Estamos adultizando crianças e infantilizando adultos?
Nos últimos dias, dois assuntos me chamaram atenção e despertaram uma reflexão sobre um fenômeno psicológico e social que vem se intensificando: o uso de chupetas e a adultização dos pequenos
Nos últimos dias, dois assuntos me chamaram atenção e despertaram uma reflexão sobre um fenômeno psicológico e social que vem se intensificando: o uso de chupetas por adultos, outros recursos nostálgicos e a crescente adultização das crianças, um tema que segue em destaque aqui no Brasil. O que esses acontecimentos querem nos dizer?
Construção do self
Donald Winnicott, psicanalista britânico, destacou a importância do ambiente e das relações interpessoais no desenvolvimento emocional saudável. Ele desenvolveu conceitos, como o objeto transicional e o verdadeiro self, que enfatizam a necessidade de experiências adequadas à fase de desenvolvimento da criança para a formação de uma identidade sólida e autêntica. Para Winnicott, a criança precisa de um ambiente suficientemente bom, marcado por cuidados sensíveis e consistentes, para se desenvolver de maneira segura e saudável.
A adultização infantil acontece quando crianças são expostas a responsabilidades, comportamentos ou conteúdos do mundo adulto antes de estarem emocionalmente preparadas. Isso inclui pressão excessiva por desempenho escolar, exposição precoce a redes sociais e conteúdos sexualizados, ou a necessidade de assumir papéis de cuidado familiar. Segundo Winnicott, essas experiências podem interferir na construção do verdadeiro self, comprometendo a capacidade da criança de desenvolver autonomia, criatividade e segurança emocional.
A importância e os limites do brincar
O brincar, para Winnicott, permite que a criança teste limites, experimente o mundo e integre suas experiências. Quando esse espaço é retirado pela adultização precoce, o impacto se estende à vida adulta. Indivíduos que não puderam explorar plenamente a infância podem se tornar emocionalmente imaturos ou dependentes, buscando compensações simbólicas para lidar com frustrações e ansiedades.
Por outro lado, a infantilização dos adultos se manifesta em comportamentos que remetem à infância. Por exemplo, o uso de chupetas, bonecos, brinquedos ou hábitos lúdicos exagerados, funcionando, muitas vezes, como uma fuga das responsabilidades. Essa busca por regressão indica dificuldade de lidar com a realidade adulta e de assumir desejos e responsabilidades. Winnicott aponta que adultos que não conseguiram construir um verdadeiro self sólido podem recorrer a essas formas de conforto simbólico para preencher lacunas emocionais não resolvidas.
Desenvolvimento emocional saudável
Essa reflexão nos leva a considerar que o desenvolvimento emocional saudável depende de equilíbrio. Crianças precisam viver a infância plenamente, com tempo para brincar e explorar, enquanto adultos devem cultivar autonomia, responsabilidade e capacidade de lidar com frustrações. A sociedade contemporânea, que retira a infância das crianças e oferece aos adultos, estímulos que reforçam comportamentos infantis, cria um ciclo de desequilíbrio emocional que merece atenção. Os indícios sugerem que os resultados desse ciclo dificilmente seriam saudáveis. A vida adulta sempre bate à porta, e alguns desafios são inevitáveis.
O psicólogo brasileiro, Frederico Mattos, em seu livro 'Maturidade Emocional', também aborda esse tema. Ele lembra que a imaturidade emocional é um descompasso psicológico que dificulta enfrentar as demandas da vida adulta, quase como uma recusa em atravessar as fronteiras da infância para lidar com dilemas mais complexos.
Por fim, pensar na adultização das crianças e na infantilização dos adultos é repensar nossas práticas culturais e familiares. Garantir espaços de brincadeira, cuidado emocional e experiências adequadas para as crianças, ao mesmo tempo, em que apoiamos adultos na construção de autonomia e maturidade afetiva, é um caminho para o desenvolvimento saudável de todos. Só assim podemos evitar que crianças assumam responsabilidades antes da hora e que adultos busquem no conforto infantil formas de escapar da realidade, promovendo bem-estar e equilíbrio emocional.