Crise de saúde mental: o cenário alarmante dos brasileiros
Uma pesquisa do DataFolha concluiu que três em cada dez brasileiros se sentem ansiosos e têm problemas com sono e alimentação sempre ou frequentemente. No meio desse cenário preocupante, os participantes também relataram uma percepção curiosa sobre si mesmos. Somente 7% deles consideram sua saúde mental pessoal como ruim ou péssima. Conversamos com a Doutora […]
Uma pesquisa do DataFolha concluiu que três em cada dez brasileiros se sentem ansiosos e têm problemas com sono e alimentação sempre ou frequentemente. No meio desse cenário preocupante, os participantes também relataram uma percepção curiosa sobre si mesmos. Somente 7% deles consideram sua saúde mental pessoal como ruim ou péssima. Conversamos com a Doutora em psicologia Cristiane Vaz de Moraes Pertusi para entender de onde vem esse descompasso.
Um país ansioso e deprimido vive crise de saúde mental
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde mental como "um estado de bem-estar no qual o indivíduo é capaz de desenvolver suas habilidades pessoais, lidar com os estresses da vida, trabalhar de forma produtiva e contribuir para a sua comunidade". Para a Organização, 'saúde' não significa somente ausência de doenças diagnosticadas, mas também o resultado das interações entre fatores biológicos, sociais e psicológicos.
Os alertas da OMS sobre a saúde mental dos brasileiros não são de hoje. Os dados compilados pelo Órgão nos consideram o segundo país mais deprimido de todo o continente americano, - perdendo somente para os EUA - e ainda o com maior índice de diagnosticados com ansiedade no mundo. Ou seja, tanto os especialistas quanto a própria população reconhecem o problema. Mas a dificuldade de enxergar os efeitos dele a níveis individuais em nossas próprias vidas dão uma pista do tamanho do nosso desafio rumo ao bem-estar populacional.
Sono negligênciado
Cristiane Vaz é Mestra, pesquisadora e docente em psicologia, e dá um alerta taxativo sobre uma negligência comum entre os brasileiros que ocasiona prejuízos na saúde mental a longo prazo: o sono. "As pessoas não percebem a relação entre o sono e saúde mental, sendo que o descanso é essencial para a nossa saúde. Muitas vezes, nem mesmo os médicos conseguem fazer essa relação com seus pacientes", comenta ela.
E não é para menos: A pesquisa "Saúde Mental do Médico", de 2022, organizada pela Research Center, concluiu que quase 80% dos médicos brasileiros apresentam sintomas de ansiedade. Como cuidar, precisando primeiro ser cuidado?
O descompasso
Na visão de Cristiane, a sociedade moderna tem enfrentado cada vez mais dificuldades na autopercepção. O que explica porque tantos brasileiros se sentem ansiosos, deprimidos, dormindo e se alimentando mal, ao passo de que não se veem como doentes. "Para a maioria das pessoas, a saúde mental, para ser percebida como um problema, precisa chegar a comprometer muito a saúde física, É muito difícil pois existe um preconceito de se perceber saúde mental como uma parte do seu autocuidado." lamenta.
"Muitos irão ao hospital, por exemplo, pensando que estão sofrendo um infarto, quando na verdade estão com transtorno de ansiedade. Outros irão sentir culpa por só melhorarem tomando remédios. Se você tem um problema de estômago, você não se culpa por se medicar. Mas quando se fala em saúde mental, muitos querem resolver o problema sozinhos, o que só dificulta ", detalha a especialista.
Por isso, as campanhas de conscientização em empresas, escolas e até em ambientes religiosos são fundamentais para quebrar o estigma.
Identificando a ansiedade
A profissional aponta como reconhecer os sintomas mais clássicos de que algo não está bem. "Inquietação, sentimentos de agitação motora, fadiga, dificuldade para concentrar, sensações de branco na mente, irritabilidade, tensões musculares, dificuldade em conciliar ou manter o sono, junto a sintomas físicos como taquicardia ou dificuldade para respirar" pontua Cristiane.
Se identificou com algumas dessas situações por mais de duas semanas consecutivas? Não tenha medo de ir em busca de um especialista, psicólogo ou psiquiatra. O prejuízo causado pelo transtorno de ansiedade para a vida emocional e social é enorme, e reconhecê-los é o primeiro passo para mudar esses gatilhos.
Fatores de risco
A psicóloga explica que a predisposição para desenvolver ansiedade crônica é tanto biológica, como prevalência na família, quanto social. Assim como hábitos ruins e a vivência de algum trauma, como um assalto. "Existem também fobias específicas, como a ansiedade de separação, ansiedade social, transtorno de pânico, transtorno de estresse agudo e transtorno de estresse pós-traumático, que podem desencadear a ansiedade generalizada" explica a psicóloga.
Em busca de tratamento
"Combatemos a ansiedade e a depressão com um estilo de vida saudável, isso é: dormindo melhor, tendo uma alimentação balanceada e praticando atividade física regularmente. É preciso também tirar os estigmas sobre os tratamentos, normalizar a psicoterapia como uma forma de se conhecer a mente, seus traumas, limites, crenças limitantes e distorções. Tudo isso ajuda a ter uma vida mais leve, saudável e mais positiva" finaliza.