Assédio no BBB: por que a vítima trava e só entende depois
O caso de assédio ocorrido no BBB 26 no último domingo (18), que levou à desistência de Pedro Henrique do programa, levantou uma discussão urgente: por que tantas vítimas de assédio travam na hora e só entendem depois o que aconteceu?
Esse tipo de comportamento não é falta de coragem, e muito menos exagero. Na verdade, é uma resposta natural do corpo e da mente diante de uma situação de medo, desconforto ou invasão.
Para entender melhor esse processo, TT bateu um papo com a psicóloga Luciana Oliveira, que explica como o trauma se manifesta e por que o assédio pode vir disfarçado de "brincadeira".
O que é, de fato, assédio?
Antes de tudo, é importante compreender que o assédio não precisa envolver força física para ser real.
Basta que alguém ultrapasse o limite do outro, sejacom palavras, gestos, toques ou insistência.
O assédio sexual, por exemplo, acontece quando uma pessoa é exposta a comportamentos invasivos sem consentimento. Pode ser um toque não desejado, uma "piada" constrangedora ou um comentário sobre o corpo.
Luciana Oliveira, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, explica que existe também o chamado assédio velado: aquele que se disfarça de brincadeira.
"O assédio velado acontece quando alguém usa piadas, apelidos ou comentários 'na zoeira' para constranger ou controlar outra pessoa. Quando a vítima reage, costuma ouvir frases como 'foi só brincadeira' ou 'você leva tudo a sério'. Isso gera confusão, culpa e impede que ela reconheça que sofreu uma violência", explica a psicóloga.
Como o assédio velado aparece no dia a dia
Segundo a especialista, esse tipo de comportamento de assédio velado é mais comum do que parece e pode acontecer em escolas, ambientes de trabalho, festas ou até entre amigos.
Entre os exemplos estão:
- Piadas sobre corpo, gênero ou aparência, mesmo depois de alguém demonstrar desconforto.
- Apelidos pejorativos usados com a desculpa de "afeto".
- Comentários "engraçadinhos" sobre roupas ou atitudes.
- Toques físicos não solicitados acompanhados de frases como "calma, é só carinho".
- Pressões emocionais mascaradas de humor, como "se não fizer, vou brincar com você o dia todo".
"O problema é que o humor vira uma forma de invalidar o incômodo da vítima e normalizar a violência", completa Luciana.
A diferença entre flerte, elogio e assédio
Um ponto que gera confusão é entender onde termina o flerte e começa o assédio. Para a psicóloga, a diferença está na intenção e no efeito emocional que causa: "Flerte é recíproco, há conforto e abertura dos dois lados. Elogio é respeitoso, valoriza sem invadir. Assédio é insistente, invasivo e ignora o limite do outro, mesmo quando a pessoa demonstra desconforto".
Ela explica que o melhor critério é observar como a pessoa se sente depois: "Flerte e elogio deixam a gente à vontade. O assédio deixa tensa, constrangida ou com vontade de se afastar. Não é exagero, é sobre respeitar o limite que foi sinalizado, mesmo de forma sutil".
Por que a vítima "trava" nesses momentos?
Nem sempre o corpo reage da forma que imaginamos em situações de perigo. Diante do medo, o cérebro aciona respostas automáticas: lutar, fugir ou congelar. E é aí que o corpo "trava".
"O congelamento é uma reação fisiológica, não uma escolha", explica Luciana. "O cérebro entende que a melhor forma de se proteger é ficar imóvel, evitar chamar atenção ou reagir. Por isso, a pessoa não fala nem se mexe".
Esse estado de paralisia é temporário, mas deixa marcas profundas. Muitas vítimas sentem culpa depois por não terem reagido, o que só reforça o trauma.
"O trauma não é fraqueza, é uma resposta de proteção", afirma a psicóloga.
Quando o entendimento vem depois
Após o choque, o cérebro precisa de tempo para processar o que aconteceu. É por isso que muitas vítimas de assédio demoram a perceber a gravidade da situação. "O trauma se manifesta no corpo e no comportamento", explica Luciana.
"A pessoa pode começar a evitar certos lugares, sentir medo de ficar sozinha ou estar sempre em alerta. Mesmo quando o perigo já passou, o sistema de defesa continua ligado. É como se o corpo tivesse aprendido que precisa se proteger o tempo todo", completa a especialista.
Essas reações são comuns e não devem ser vistas como "exagero", mas como sinais de sobrevivência.
O peso do julgamento e a importância da escuta
A vergonha e o medo de não serem levadas a sério fazem muitas vítimas se calarem.
E quando tentam falar, acabam ouvindo frases que minimizam sua dor. "Se a conversa exige que você prove o que sente o tempo todo, o problema não é a forma como você fala, e sim a falta de escuta do outro", destaca Luciana.
Por isso, a orientação é procurar pessoas e espaços seguros. Conversar com uma amiga de confiança, procurar uma psicóloga ou entrar em contato com redes de apoio faz diferença.
"Cuidar de si também é escolher onde e com quem vale se abrir", reforça a especialista.
Como buscar ajuda e quebrar o silêncio
Se você passou ou está passando por uma situação de assédio, saiba que não está sozinha.
Existem formas de pedir ajuda e denunciar de forma segura:
Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher (funciona 24 horas, em todo o Brasil).
Chat 180 — disponível no site www.gov.br/ligue180.
Disque 100 — canal nacional de denúncias de violação de direitos humanos.
Delegacias da Mulher (DEAMs) — atendimento especializado em diversas cidades.
Centros de referência e serviços psicológicos — apoio gratuito em universidades e prefeituras.
Como apoiar alguém que passou por isso
Saber ouvir é essencial. Se uma amiga confidenciar que sofreu assédio, evite julgamentos.
Não questione por que ela não reagiu ou "demorou para contar".
Em vez disso:
- Acolha.
- Diga que acredita nela.
- Ofereça companhia e incentivo para buscar ajuda.
A empatia é o primeiro passo para quebrar o ciclo do silêncio.
A culpa nunca é da vítima!
Falar sobre assédio é falar sobre limites, respeito e segurança. É também reconhecer que o trauma não se apaga da noite para o dia (e que travar não é fraqueza). "Muitas vezes, só uma mulher entende o que o assédio causa. Por isso, é tão importante conversar, acolher e buscar apoio", conclui a psicóloga.
O mais importante é lembrar: nenhuma "brincadeira" que machuca é inofensiva. E nenhuma vítima deve carregar sozinha o peso do que aconteceu.