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Trote e machismo: quando a brincadeira passa do limite

8 jan 2026 - 13h00
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Em muitos grupos, escolas e universidades, o trote ainda é visto como um ritual de "integração".

Quando a zoeira reforça o machismo, o trote deixa de integrar e passa a constranger
Quando a zoeira reforça o machismo, o trote deixa de integrar e passa a constranger
Foto: Shutterstock / todateen

Mas, na prática, nem sempre é assim. O que começa como "brincadeira" pode virar constrangimento, exposição e até violência simbólica, principalmente contra meninas e mulheres.

Quando a "zoeira" reforça estereótipos de gênero, a linha entre diversão e machismo é ultrapassada.

Mas como perceber quando isso acontece? E por que atitudes que machucam continuam sendo tratadas como normais?

Quando o trote deixa de ser diversão

Trotes são, em teoria, rituais de recepção para quem está chegando a um novo espaço: escola, cursinho, faculdade ou até grupos sociais.

O problema é que, na prática, muitos deles são baseados em exposição pública, submissão e estereótipos de gênero.

Alguns exemplos comuns que atingem principalmente mulheres:

  • Pedidos para usar roupas sexualizadas "como brincadeira";

  • Propostas de desafios com conotação sexual;

  • Comentários sobre corpo, aparência ou comportamento;

  • Pressão para aceitar toques, fotos ou situações desconfortáveis;

  • Humilhações disfarçadas de "zoeira".

Mesmo quando não há agressão física, essas práticas reforçam a ideia de que o corpo feminino é público, avaliável e disponível para o entretenimento dos outros.

Por que isso ainda é tratado como "normal"?

Parte do problema está na naturalização do machismo. Muitas pessoas cresceram ouvindo frases como "é só brincadeira", "sempre foi assim" ou "se não aguenta, é porque é sensível demais".

Além disso, existe a pressão do grupo. Quem questiona o trote pode ser visto como:

  • "sem graça",

  • "careta",

  • ou "quem estraga a diversão".

Esse tipo de lógica faz com que situações de constrangimento sejam minimizadas, enquanto quem se sente mal acaba se culpando por não "entrar na onda".

Integração ou violência simbólica?

A diferença entre integração e violência simbólica está no consentimento e no respeito.

É integração quando:

  • Todas as pessoas participam porque querem;

  • Ninguém é exposto ao ridículo;

  • Não há constrangimento, humilhação ou pressão;

  • A atividade promove acolhimento e pertencimento.

É violência simbólica quando:

  • Alguém se sente obrigado a participar;

  • Há exposição do corpo, da imagem ou da intimidade;

  • A "brincadeira" reforça desigualdades (de gênero, aparência ou posição social);

  • O desconforto de uma pessoa vira piada para o grupo.

Mesmo sem agressão física, esse tipo de situação deixa marcas emocionais, afeta a autoestima e normaliza relações de poder desiguais.

Machismo disfarçado de piada

Muitos trotes reproduzem estereótipos antigos: a mulher como objeto, como "prêmio", como alguém que deve agradar ou se submeter.

Isso se conecta diretamente ao machismo cotidiano, aquele que aparece em comentários, memes, cantadas forçadas e "brincadeiras" que colocam meninas em posições de inferioridade.

Quando esse comportamento é tratado como engraçado, a mensagem que fica é clara: o desconforto feminino não importa tanto quanto a diversão do grupo.

Como se posicionar sem virar "a chata do rolê"

Questionar esse tipo de prática não significa acabar com a diversão, significa mudar o tipo de diversão.

Algumas atitudes possíveis:

  • Dizer claramente quando algo te deixa desconfortável;

  • Apoiar amigas que não querem participar;

  • Sugerir alternativas de integração que não exponham ninguém;

  • Denunciar quando houver abuso, especialmente em ambientes institucionais como escolas e universidades.

Não é sobre "cancelar" pessoas, mas sobre repensar hábitos que já não fazem sentido em uma geração que fala cada vez mais sobre respeito e igualdade.

Brincadeira boa é aquela que todo mundo quer jogar

Se a diversão de um grupo depende da humilhação de alguém, especialmente de meninas, isso não é integração, é exclusão disfarçada.

Falar sobre trote e machismo é entender que certas "tradições" precisam ser revistas.

Porque brincar só é brincadeira quando ninguém sai machucado, diminuído ou silenciado.

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