Conservantes x câncer: como ler o rótulo ajuda a proteger sua saúde
Entenda como alguns conservantes presentes em ultraprocessados se relacionam ao câncer e aprenda a identificar esses aditivos no rótulo.
A discussão sobre conservantes em alimentos ganhou novo fôlego com estudos recentes feitos na França. Pesquisadores da Université Sorbonne Paris Nord e da Université Paris Cité encontraram associação entre maior consumo de certos aditivos e aumento de risco de câncer, especialmente de mama, próstata e cólon.
Os trabalhos não provam causa e efeito, mas reforçam um ponto central: a exposição contínua a aditivos químicos merece atenção. Em um país onde os ultraprocessados ocupam prateleiras inteiras, saber ler o rótulo deixa de ser detalhe e vira ferramenta de prevenção.
Conservantes e câncer: o que os novos estudos estão mostrando
Conservantes são aditivos usados para aumentar a validade dos alimentos. Eles evitam crescimento de microrganismos e retardam reações químicas que estragariam o produto. Na rotulagem europeia, muitos aparecem sob códigos entre E200 e E299, ou como antioxidantes entre E300 e E399.
Os estudos franceses analisaram dados de mais de 100 mil adultos da coorte NutriNet-Santé. A equipe avaliou a ingestão habitual de diversos conservantes alimentares e acompanhou a incidência de câncer ao longo de cerca de 14 anos.
Resultados preliminares apontam que maior consumo de alguns aditivos específicos, como sorbatos, sulfitos, nitritos, nitratos e acetatos, esteve ligado a risco um pouco maior de câncer em geral, além de mama e próstata. Os aumentos variaram, em geral, entre 10% e 30%, dependendo do composto analisado.
Importante destacar: trata-se de pesquisa observacional. Os autores não afirmam que o conservante "causa" câncer sozinho, mas que há uma associação estatística. Outros fatores de estilo de vida ainda podem influenciar os resultados.
Onde esses conservantes aparecem na alimentação
Na prática, esses aditivos estão espalhados em diferentes categorias. Processados cárneos, bebidas industrializadas, molhos prontos, pães de pacote, sobremesas e refeições congeladas são alguns exemplos de fontes frequentes.
Entre os conservantes mais comuns estão:
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Nitrato e nitrito de sódio: presentes em bacon, salsicha, salame e outros embutidos.
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Sorbato de potássio: usado em doces, coberturas, queijos processados, condimentos e carnes industrializadas.
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Sulfitos: encontrados em biscoitos, cereais matinais, sucos engarrafados, vinhos e embutidos.
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Acetatos e ácido acético: empregados em produtos de panificação e refeições prontas.
Segundo a nutricionista Cynthia Howlett, da Sanutrin, corantes, conservantes, aromatizantes e realçadores de sabor costumam atuar juntos.
"Grande parte desses alimentos com cores mais intensas utiliza aditivos artificiais, que deixam o gosto mais marcante, a cor mais vibrante e chamam mais a atenção do consumidor", explica.
Conservantes, ultraprocessados e perda de qualidade nutricional
Do ponto de vista tecnológico, conservantes ajudam a reduzir desperdício e garantir segurança microbiológica. O problema começa quando produtos ricos em aditivos ocupam espaço que poderia ser de alimentos in natura ou minimamente processados.
Cynthia lembra que, em muitos casos, há perda de propriedades naturais. "Um açaí, por exemplo, que tem propriedade antioxidante, é uma fruta super rica, com uma gordura considerada boa, mas quando se mistura com xarope, corante e açúcar, acaba perdendo essas características", afirma.
Além da perda nutricional, o consumo frequente de ultraprocessados pode estar ligado a processos inflamatórios, alergias e sintomas como dores de cabeça e alterações intestinais, que nem sempre são associados à alimentação no primeiro momento.
Por que reduzir a exposição pode ajudar na prevenção
Os estudos franceses sugerem que alguns conservantes podem interferir em vias inflamatórias e no equilíbrio do microbioma intestinal. Em laboratório, certos compostos mostram capacidade de danificar células e DNA, o que teoricamente poderia favorecer o desenvolvimento de tumores.
Na vida real, é difícil separar totalmente o efeito do aditivo do impacto global dos ultraprocessados. Quem consome muitos alimentos industrializados tende a ter dieta mais pobre em fibras, frutas e verduras, o que já é um fator conhecido de risco para câncer e outras doenças crônicas.
Por isso, especialistas defendem uma abordagem combinada. Menos ultraprocessados com longo rótulo, mais alimentos frescos e atenção especial a grupos de aditivos hoje sob suspeita, como certos sorbatos, sulfitos e nitritos.
Como ler o rótulo e identificar conservantes na prática
Entender o rótulo é um dos caminhos mais diretos para reduzir a exposição a aditivos. No Brasil, a rotulagem frontal por lupa chama atenção para alto teor de sódio, açúcar e gordura, mas não destaca corantes, conservantes e realçadores de sabor de forma específica.
Essas substâncias aparecem, em geral, na lista de ingredientes, muitas vezes com nomes técnicos pouco amigáveis. Termos como "benzoato de sódio", "sorbato de potássio", "metabissulfito" ou "nitrato de sódio" passam despercebidos em uma leitura rápida.
Para Cynthia, o consumidor precisa ganhar familiaridade com esses termos. "É importante entender os ingredientes, a composição do alimento que está sendo comprado e procurar decifrar esses nomes", orienta a nutricionista.
Checklist rápido para analisar rótulos no mercado
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Observe as cores. Tons muito vibrantes e padronizados costumam indicar uso de corantes artificiais.
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Leia toda a lista de ingredientes. É ali que aparecem corantes, conservantes e realçadores de sabor.
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Desconfie de listas longas. Muitos nomes químicos seguidos sugerem produto altamente ultraprocessado.
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Procure termos-chave. Nitratos, nitritos, benzoatos, sorbatos, sulfitos, propionatos e glutamato monossódico merecem atenção.
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Compare versões. Muitas vezes, a mesma categoria de produto tem opções com menos aditivos.
Não é necessário decorar todos os códigos. Com o tempo, a repetição de alguns nomes facilita a identificação.
Impacto dos ultraprocessados na rotina e na saúde
O grande desafio é a frequência. Comer um alimento industrializado em uma ocasião específica não equivale a uma exposição diária e contínua a diversos aditivos. O risco, quando existe, vem justamente do hábito.
No dia a dia, é comum que café da manhã, lanche e jantar incluam produtos com diversos conservantes e aditivos. Pão de pacote, presunto, biscoitos, refrigerante, macarrão instantâneo, molho pronto. A soma dessa rotina, ao longo de anos, é o que desperta preocupação em pesquisadores.
Ao mesmo tempo, a praticidade desses alimentos é real. Por isso, a estratégia mais viável costuma ser reduzir, não necessariamente zerar, o consumo. Substituições graduais e planejamento das refeições podem fazer grande diferença na exposição total a aditivos.