Diagnósticos de doenças autoimunes aumentaram nos últimos anos; entenda
Pesquisadores investigam por que os casos de doenças autoimunes crescem rapidamente; fatores ambientais, dieta, microplásticos e genética estão entre as explicações
As doenças autoimunes não são novas. Condições como artrite reumatoide, diabetes tipo 1, psoríase ou esclerose múltipla acompanham a humanidade há muito tempo. O que chama a atenção dos cientistas hoje, no entanto, é a frequência cada vez maior desses diagnósticos, especialmente entre mulheres. Estima-se que mais de 80 tipos diferentes de doenças autoimunes já afetam cerca de 50 milhões de pessoas apenas nos Estados Unidos, segundo o The Washington Post.
O que significa ter uma doença autoimune?
O sistema imunológico é responsável por proteger o corpo de vírus, bactérias e outros invasores. No entanto, em condições autoimunes, essa defesa perde a capacidade de diferenciar o que é ameaça do que é saudável, atacando tecidos e órgãos do próprio organismo. Os sintomas iniciais variam, mas muitas vezes incluem fadiga persistente, febre baixa, dores musculares e dificuldades de concentração - sinais que podem facilmente confundir com outras condições.
Crescimento acelerado
De acordo com o The Guardian, os diagnósticos aumentam de 3% a 9% a cada ano. Como a genética humana pouco se alterou nas últimas décadas, especialistas acreditam que fatores ambientais estão por trás desse salto nos números.
Uma das hipóteses mais investigadas é a relação entre dieta e saúde intestinal. Cientistas apontam que o consumo excessivo de fast-food, pobre em fibras, pode alterar profundamente o microbioma - conjunto de microrganismos que vivem no intestino e regulam funções essenciais do corpo. Essa desregulação pode abrir caminho para respostas imunológicas equivocadas e, consequentemente, para o desenvolvimento de doenças autoimunes.
Outro fator em estudo é a presença crescente de microplásticos, que estão no ar, na água e nos alimentos. Pesquisas indicam que adultos podem absorver mais de 800 partículas por dia. Uma vez no corpo, esses fragmentos provocam inflamação, estresse oxidativo e alterações no microbioma, mecanismos semelhantes aos observados em outras condições ambientais ligadas ao aumento das doenças autoimunes.
Por que as mulheres são mais afetadas?
Outro dado intrigante: cerca de 80% das pessoas diagnosticadas com doenças autoimunes são mulheres. Um estudo da Universidade de Stanford sugere que a explicação pode estar em uma molécula chamada Xist, presente apenas no sexo feminino.
Mulheres têm dois cromossomos X, enquanto homens possuem um X e um Y. Para evitar a produção excessiva de proteínas, o corpo feminino desativa um dos cromossomos X através da molécula Xist. No entanto, esse processo parece gerar um complexo molecular que, segundo os pesquisadores, está relacionado ao desenvolvimento de diversas doenças autoimunes. Embora a descoberta não explique por completo por que homens também podem desenvolver essas condições, ela representa uma peça importante no quebra-cabeça.
O futuro da pesquisa
Nas últimas duas décadas, avanços significativos melhoraram a qualidade de vida de quem convive com doenças autoimunes. Ainda assim, os cientistas reconhecem que há muito a ser desvendado - desde os mecanismos genéticos e ambientais que aumentam os riscos até novas formas de prevenção e tratamento.
O que se sabe até agora deixa claro: fatores externos, estilo de vida e predisposições biológicas se entrelaçam em um cenário complexo. E entender essas conexões pode ser a chave para conter o avanço desse fenômeno global.