Carinho e afeto podem ser aprendidos, diz psicólogo
O Prof. Dr. Hélio Roberto Deliberador, da PUC-SP, diz em entrevista exclusiva ao Terra que é preciso não deixar a tecnologia tomar conta das relações humanas
O carinho é uma dimensão da vida humana desde o nascimento de cada um. Por isso, demonstrar afeto, e não apenas receber, é essencial para a convivência saudável em sociedade. “Nós somos seres eminentemente sociais e parte da nossa afetividade é a relação com o outro. Essa expressão afetiva pertence ao desenvolvimento do ser humano”, afirma o Prof. Dr. Hélio Roberto Deliberador, 58 anos, psicólogo social do Departamento de Psicologia Social da PUC-SP. A seguir, ele explica como distribuir afeto, em um mundo cada vez mais virtual:
Terra - Uma sociedade mais humana mudaria a quantidade de más notícias que lemos?
Hélio Roberto Deliberador -
Sem dúvida. Vivemos hoje em uma sociedade muito utilitarista, em que a tecnologia está tomando cada vez mais conta das dimensões da vida e as relações presenciais são cada vez menos frequentes e mais difíceis. Nós poderíamos reverter a falta de carinho no mundo, à medida que as estruturas sociais e as relações presenciais pudessem ser expressas de uma forma mais direta, e não tão intermediadas pela tecnologia.
Terra - Como se demonstra carinho, em um mundo cada vez mais virtual?
Hélio -
Ao abrirmos um espaço para não deixar que a tecnologia tome conta da vida toda. Abrindo espaço para as relações sociais, o convívio com os amigos, com as pessoas que fazem parte de um meio nosso de convivência e relacionamento. Ao tornar as relações afetivas mais significativas, você constrói uma sociedade mais civilizada.
Terra - As manifestações de carinho podem ser traduzidas apenas em gestos, como beijo, abraço, aperto de mão ou tapinha nas costas?
Hélio -
Existem outras maneiras de demonstrar afeto, mas a expressão corporal é, por definição, a comprovação do afeto. Pode-se demonstrar carinho através de outros comportamentos e expressões, como uma palavra carinhosa, uma história, uma brincadeira, além de outros tipos de atividade que expressem esse afeto que você tem pela pessoa – o serviço voluntário, por exemplo.
Terra - É possível dizer que alguns gestos valem mais do que outros, por exemplo, beijo vale mais que tapinha nas costas?
Hélio -
Não. Há uma correspondência. Depende muito do contato, do sentido que é dado, porém, eles acabam se equivalendo.
Terra - Carinho se aprende?
Hélio -
No meu ponto de vista, a base do desenvolvimento do processo afetivo de uma pessoa está a partir das vivências ocorridas na infância. E carinho se aprende sim. Nós temos um esquema instintivo, mas tem parte desses comportamentos que são aprendidos socialmente.
Terra - Existem pessoas que precisam de mais afeto do que outras?
Hélio -
Eu diria que, do ponto de vista geral, todas as pessoas precisam igualmente.