Como barragens construídas por humanos podem mudar o eixo da Terra?
Descubra como a construção de barragens ao longo da história afetou a rotação terrestre, deslocando os polos e causando impactos ambientais em escala global, e o que isso significa para o futuro
Durante quase dois séculos, o ser humano transformou o fluxo dos rios por meio da construção de barragens e represas. Uma medida necessária para armazenamento de água, geração de energia, agricultura e abastecimento. No entanto, o acúmulo dessa água em grandes reservatórios alterou significativamente a distribuição de massa na superfície terrestre. Além disso, produziu efeitos mensuráveis até na dinâmica do planeta.
Um estudo recente da Universidade Harvard revelou que, desde 1835, a elevação artificial do nível de rios e lagos por barragens deslocou os polos da Terra em mais de um metro. Além disso, a água acumulada nesses reservatórios diminuiu o nível global dos oceanos em cerca de 21 milímetros, modificando alguns parâmetros ambientais em escala global.
Como as barragens influenciam a posição dos polos terrestres?
A distribuição desigual da massa da Terra é fundamental para o equilíbrio do seu eixo de rotação. Barragens de grande porte, como a Barragem de Kariba no Zambeze, criam extensos reservatórios artificiais que armazenam volumes de água equivalentes a dezenas de bilhões de metros cúbicos. Ao deslocar essa imensa quantidade de água da elevação para diferentes regiões, o eixo de rotação terrestre sofre pequenos ajustes ao longo do tempo, fenômeno conhecido como deriva polar verdadeira.
Pesquisadores mapearam meticulosamente a posição e a capacidade de 6.862 represas. Assim, usando esses dados, avaliaram como a retenção de água armazenada afetou a inclinação do planeta. Nas primeiras décadas, principalmente na América do Norte e Europa, a construção intensiva de barragens deslocou o Polo Norte em direção ao 103º meridiano leste. Nas últimas décadas do século XX, com o avanço de obras hidráulicas na África Oriental e Ásia, o deslocamento ocorreu na direção oposta, para o 117º meridiano oeste.
O que acontece quando polos da Terra mudam de local?
Embora a alteração de pouco mais de um metro no eixo terrestre possa parecer mínima, ela demonstra o quanto a ação humana pode influenciar elementos naturais em escala planetária. O fenômeno afeta o ponto exato onde os polos geográficos cortam a superfície do planeta, mesmo sem interferir nos polos magnéticos ou nas condições climáticas globais de maneira imediata.
Entre os efeitos observados, a queda do nível do mar é um dos mais relevantes. Ao represar a água, uma fração que antes iria para os oceanos permanece em terra firme, o que impacta medições globais e recalculações de risco para populações costeiras. Esse movimento também oferece subsídios para modelar possíveis mudanças, caso grandes quantidades de gelo derretam devido ao aquecimento climático.
A análise dos impactos vai além da alteração física dos polos. O armazenamento em represas contribui para uma série de mudanças ambientais que se somam ao debate sobre intervenções humanas em ecossistemas naturais:
- Alterações nos ciclos hidrológicos: O represamento afeta o fluxo de rios e a regularidade das enchentes naturais. Muda o regime de nutrientes e a biodiversidade local.
- Redução do nível global do mar: A água retida em terra firme deixa de contribuir para o aumento nos oceanos. Por isso, altera índices globais e locais de elevação marítima.
- Deslocamento populacional: Comunidades ribeirinhas, indígenas e agricultores frequentemente são afetadas pela criação de reservatórios, sendo obrigadas a se realocar.
- Novos riscos geotécnicos: Por fim, o peso extra dos reservatórios pode provocar pequenos terremotos ou instabilidade em áreas sujeitas a abalos.