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Dupla de DJ's 'Os Gêmeos 02' toca com máscara do Pantera Negra em busca de mais representatividade 

Em Santa Catarina, onde negros recebem 39% a menos do que brancos, os irmãos criaram um baile black produzido apenas por pessoas negras e ensinam discotecagem a elas

22 jun 2021 12h10
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Conhecidos por tocarem com a máscara do Pantera Negra, herói do Marvel, os gêmeos idênticos Romulo Carvalho da Silva e Giovani da Silva, de 22 anos, dão vida à dupla de discotecagem Os Gêmeos 02, com o objetivo de trazer mais representatividade negra à cena cultural de Florianópolis, capital de Santa Catarina.

Com a pandemia, os dois se dedicaram à produção musical e se preparam para lançar o primeiro álbum neste ano.

Eles adiantam ao Estadão que o disco irá misturar o Hip-Hop à Música Popular Brasileira (MPB). "Estamos pegando referências de artistas do MPB que admiramos muito e transformando em algo nosso", afirma Giovani.

O lançamento deve vir no mês de agosto, quando o Baile dos Gêmeos, festa criada por eles e produzida apenas por pessoas negras, completa dois anos.

Com a divulgação do calendário de vacinação de Santa Catarina, que pretende imunizar toda a população catarinense acima de 18 anos até outubro, a dupla "vê uma luz no final do túnel" para a volta do Baile, que deixou de ocorrer durante a pandemia.

Ao contrário de muitos artistas, a dupla não conseguiu adequar-se às lives. "Não fazia sentido, nosso público não é on-line", explicam. Durante o período, além da produção musical, seguiram prestando mentoria a pessoas negras que, assim como eles, querem discotecar.

Por trás da máscara: o início de tudo

Essa história, no entanto, começa muito antes da pandemia e tem como cenário Capoeiras, bairro da capital catarinense. Segundo a mãe deles, Andrea Pinto de Carvalho, de 45 anos, os gêmeos sempre foram musicais. "Estavam sempre dançando por aí", conta. Não é de se estranhar que, na adolescência, terem se tornado verdadeiros rolezeiros. "A gente zerou Florianópolis", contam orgulhosos.

Com o tempo, Rômulo e Giovani passaram a questionar a representatividade preta nesses espaços. "A gente sempre via que aqueles produtores, aquelas pessoas que tocavam eram pessoas brancas. Vai fazer festa de Downtown e Hip-Hop só com pessoas brancas?", questiona Giovani.

A insatisfação aumentou ainda mais a já existente vontade de protagonizarem a cena musical da cidade, localizada em um estado em que pessoas negras ou pardas tinham, em 2018, um rendimento per capita 39,2% menor do que as brancas, de acordo com levantamento Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil do IBGE. De família humilde, eles têm mais duas irmãs, tiveram de esperar até que a mãe, que sempre apoiou a ideia, pudesse pagar por um curso de discotecagem aos dois.

Em 2017, eles puderam realizar o sonho, após o curso, muitas portas passaram a se abrir para os gêmeos. Em fevereiro do ano seguinte, quando se sentiram prontos, apresentaram-se pela primeira vez, a apresentação foi um sucesso, por conta dela mais convites para tocar vieram. Naquele momento adotaram o nome Os Gêmeos 02, inspirado na dupla de irmãos grafiteiros Os Gêmeos.

O diferencial deles, enquanto DJs, a estudante de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), de 22 anos, Inara Chagas, lembra bem: "Eles tocam com a máscara do Pantera Negra". Mas, foi só após a terceira apresentação que os irmãos puderam adquirir as máscaras que os consagram.

A vontade de assumir a identidade de herói da Marvel, no entanto, foi bem anterior, quando eles ainda pensavam sobre qual seria a identidade visual e musical dos Os Gêmeos 02. Rômulo gostava muito da música Bluesman do cantor Baco Exu do Blues, vivia repetindo o verso: "Eles querem um preto com arma pra cima. Num clipe na favela gritando cocaína. Querem que nossa pele seja a pele do crime. Que, Pantera Negra só seja um filme" em sua controladora, dispositivo que permite a mixagem de músicas.

Foram inúmeras repetições até entender que aquela era a mensagem que queriam passar ao público. Recado que pode ser resumido em poucas palavras: "Todo mundo é um pantera."

Baile dos Gêmeos

Não contentes apenas em tocar em festas de outras pessoas, eles decidiram produzir a própria. Em agosto de 2019, surgiu o Baile dos Gêmeos, um baile black produzido só por pessoas pretas. "Quando a gente passa a colocar só pessoas pretas pra tocar, fotografar, pra realmente fazer a máquina girar, aí se torna, querendo ou não, um ato político", explica Giovani.

Flávia Ecezano, DJ e diretora do Baile, destaca que a festa é "extremamente necessária para Florianópolis", porque tem, também, uma função social e educativa ao promover mais representatividade. "Criamos um baile para pessoas pretas", explica. Além disso, a estudante de pedagogia acredita que o vento é um espaço de acolhimento. "Eu fui acolhida no Baile, agora posso acolher outras pessoas", afirma.

Ao se sentir acolhida e respeitada, Inara só saía da festa quando a música era desligada."Tinha de comprar adiantado, era muito difícil de entrar na hora. Em uma semana esgotavam os ingressos", explica a estudante ao lembrar que as festas sempre estavam lotadas.

O sucesso foi tanto que o baile black chegou a sua sétima edição antes que a pandemia se estabelecesse. Sem a festa, fica a saudade, Inara chegou a criar uma playlist com as canções que tocavam por lá. "Eu queria sentir o que eu sentia lá na minha casa", conta.

O sentimento da estudante é compartilhado pela mãe da dupla de DJs. "Eu não consegui nem ver a única live que eles fizeram, chorei", conta Andrea, que está presente em todas as festas nas quais os filhos tocam. Com o Baile dos Gêmeos, a matriarca diz ter se tornado outra pessoa. "Foi um renascimento para mim enquanto mulher", revela ao constatar que, ao comparecer às apresentações dos gêmeos, consegue reviver um pouco de seu passado.

Chegar a sete edições da festa, contudo, não foi uma tarefa fácil, eles tiveram de enfrentar os estigmas raciais envoltos em um baile black. "Vai precisar de muitos seguranças, então!" foi um comentário que muitas vezes ouviram ao explicarem a essência da festa a donos de estabelecimentos de eventos de Florianópolis.

"Fazer um baile black num lugar seguro é algo muito significativo" explica Rômulo ao lembrar de uma operação policial que aconteceu em dezembro de 2019, na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo. Naquela noite, nove pessoas morreram pisoteadas em um baile funk, caso que está longe de ser isolado.

Geme-lar: escola de formação de Panteras

Rômulo e Giovani acreditam que, assim como eles, existem muitos talentos negros a serem incentivados, por isso, sentiram a necessidade de compartilhar o conhecimento com seus irmãos que, nas palavras deles, estão unidos pelo "estigma da cor". O local das aulas é o Geme-lar, apelido que deram à própria casa, onde disponibilizam os materiais de discotecagem que têm e dão aulas àqueles que desejam aprender.

Entre os pupilos estava Flávia, que sempre esteve presente na organização das festas promovidas pelos gêmeos. "Vimos que ela tinha perfil, um carisma cativante", contam os irmãos que, após algumas edições do baile, convidaram-na a frequentar o Geme-lar. "Tudo que eu sei aprendi com os dois", conta a DJ que passou a discotecar na festa à convite da dupla.

Algo que eles também buscam fazer é estimular a diversidade de pessoas pretas dentro desse espaço da discotecagem. "Aparece mina transexual que toca aqui, algo muito importante. Vem aqui em casa, senta, toma um café, come", conta Rômulo.

Além da pandemia, mais uma perda

No ano passado, o aniversário de um ano do Baile dos Gêmeos foi marcado pela morte do ator Chadwick Boseman, em 28 de agosto, que não resistiu a um câncer de cólon diagnosticado em 2016. Boseman foi conhecido por dar vida ao Pantera Negra no cinema.

Quando soube da morte de Boseman por meio de uma rede social, Rômulo correu para dar a notícia para o irmão, Giovani, e para a mãe, Andrea. Depois, voltou para o quarto, fechou a porta e desatou a chorar. "Eu perdi um irmão, alguém da família. A gente está numa pandemia e o racismo não dá trégua. Olha quantos casos de racismo estão acontecendo, sendo filmados, viralizados", destaca.

Giovani sentiu-se da mesma forma, ficou mal por dois dias. Para ele, a morte do ator parece ter cutucado uma ferida já aberta há muito tempo. "Em vez de estancar aquela sangria, aumentou ainda mais."

Após os primeiros dias de luto, os irmãos começaram a pensar sobre o legado deixado pelo ator. A dupla não entendia como as pessoas podiam se perguntar o porquê do ator ter aceito o papel mesmo sabendo do câncer que sofria. "As pessoas negras não tem tempo ou elas arriscam tudo o que tem para entrar na história, ou simplesmente não entram", pensou prontamente Giovani. Os dois sentiram ainda mais orgulho de carregar um pedaço da cinematografia do ator com eles.

Estadão
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