Mecânico cego explica trabalho em oficina: 'Para entender o motor, é preciso saber ouvir e sentir'
Patrick Liasch Marçal, de 34 anos, perdeu a visão dos dois olhos na infância após um descolamento de retina; hoje ele tem a própria oficina
"Dizem que para ser mecânico precisa ter olhos atentos. Mas eu aprendi que, para entender de verdade o motor, é preciso saber ouvir e sentir". É com essa frase que o mecânico Patrick Liasch Marçal, de 34 anos, inicia um dos seus vídeos que viralizou recentemente. O paranaense tem chamado a atenção nas redes sociais ao mostrar a sua rotina consertando carros e motos em sua oficina após ter perdido a visão dos dois olhos aos 9 anos. Uma das publicações dele já conta com mais de 3 milhões de visualizações.
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"Pensei em começar a postar, mas sem pretensão. Era mesmo para as pessoas verem como faço no dia a dia, como funciona. Quero mostrar que as pessoas [com deficiência visual] também têm capacidade. Às vezes, o cara está com uma dificuldade e está com medo de tentar, e com os vídeos pode se encorajar", diz Patrick em entrevista ao Terra.
Ele conta que é a esposa que geralmente o filma trabalhando e ajuda a editar os vídeos divulgados. "Do nada deu um boom absurdo nas redes. O que me deixa mais contente são as mensagens que recebo. Por exemplo, a pessoa fala que não queria mais trabalhar por uma dificuldade, mas depois que viu meus vídeos voltou a ter motivação", ressalta o paranaense.
Perda de visão ainda na infância
Patrick é natural de Cornélio Procópio, cidade com cerca de 45 mil habitantes e localizada a 400 km da capital Curitiba (PR), é casado e pai de um menino de três anos. Ele comenta que nasceu prematuro e, desde pequeno, sempre teve dificuldades para enxergar: "Comecei a usar óculos ainda neném. A miopia que eu tinha era muito avançada. Já perto da época que eu perdi a visão, eu usava 12 graus no olho esquerdo e 11 no direito. Para uma criança, é muita coisa".
A expectativa era tentar fazer uma cirurgia refrativa para a correção de miopia quando ele fizesse 18 anos, mas um acidente doméstico aos 9 anos mudou os rumos. Patrick ficou cego depois de um descolamento de retina -- quando o tecido sensível à luz localizado no fundo do olho se separa da sua camada de suporte.
"Minha casa era abaixo do nível da rua. Tinha uma escada de 10, 12 degraus, mais ou menos, e eu caí do primeiro degrau em relação ao meio-fio. Estava brincando e acabei desequilibrando. Foi o suficiente para descolar a retina do olho esquerdo, fiquei cego dele na hora", lembra.
O paranaense passou por uma cirurgia de emergência para tentar reverter, mas não foi bem-sucedida. O olho infeccionou muito e os médicos chegaram a inclusive cogitar a retirada do globo ocular. "Desde criança, eu sempre tive muita fé e falei para o médico que, no dia da cirurgia, ele não ia precisar tirar, porque a secreção ia parar. E foi o que aconteceu, a secreção secou. Eu falei para o médico que eu ainda vou voltar a enxergar um dia e o olho precisa estar aqui", afirma.
Embora tenha secado, a infecção acabou prejudicando também o olho direito de Patrick e, após complicações de uma segunda cirurgia, ele perdeu a visão completa dos dois olhos. Segundo o mecânico, mesmo com o ocorrido, ele nunca se deixou paralisar e começou um processo de adaptação, como aprender Braille, um sistema de escrita tátil que possibilita que pessoas com deficiência visual, seja parcial, seja total, tenham acesso à leitura.
Ele diz que, desde então, a maior dificuldade que teve que enfrentar sempre foi o preconceito das pessoas. "Mas eu entendi que, na minha vida, sempre vai existir preconceito de várias formas, até em relação ao meu trabalho, em relação à minha forma de viver. Só que eu entendi também que, se eu ficar prestando atenção nisso, eu vou acabar não vivendo. Todo mundo vai falar alguma coisa, algumas pessoas vão me enxergar com dó. O preconceito vai existir, mas depende de mim como vou lidar com isso", reflete.
O trabalho como mecânico
Depois de ficar cego, o paranaense ainda aprendeu a tocar vários instrumentos musicais, como teclado, violão, guitarra e contrabaixo, e atuar como produtor musical de Rap e Hip-hop. Mas, com a chegada da pandemia de covid-19, ele não conseguiu dar continuidade ao seu estúdio e precisou se reinventar. Foi quando a paixão pela mecânica despertou.
"Meu pai tinha um carro que vivia dando problemas. E, às vezes, ele me chamava para ajudar. Eu sempre fui muito curioso, queria saber como funcionava. E foi surgindo esse interesse. Mais tarde, meu sogro estava mexendo no carro e me chamou para ajudar. Lembro até hoje, estava trocando uma homocinética. Foi a primeira vez que eu sujei a mão de graxa, me lambuzei todo", conta.
Nesse período, Patrick se deparou com um anúncio de um curso de mecânica e se inscreveu, mas a formação não contava com materiais para pessoas com deficiência visual. Ele, então, foi conversar com o mecânico responsável pelas aulas e, ao chegar na oficina, veio a surpresa: "Ele disse: 'lembro de você, vi você desde criança, conheço seu avô, seu pai. O que eu tenho para te falar é não sei como te ensinar, mas você vai me ensinar a te ensinar'. E eu comecei o curso, ele foi me ajudando, eu fui ajudando ele a entender como eu entendia as coisas".
Após uma experiência ruim trabalhando em uma oficina, Patrick decidiu abrir o seu próprio negócio no fim de 2023. "Juntei um dinheiro, comprei ferramentas e fui trabalhar na casa do meu pai, porque a minha casa na época não tinha espaço. Comecei a divulgar para os meus amigos, pessoas que conheciam, e elas foram levando para mim. O meu primeiro serviço foi fazer a retífica de um cabeçote de um Monza 2.0", relata.
Atualmente, ele montou uma nova estrutura na garagem de sua casa e trabalha com injeção eletrônica, atendendo veículos automáticos também. Patrick trabalha sozinho e, quando precisa lidar com a gestão de fios coloridos, contrata um ajudante.
Para um futuro próximo, o mecânico projeta ter uma oficina completamente estruturada e viver totalmente do seu serviço. "A palavra da minha vida é resiliência. Se um dia não der certo como mecânico, eu vou fazer outra coisa virar. Vou tentar fazer sempre o melhor para deixar um legado para o meu filho. Ele olhar para trás e ter o pai como referência. Isso é o mais importante para mim hoje", destaca Patrick.
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