Celular aos 12 anos eleva risco de transtornos alimentares, diz estudo
O uso do eletrônico na pré-adolescência apareceu associado a mais sinais de compulsão, preocupação com o peso e comportamentos para controlar o corpo
Um estudo no JAMA Network Open com quase 9 mil jovens revelou que ter smartphone aos 12 anos eleva o risco de sintomas de transtornos alimentares aos 14 anos, taxa que chegou a 24% contra 16% dos sem o aparelho. Especialistas associam o problema à exposição a conteúdos irreais sobre aparência e redes sociais na pré-adolescência. Sem relação direta de causa e efeito, pesquisadores orientam que os pais monitorem o uso digital de forma gradual, restringindo horários e observando sinais corporais.
Ter um celular próprio aos 12 anos apareceu associado a uma maior ocorrência de sintomas de transtornos alimentares na adolescência. A conclusão vem de um estudo publicado no JAMA Network Open, que analisou dados de 8.957 jovens dos Estados Unidos.
Na pesquisa, a partir dos 12 anos, cerca de sete em cada dez participantes já tinham um smartphone. Dois anos depois, aproximadamente 24% desse grupo apresentava pelo menos um sintoma relacionado a transtornos alimentares. Entre os adolescentes que não possuíam o aparelho naquela idade, a proporção ficou abaixo de 16%.
O que o estudo encontrou?
A pesquisa avaliou sinais como compulsão alimentar, preocupação com ganho de peso, comportamentos compensatórios e autoestima ligada ao peso. Nas análises realizadas ao longo do acompanhamento, então, ter um smartphone aos 12 anos apareceu associado a uma probabilidade maior de apresentar alguns desses sintomas aos 14.
O pediatra Jason Nagata, principal autor do trabalho, chama atenção para a quantidade de conteúdos relacionados à aparência que pode chegar aos jovens por meio desses dispositivos. "Um smartphone pode colocar um mundo de conteúdo focado na aparência no bolso de um jovem", afirmou à 'CNN'.
"É importante que os pais estejam cientes de que adquirir um smartphone não se resume apenas ao aparelho. Ele pode mudar o acesso da criança a diferentes conteúdos e exposições no mundo digital", complementou.
Por que os 12 anos merecem atenção?
A pré-adolescência coincide com mudanças importantes no corpo, na autoestima e na forma como os jovens se relacionam com outras pessoas. Nesse período, as redes sociais também podem ampliar as referências usadas para comparar aparência e estilo de vida. O problema é que parte desse conteúdo apresenta imagens cuidadosamente produzidas e modificadas antes de chegar à tela.
"Mas quando você se compara a influenciadores cujas imagens são cuidadosamente selecionadas, editadas e filtradas, isso pode levar a uma maior insatisfação corporal e baixa autoestima, o que pode ser um fator de risco para transtornos alimentares", explicou Nagata.
Os próprios autores destacam, contudo, que o trabalho não permite determinar uma relação de causa e efeito. Parte das informações analisadas veio dos relatos dos adolescentes, o que pode influenciar os resultados.
Além disso, fatores familiares, sociais e emocionais não avaliados também podem interferir tanto no acesso ao smartphone quanto na relação do jovem com alimentação e imagem corporal. Portanto, novos estudos ainda precisam investigar melhor elementos como *uso de redes sociais, qualidade do sono e exposição a conteúdos sobre aparência.
Como os pais podem lidar com o primeiro celular?
Apesar de a pesquisa não estabelecer uma idade exata para entregar o primeiro smartphone, especialistas defendem que o acesso aos recursos digitais aconteça de maneira gradual.
"Se exponham gradualmente às redes sociais ao longo do tempo. Não queremos dar a elas um celular completamente desbloqueado, com todas as possibilidades de acessar o que quiserem pelo tempo que quiserem", apontou Mitch Prinstein, professor de Psicologia e Neurociência da Universidade da Carolina do Norte, para o veículo.
Na prática, então, os responsáveis podem definir quais aplicativos ficam disponíveis, estabelecer horários e evitar que o aparelho permaneça no quarto durante a madrugada. Conversas frequentes sobre aquilo que aparece nas redes também ajudam a entender como esses conteúdos afetam os filhos.
"É muito importante que os pais se mantenham envolvidos na vida digital dos filhos", afirmou Nagata. Além do comportamento online, vale observar mudanças na relação com a comida e com o próprio corpo. Restrição alimentar, episódios de compulsão, exercícios excessivos ou preocupação intensa com o peso são sinais que merecem atenção.
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