Trote e machismo: quando a brincadeira passa do limite
Em muitos grupos, escolas e universidades, o trote ainda é visto como um ritual de "integração".
Mas, na prática, nem sempre é assim. O que começa como "brincadeira" pode virar constrangimento, exposição e até violência simbólica, principalmente contra meninas e mulheres.
Quando a "zoeira" reforça estereótipos de gênero, a linha entre diversão e machismo é ultrapassada.
Mas como perceber quando isso acontece? E por que atitudes que machucam continuam sendo tratadas como normais?
Quando o trote deixa de ser diversão
Trotes são, em teoria, rituais de recepção para quem está chegando a um novo espaço: escola, cursinho, faculdade ou até grupos sociais.
O problema é que, na prática, muitos deles são baseados em exposição pública, submissão e estereótipos de gênero.
Alguns exemplos comuns que atingem principalmente mulheres:
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Pedidos para usar roupas sexualizadas "como brincadeira";
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Propostas de desafios com conotação sexual;
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Comentários sobre corpo, aparência ou comportamento;
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Pressão para aceitar toques, fotos ou situações desconfortáveis;
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Humilhações disfarçadas de "zoeira".
Mesmo quando não há agressão física, essas práticas reforçam a ideia de que o corpo feminino é público, avaliável e disponível para o entretenimento dos outros.
Por que isso ainda é tratado como "normal"?
Parte do problema está na naturalização do machismo. Muitas pessoas cresceram ouvindo frases como "é só brincadeira", "sempre foi assim" ou "se não aguenta, é porque é sensível demais".
Além disso, existe a pressão do grupo. Quem questiona o trote pode ser visto como:
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"sem graça",
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"careta",
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ou "quem estraga a diversão".
Esse tipo de lógica faz com que situações de constrangimento sejam minimizadas, enquanto quem se sente mal acaba se culpando por não "entrar na onda".
Integração ou violência simbólica?
A diferença entre integração e violência simbólica está no consentimento e no respeito.
É integração quando:
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Todas as pessoas participam porque querem;
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Ninguém é exposto ao ridículo;
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Não há constrangimento, humilhação ou pressão;
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A atividade promove acolhimento e pertencimento.
É violência simbólica quando:
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Alguém se sente obrigado a participar;
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Há exposição do corpo, da imagem ou da intimidade;
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A "brincadeira" reforça desigualdades (de gênero, aparência ou posição social);
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O desconforto de uma pessoa vira piada para o grupo.
Mesmo sem agressão física, esse tipo de situação deixa marcas emocionais, afeta a autoestima e normaliza relações de poder desiguais.
Machismo disfarçado de piada
Muitos trotes reproduzem estereótipos antigos: a mulher como objeto, como "prêmio", como alguém que deve agradar ou se submeter.
Isso se conecta diretamente ao machismo cotidiano, aquele que aparece em comentários, memes, cantadas forçadas e "brincadeiras" que colocam meninas em posições de inferioridade.
Quando esse comportamento é tratado como engraçado, a mensagem que fica é clara: o desconforto feminino não importa tanto quanto a diversão do grupo.
Como se posicionar sem virar "a chata do rolê"
Questionar esse tipo de prática não significa acabar com a diversão, significa mudar o tipo de diversão.
Algumas atitudes possíveis:
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Dizer claramente quando algo te deixa desconfortável;
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Apoiar amigas que não querem participar;
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Sugerir alternativas de integração que não exponham ninguém;
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Denunciar quando houver abuso, especialmente em ambientes institucionais como escolas e universidades.
Não é sobre "cancelar" pessoas, mas sobre repensar hábitos que já não fazem sentido em uma geração que fala cada vez mais sobre respeito e igualdade.
Brincadeira boa é aquela que todo mundo quer jogar
Se a diversão de um grupo depende da humilhação de alguém, especialmente de meninas, isso não é integração, é exclusão disfarçada.
Falar sobre trote e machismo é entender que certas "tradições" precisam ser revistas.
Porque brincar só é brincadeira quando ninguém sai machucado, diminuído ou silenciado.