional. Coordena a pós-graduação em TDAH do Instituto TDAH, reconhecida pelo MEC, em parceria com a Universidade Anhanguera. É colunista da Bons Fluidos (Editora Caras) e criadora do canal Brilhantemente, onde traduz temas complexos e reflexões acessíveis para quem busca equilíbrio emocional e transformação pessoal. Saiba mais em Instagram e YouTube.
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