Fazer as pazes com o passado: o alicerce invisível de uma vida bem leve e feliz
Fazer as pazes com o passado não é esquecer o que aconteceu, mas integrar a própria história para deixar de viver em estado permanente de defesa e, finalmente, habitar o presente com mais liberdade emocional
Existe uma ideia muito difundida de que seguir em frente significa virar a página, como se a vida fosse um livro em que bastasse fechar um capítulo e iniciar outro, limpo, organizado e sem vestígios do que veio antes. Essa imagem é confortável, mas pouco realista. Na vida concreta, as coisas não funcionam assim e, sobretudo, não são tão simples. Seguimos vivendo presos a amarras invisíveis, a acontecimentos do passado que continuam operando em silêncio, enquanto projetamos no futuro a expectativa de que ele resolva aquilo que nunca foi verdadeiramente elaborado. Nesse movimento, ficamos suspensos entre o que já aconteceu e o que ainda não existe, e raramente conseguimos habitar o presente com inteireza.
Na prática, o que se observa é que muitas pessoas continuam suas vidas normalmente: trabalham, produzem, se relacionam, cumprem responsabilidades e mantêm uma aparência de funcionalidade. No entanto, emocionalmente permanecem presas a cenas antigas, a experiências que não foram digeridas, não por falta de vontade, mas porque nunca tiveram espaço, tempo ou linguagem emocional suficientes para compreender o que viveram. O passado não desaparece simplesmente porque o calendário avança; ele se transforma. Em alguns casos, assume a forma de medo constante; em outros, vira rigidez, controle excessivo ou uma sensação persistente de cansaço que não se explica apenas pelo ritmo da vida. Muitas vezes, aparece como dificuldade de lidar com pessoas, irritabilidade frequente, ressentimento ou uma amargura silenciosa que se infiltra no cotidiano. Não se trata de traços de personalidade, mas de marcas emocionais que nunca encontraram um lugar adequado para se acomodar.
Quando o passado não é elaborado, ele raramente se manifesta como uma lembrança clara ou organizada. Ele aparece como padrão de comportamento, como reação automática, como escolhas que se repetem mesmo quando a consciência já percebeu que não fazem mais sentido. Surge quando alguém se pergunta por que sempre se envolve com o mesmo tipo de pessoa, por que sabe exatamente o que precisa fazer, mas se sente paralisado, ou por que a vida aparentemente está andando, mas a sensação de exaustão nunca passa. O passado mal resolvido não se impõe de forma explícita; ele atua de maneira sutil e constante, influenciando decisões, relações e estados emocionais sem ser percebido de imediato.
É importante destacar que o problema não está em ter vivido experiências difíceis: isso faz parte da vida adulta e do amadurecimento. O verdadeiro problema surge quando se tenta construir o futuro sobre uma base emocional instável, cheia de fissuras que nunca foram examinadas. Assim como nenhuma construção se sustenta sobre um solo comprometido, nenhuma vida se mantém saudável quando o passado permanece ativo, interferindo silenciosamente em cada nova tentativa de avançar.
Fazer as pazes com o passado é difícil porque fomos educados a confundir força com negação. Desde cedo, aprendemos que olhar para trás poderia ser sinal de fraqueza, que revisitar dores era inútil ou perigoso, e que o mais importante era seguir funcionando, independentemente do custo emocional. Além disso, existe um medo pouco reconhecido, mas muito presente: o receio de que, ao revisitar o passado, a dor volte com a mesma intensidade, como se elaborar fosse o mesmo que reviver. No entanto, elaborar não significa reabrir feridas, mas permitir que elas finalmente cicatrizem. O cérebro humano não interpreta o silêncio emocional como resolução, e sim como pendência. Aquilo que não foi simbolizado, nomeado e compreendido continua ativo, mesmo quando acreditamos que já superamos. O corpo registra, as reações denunciam e as escolhas confirmam.
Talvez o maior equívoco seja acreditar que fazer as pazes com o passado implica esquecer, perdoar tudo ou minimizar o que doeu. Não se trata disso. Fazer as pazes significa interromper um estado permanente de defesa, parar de responder ao presente como se ele fosse apenas uma repetição disfarçada do passado e deixar de pagar, diariamente, juros emocionais por acontecimentos que já não existem. Existe uma diferença fundamental entre lembrar de algo e viver a partir da ferida. Quando o passado não é elaborado, ele se transforma em lente através da qual tudo é interpretado: o mundo, as pessoas, as oportunidades e os riscos. As decisões passam a ser tomadas não a partir do presente, mas como tentativas de evitar que antigas dores se repitam e, paradoxalmente, isso acaba produzindo os mesmos roteiros.
Os impactos desse passado não integrado aparecem de forma silenciosa e persistente na vida adulta. Eles se manifestam na dificuldade de confiar, na necessidade excessiva de controle, na autocrítica constante e na sensação recorrente de estar atrasado em relação à própria vida. Também se revelam na incapacidade de descansar de verdade: o corpo até desacelera, mas a mente permanece em alerta, como se algo ruim pudesse acontecer a qualquer momento. Isso não é falta de gratidão nem exagero emocional, mas o resultado de um sistema nervoso que aprendeu, em algum momento da história pessoal, que relaxar não era seguro. Assim, o adulto segue cansado de batalhas que já terminaram, mas que nunca foram oficialmente encerradas internamente.
Existe uma fantasia contemporânea de que basta planejar melhor, produzir mais ou se organizar com maior eficiência para que a vida finalmente entre nos trilhos. No entanto, nenhum planejamento sustenta um emocional em conflito constante. Construir uma vida sólida exige algo menos visível e muito mais complexo: maturidade emocional. E essa maturidade começa quando se interrompe a fuga da própria história, não para se prender a ela, mas para compreendê-la. Quando alguém entende o que viveu, deixa de se definir por aquilo; quando reconhece suas dores, deixa de agir a partir delas; quando faz as pazes com o passado, conquista algo raro e essencial: liberdade interna.
Não existe um ritual único nem um momento ideal para iniciar esse processo, mas alguns movimentos são fundamentais. O primeiro é nomear, dar palavras ao que doeu, sem julgamento e sem dramatização. O segundo é reconhecer limites, entendendo que se fez o melhor possível com os recursos emocionais disponíveis naquele momento da vida. O terceiro é aprender a separar culpa de responsabilidade: enquanto a culpa paralisa, a responsabilidade possibilita transformação. Buscar espaços de elaboração seja por meio da escrita, da reflexão, da terapia ou do silêncio consciente não é sinal de fraqueza, mas de compromisso com uma vida mais inteira. O passado explica, mas não define.
Seguir em frente, no fim das contas, não é acelerar nem apagar o que foi vivido, mas soltar. É deixar de carregar versões antigas de si mesmo por lealdade à dor e permitir que a vida não precise mais girar em torno do que aconteceu. Fazer as pazes com o passado é um dos atos mais silenciosos e profundos da vida adulta. Não gera aplausos nem reconhecimento externo, mas muda tudo. Porque só constrói de verdade quem não precisa mais lutar contra a própria história. E talvez amadurecer seja exatamente isso: parar de viver como se ainda estivéssemos lá e, finalmente, conseguir habitar o presente com inteireza.
Sobre a autora
Jéssica Martani é médica psiquiatra, especialista em TDAH, saúde mental e regulação emocional. Coordena a pós-graduação em TDAH do Instituto TDAH, reconhecida pelo MEC, em parceria com a Universidade Anhanguera. É colunista da Bons Fluidos (Editora Caras) e criadora do canal Brilhantemente, onde traduz temas complexos e reflexões acessíveis para quem busca equilíbrio emocional e transformação pessoal. Saiba mais em Instagram e YouTube.