Receita original da massa amatriciana causa polêmica na Itália
A Itália está há dias imersa na que é popularmente conhecida como a "guerra do alho", uma autêntica disputa gastronômica que gira em torno da presença ou não do alho na massa ao molho amatriciana.
A polêmica surgiu depois que o reputado cozinheiro italiano, Carlo Cracco, que tem duas estrelas no Guia Michelin, afirmasse em um programa de televisão italiano que o segredo para cozinhar uma boa amatriciana é o alho.
Cracco é um dos cozinheiros mais prestigiados do país pela qualidade de sua cozinha contemporânea, mas também por ter sido jurado em programas como "MasterChef" e "Hell's Kitchen".
Sua imagem também tem prestígio no mundo todo, talvez porque tenha começado sua carreira em 1986 no Gualtiero Marchesi de Milão, o primeiro restaurante italiano que ganhou três estrelas Michelin, ou porque estudou por três anos na França entre as fornalhas do mestre da gastronomia Alain Ducasse.
Mas nos últimos dias saltou para as polêmicas porque provocou no país um autêntico debate culinário que pôs em pé de guerra os defensores mais ortodoxos da receita original, sem alho, deste prato de tradição milenar.
É o caso de Sergio Pirozzi, o prefeito da cidade italiano de Amatrice, no centro do país, onde surgiu o prato.
"A amatriciana não leva alho e nunca levou. Se este chef quer inovar na gastronomia respeitamos, mas que não chame de amatriciana, chame de outra coisa", criticou Pirozzi.
Momentos depois que Cracco - conhecido por pratos como o "risoto com anchovas, limão e cacau" fazer estas declarações, a prefeitura de Amatrice emitiu um comunicado mostrando seu desconcerto.
Na nota remetida às autoridades explicaram que a autêntica amatriciana "só leva bochecha de porco, queijo pecorino, vinho branco, tomate San Marzano, pimenta do reino e malagueta".
"É uma receita simples, mas muitas pessoas, restaurantes e cozinheiros, fazem deste prato variantes que pouco tem a ver com sua história e tradição", comentou a prefeitura.
Pirozzi explicou que sua luta "não é um tema pessoal contra Cracco, pois faria o mesmo com qualquer um que afirmasse que a amatriciana leva alho".
"Achamos que é nossa obrigação explicar à imprensa nacional e internacional como se faz a verdadeira receita da amatriciana. Queremos que a receita original chegue ao maior número de pessoas possível", clamou.
O prefeito de Amatrice desde 2009 defende a história deste prato que "testemunhos históricos apontam que já fazia parte dos menus dos pastores há mil anos".
Na época não se utilizava o tomate, lembrou, mas este ingrediente foi acrescentado posteriormente.
"O tomate foi acrescentado depois, inicialmente o molho era branco. Mas com a descoberta das Américas por Cristóvão Colombo, graças à sensibilidade da rainha Isabel I da Espanha, o tomate foi importado e acrescentado ao prato", contou.
Já faz mais de um século, rememorou este italiano nascido em San Benedetto do Tronto, que os pastores que viviam e cuidavam do gado nas montanhas cozinhavam a massa por seu alto nível calórico.
"É um prato muito calórico, pensado pelos pastores que estavam no alto das montanhas e que precisavam de energia para enfrentar a jornada", explicou.
Por sua vez, o cozinheiro Carlo Cracco preferiu não responder às perguntas da Agência Efe e seus representantes se limitaram a garantir que tudo se deveu a um mal-entendido e que ele "só estava brincando".