Mulheres recebem apenas 10% dos direitos autorais na música, aponta estudo
Levantamento mostra desigualdade em participação na renda de direitos autorais, além de assédio e falta de reconhecimento
A desigualdade de gênero continua sendo uma realidade no mercado musical. Um estudo recente mostra que as mulheres ainda recebem uma parcela muito pequena da renda gerada por direitos autorais.
De acordo com o relatório Por Elas Que Fazem a Música, lançado pela União Brasileira de Compositores (UBC), as mulheres receberam apenas 10% do total de direitos autorais distribuídos no Brasil.
O levantamento apresenta dados de 2025 e revela que a presença feminina no topo da indústria ainda é limitada.
Entre os 100 artistas com maior rendimento, apenas 11 são mulheres.
Presença feminina cresce, mas renda ainda é desigual
Apesar da desigualdade, o estudo aponta alguns avanços.
Desde a primeira edição do relatório, em 2017, o número de mulheres associadas à UBC cresceu 229%.
Esse aumento mostra que cada vez mais mulheres estão buscando espaço na indústria musical.
No entanto, esse crescimento ainda não se reflete de forma proporcional na renda obtida com direitos autorais.
Autoras concentram maior parte da renda feminina
A pesquisa também analisou como os ganhos das mulheres se distribuem dentro do setor musical.
Entre as associadas da UBC:
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73% da renda feminina vem de autoras.
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23% corresponde às intérpretes.
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2% está ligada a músicas executantes.
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1% vai para versionistas.
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1% para produtoras fonográficas.
Os dados mostram que algumas áreas ainda têm presença feminina muito pequena.
Distribuição de renda entre as mulheres na música - fonte: UBC.
Sudeste concentra maior número de mulheres na música
O estudo também analisou a distribuição regional das mulheres no setor musical.
A maior concentração está no Sudeste, seguido por outras regiões do país.
Veja a divisão:
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60% estão no Sudeste.
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17% no Nordeste.
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11% no Sul.
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8% no Centro-Oeste.
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3% no Norte.
Segundo os pesquisadores, essa concentração revela a necessidade de ampliar oportunidades em outras regiões do Brasil.
Distribuição regional das mulheres na indústria da música - fonte: UBC.
Rádio, shows e streaming são principais fontes de renda
Entre as fontes de arrecadação de direitos autorais para mulheres, alguns segmentos se destacam.
Os principais são:
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Rádio: 17% da renda.
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Shows: 17%.
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Streaming de música: 11%.
Já o cinema aparece como a menor fonte de receita, representando apenas 0,5% da renda feminina no setor.
Dois terços das mulheres no mercado da música já foram vítimas de assédio - fonte: UBC.
Assédio ainda é realidade para mulheres na música
Além das questões financeiras, o estudo também investigou experiências de assédio e discriminação.
O levantamento ouviu mais de 280 mulheres que atuam no mercado musical.
Os resultados mostram um cenário preocupante:
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65% disseram já ter sofrido algum tipo de assédio no trabalho.
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74% relataram assédio sexual.
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63% citaram assédio verbal.
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56% mencionaram assédio moral.
Além disso, 35% afirmaram ter vivido algum tipo de violência, principalmente psicológica.
Discriminação também impacta a carreira
A pesquisa também identificou situações de desvalorização profissional enfrentadas pelas mulheres.
Entre as entrevistadas:
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63% disseram já ter sido ignoradas ou interrompidas em ambientes profissionais.
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59% receberam comentários que colocavam em dúvida sua capacidade.
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57% sentiram maior cobrança para provar competência.
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52% tiveram créditos omitidos ou minimizados.
Essas situações acontecem principalmente em ambientes como reuniões de trabalho, bastidores de shows e processos de contratação.
Maternidade também pode afetar a trajetória profissional
Outro ponto destacado pelo estudo é o impacto da maternidade na carreira musical.
Entre as mulheres que têm filhos, 60% afirmam que a carreira foi prejudicada.
Entre os principais fatores apontados estão:
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Menos convites para projetos.
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Redução de oportunidades profissionais.
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Dificuldade para participar de turnês.
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Comentários preconceituosos sobre maternidade.
Iniciativas buscam ampliar a presença feminina
Apesar dos desafios, o relatório destaca iniciativas voltadas à equidade de gênero.
Na própria União Brasileira de Compositores, por exemplo, as mulheres ocupam grande parte das posições internas.
Atualmente:
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59% da equipe é formada por mulheres.
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57% dos cargos de liderança são ocupados por elas.
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100% das filiais são gerenciadas por mulheres.
Em 2023, a cantora Paula Lima se tornou a primeira diretora-presidenta da entidade.
Segundo ela, o relatório ajuda a dar visibilidade à participação feminina na música.
"A presença das mulheres na música cresce a cada ano, mas ainda existe um caminho importante para alcançar mais equilíbrio no setor", afirma.
O estudo completo está disponível no site da UBC e busca ampliar o debate sobre igualdade de gênero na indústria musical brasileira.