Existe uma idade mais triste na vida? Estudo aponta que sim; entenda
Estudos internacionais mostram que o bem-estar tende a cair em certa idade, mas depois volta a crescer, revelando um padrão comum na forma como vivemos a felicidade
A felicidade não segue uma linha reta ao longo da vida. Ela muda de forma, de intensidade e de significado conforme os anos passam. Embora a experiência seja sempre individual, um grande estudo internacional indica que existe, sim, um padrão que se repete em diferentes culturas: o bem-estar tende a cair na meia-idade e voltar a crescer mais tarde.
Essa constatação vem de uma pesquisa conduzida pelo economista David Blanchflower, professor da Universidade de Dartmouth, nos Estados Unidos. O estudo analisou dados de mais de 140 países, entre nações desenvolvidas e em desenvolvimento, para identificar em que momento da vida as pessoas relatam menor satisfação e alegria.
O ponto mais baixo do bem-estar
De acordo com a pesquisa, o chamado "vale" da felicidade costuma ocorrer entre os 47 e 48 anos. É nessa fase que muitas pessoas enfrentam um acúmulo de pressões emocionais, sociais e biológicas, formando o que o autor descreve como um verdadeiro "caldo tóxico" de desafios.
Entre os fatores mais comuns estão o ajuste de expectativas - quando sonhos antigos já não parecem tão alcançáveis -, o peso das responsabilidades financeiras e familiares e uma maior vulnerabilidade psicológica. Não por acaso, é também nesse período que aumentam os índices de depressão, ansiedade e instabilidade emocional.
Do ponto de vista biológico, a meia-idade costuma vir acompanhada de níveis mais elevados e crônicos de cortisol, o hormônio do estresse. Esse desequilíbrio pode afetar o sono, o humor, a energia e a capacidade de sentir prazer. Mudanças hormonais também entram em cena, como a queda da testosterona nos homens e as flutuações da perimenopausa e da menopausa nas mulheres.
Esse padrão é conhecido na literatura científica como a "curva da felicidade" em formato de U. O dado mais surpreendente é a consistência do fenômeno: mesmo em contextos culturais, sociais e econômicos muito diferentes, o desenho geral da curva se repete.
Depois do fundo do poço, a vida melhora
A boa notícia é que o ponto mais difícil não dura para sempre. Após a meia-idade, o bem-estar tende a crescer de forma gradual e contínua, muitas vezes alcançando níveis semelhantes aos da juventude por volta dos 70 anos ou mais.
Para a psicologia, essa melhora está ligada à maturidade emocional e à reorganização das expectativas. Com o tempo, muitas pessoas aprendem a lidar melhor com frustrações, reduzem comparações sociais e passam a valorizar o que realmente importa. Para alguns, esse período também coincide com a sensação de ter alcançado, ao menos em parte, objetivos importantes da vida.
Juventude e velhice: felicidades diferentes
A felicidade na juventude costuma estar associada a descobertas, novidades e primeiras experiências. Já na velhice, o bem-estar tende a vir de outro lugar: menos pressão, mais aceitação e maior foco em relações significativas.
Esse movimento dialoga com teorias como a da seletividade socioemocional, segundo a qual, à medida que a percepção do tempo de vida se torna mais limitada, as pessoas passam a priorizar experiências emocionalmente mais profundas e satisfatórias. Com o passar dos anos, diminuem também a ansiedade por decisões, o peso das comparações e a cobrança por sucesso. O resultado, para muitos, é uma sensação maior de paz.
O impacto da pandemia nessa curva
O estudo de Blanchflower analisou apenas o início da pandemia de Covid-19, mas especialistas observam que esse período aprofundou ainda mais o "vale" da meia-idade. Segundo especialistas, pessoas nessa fase já lidam com múltiplas responsabilidades - filhos, pais idosos, carreira e finanças - e ainda precisaram enfrentar luto, isolamento, insegurança econômica e sobrecarga emocional.
Embora a tendência geral seja de recuperação do bem-estar após os 50 anos, grandes crises econômicas ou de saúde pública podem atrasar ou fragilizar esse movimento, especialmente em quem já apresenta menor resiliência emocional.
E no Brasil?
O Brasil aparece no estudo como um exemplo de que a curva da felicidade em forma de U não é exclusiva de países ricos. Em nações em desenvolvimento, o ponto mais baixo também ocorre por volta dos 48 anos. Ainda assim, fatores culturais e sociais podem modificar essa experiência. Em comunidades com estruturas diferentes ou redes de apoio mais fortes, a idade cronológica pode ter menos peso do que outros elementos na percepção de bem-estar.
No fim das contas, a felicidade não é algo fixo, nem igual ao longo da vida. Ela muda de forma, de ritmo e de significado. O que a ciência sugere é que os momentos mais difíceis fazem parte de um processo maior - e que, muitas vezes, eles antecedem uma fase de maior equilíbrio, aceitação e satisfação. Não são necessariamente as condições objetivas que melhoram depois dos 40, mas a maneira como cada pessoa passa a enxergar a própria vida. E isso, por si só, já é um bom motivo para atravessar a curva com mais gentileza consigo mesmo.