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Junho, frio e exaustão: por que tantas pessoas se sentem emocionalmente esgotadas nesta época do ano?

Entenda por que o meio do ano costuma trazer mais cansaço emocional e como o frio, o acúmulo de estresse e a pressão por produtividade podem impactar a saúde mental

6 jun 2026 - 08h09
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Estamos chegando ao meio do ano e existe um fenômeno interessante que costuma aparecer com frequência nos consultórios de saúde mental nesta época. Muitas pessoas começam a relatar uma sensação persistente de cansaço, desânimo, irritabilidade, dificuldade de concentração e perda de motivação. Frequentemente acreditam que estão desenvolvendo algum problema grave ou que simplesmente perderam a capacidade de lidar com a própria rotina. No entanto, em muitos casos, o que observamos é o resultado de um desgaste progressivo que foi se acumulando ao longo dos últimos meses. Janeiro costuma ser um período marcado por expectativas, metas e projetos. Existe uma energia típica de recomeço que faz com que muitas pessoas iniciem o ano com uma disposição maior para enfrentar desafios. Entretanto, à medida que os meses avançam, a realidade cotidiana se impõe. Problemas profissionais, preocupações financeiras, responsabilidades familiares, imprevistos e cobranças vão se acumulando de forma gradual. Quando chegamos a junho, já carregamos praticamente seis meses de demandas emocionais nas costas, e nem sempre percebemos o quanto isso pode impactar nossa saúde mental.

Sensação de esgotamento em junho pode estar ligada ao acúmulo de estresse, frio e à redução da luz solar; entenda os impactos na saúde mental
Sensação de esgotamento em junho pode estar ligada ao acúmulo de estresse, frio e à redução da luz solar; entenda os impactos na saúde mental
Foto: Reprodução: Canva/Syda Productions / Bons Fluidos

O cérebro humano é extraordinariamente adaptável, mas ele não é ilimitado. Existe uma tendência cultural de acreditar que devemos ser capazes de suportar qualquer nível de pressão desde que tenhamos disciplina suficiente. A ciência mostra algo diferente. O estresse não costuma produzir seus efeitos mais importantes nos primeiros dias ou semanas. Os maiores impactos aparecem quando o organismo permanece exposto por longos períodos a situações que exigem adaptação constante. É como acontece com uma corda sendo tensionada. Nos primeiros momentos ela suporta bem a força aplicada. Porém, quando essa tensão se mantém continuamente, pequenas fibras começam a se desgastar até que, eventualmente, surgem sinais visíveis de fragilidade. Com os seres humanos ocorre algo semelhante. O problema é que, ao contrário da corda, nossos sinais nem sempre são tão fáceis de identificar.

Muitas vezes o sofrimento emocional se manifesta através do corpo antes mesmo que a pessoa perceba o que está acontecendo. O sono deixa de ser reparador. Surge uma sensação constante de fadiga, mesmo após períodos de descanso. Pequenas tarefas passam a exigir um esforço mental desproporcional. A memória parece menos eficiente. A paciência diminui. Algumas pessoas tornam-se mais sensíveis emocionalmente, enquanto outras desenvolvem uma espécie de anestesia afetiva, como se estivessem funcionando no piloto automático. Não é raro que apareçam sintomas físicos como dores musculares, cefaleias, alterações gastrointestinais, tensão na região cervical e aumento da vulnerabilidade a quadros ansiosos. Frequentemente, esses sintomas são interpretados apenas como consequência de uma rotina agitada, quando na verdade podem representar um sinal importante de que os recursos emocionais estão sendo consumidos mais rapidamente do que conseguem ser recuperados. 

Junho também traz outro elemento que costuma influenciar significativamente a saúde mental: a chegada do frio e a diminuição da luminosidade natural. Embora muitas pessoas não associem diretamente clima e emoções, sabemos hoje que a exposição à luz solar desempenha um papel fundamental na regulação de diversos processos neurobiológicos. A luz influencia o funcionamento dos ritmos circadianos, que atuam como uma espécie de relógio interno responsável por regular sono, vigília, disposição física e diversos aspectos relacionados ao humor. Quando os dias ficam mais curtos e passamos menos tempo expostos à luz natural, algumas pessoas podem apresentar maior vulnerabilidade a sintomas depressivos, aumento da fadiga, redução da energia e piora da ansiedade.

Mesmo em países como o Brasil, onde os invernos costumam ser mais amenos do que em regiões da Europa ou da América do Norte, observamos mudanças comportamentais relevantes durante os meses mais frios. As pessoas tendem a permanecer mais tempo dentro de casa, reduzem a prática de atividades físicas, diminuem encontros sociais e passam menos tempo em contato com ambientes abertos. Pode parecer um detalhe, mas esses fatores exercem influência direta sobre mecanismos relacionados ao bem-estar psicológico. A atividade física, por exemplo, está associada à liberação de substâncias importantes para a regulação do humor, além de contribuir para a qualidade do sono e para o manejo do estresse. Quando ela diminui, muitas vezes perdemos um dos principais fatores de proteção para a saúde mental.

Outro aspecto que merece reflexão é que chegamos a junho carregando não apenas o desgaste do ano atual, mas também uma sensação coletiva de aceleração que vem se intensificando há décadas. Vivemos em uma sociedade que valoriza a produtividade de maneira quase absoluta. Existe uma pressão constante para produzir mais, responder mais rápido, estar sempre disponível e aproveitar cada minuto de forma eficiente. O problema é que o cérebro humano não evoluiu para funcionar em estado permanente de desempenho máximo. Nenhum sistema biológico foi projetado para isso. Assim como o coração alterna contração e relaxamento para continuar funcionando, nossa mente também necessita de períodos de recuperação. Quando ignoramos essa necessidade por tempo suficiente, o organismo encontra maneiras de sinalizar que algo não está bem.

É justamente nesse contexto que o burnout se torna cada vez mais frequente. Embora seja frequentemente associado ao ambiente profissional, o esgotamento emocional raramente resulta de uma única fonte de estresse. Na prática clínica, observamos que ele costuma surgir quando diferentes áreas da vida começam a exigir mais energia do que a pessoa consegue repor. Trabalho, relacionamentos, preocupações financeiras, responsabilidades familiares, cuidados com filhos ou pais idosos e até mesmo a pressão para corresponder às expectativas sociais podem contribuir para esse processo. O organismo não separa essas experiências em compartimentos isolados. Para o cérebro, tudo representa carga emocional.

Talvez um dos maiores equívocos sobre o burnout seja acreditar que ele afeta apenas pessoas frágeis ou pouco resilientes. Na realidade, frequentemente acontece exatamente o contrário. Muitas das pessoas que desenvolvem quadros importantes de esgotamento são extremamente responsáveis, comprometidas e acostumadas a assumir múltiplas responsabilidades. São indivíduos que aprenderam desde cedo a colocar as necessidades dos outros acima das próprias, que sentem culpa ao descansar e que costumam medir seu valor pessoal pela capacidade de produzir e resolver problemas. O resultado é que passam anos ignorando sinais importantes de desgaste até que o corpo finalmente impõe limites que a mente tentou ultrapassar.

Talvez por isso junho seja um bom momento para fazermos uma pausa e refletirmos não apenas sobre aquilo que ainda queremos realizar até o final do ano, mas também sobre a forma como estamos percorrendo esse caminho. Em uma cultura que valoriza tanto as metas e os resultados, raramente paramos para avaliar o custo emocional das nossas conquistas. No entanto, saúde mental não é um recurso infinito. Ela precisa ser cultivada diariamente através do sono adequado, das relações significativas, dos momentos de lazer, da atividade física, do contato com a natureza e da capacidade de estabelecer limites. Cuidar da mente não significa abandonar responsabilidades ou diminuir ambições. Significa reconhecer que nenhuma realização será verdadeiramente sustentável se for construída às custas do próprio adoecimento.

Talvez o cansaço que tantas pessoas sentem nesta época do ano não seja apenas um sinal de fraqueza, falta de motivação ou incapacidade de lidar com a vida. Talvez seja um convite para desacelerar, reavaliar prioridades e lembrar que, antes de sermos profissionais, pais, mães, cuidadores ou empreendedores, somos seres humanos. E seres humanos precisam de descanso, de conexão e de recuperação para continuar seguindo em frente de forma saudável.

Sobre a autora

Jéssica Martani é médica psiquiatra, especialista em TDAH, saúde mental e regulação emocional. Coordena a pós-graduação em TDAH do Instituto TDAH, reconhecida pelo MEC, em parceria com a Universidade Anhanguera. É colunista da Bons Fluidos (Editora Caras) e criadora do canal Brilhantemente, onde traduz temas complexos e reflexões acessíveis para quem busca equilíbrio emocional e transformação pessoal. Saiba mais em Instagram e YouTube.

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