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BBB26: o debate sobre dislexia, discalculia e alfabetização tardia

Declaração no reality sobre brother Boneco expõe preconceitos ainda comuns sobre dificuldades de aprendizagem no Brasil

4 fev 2026 - 16h22
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Fala de Edilson sobre Boneco no BBB26 mostra que a sociedade ainda confunde dificuldade com "falta de capacidade"

Uma declaração feita durante o quadro Sincerão, no programa da segunda-feira, 2, do BBB26 colocou em evidência um debate urgente e certamente pouco compreendido no Brasil: a associação equivocada entre dificuldade de leitura e incapacidade intelectual.

O ex-jogador Edilson "Capetinha" foi criticado nas redes sociais após relacionar a dificuldade de leitura do participante Leandro Boneco à falta de inteligência, de fato, uma fala que gerou forte repercussão e reacendeu discussões sobre preconceito, desinformação e estigmatização de transtornos de aprendizagem.

Dislexia e discalculia

Boneco já havia contado publicamente que é disléxico e que só aprendeu a ler na vida adulta, com ajuda da esposa, e concluiu a graduação de Música Popular pela na Universidade Federal da Bahia (UFBA), trajetória que, por si só, desmonta a ideia de incapacidade intelectual. Após o episódio, a esposa do participante revelou nas redes sociais que, além da dislexia, ele também tem discalculia, outro transtorno específico da aprendizagem.

No BBB26 e no dia a dia

O caso expõe, acima de tudo, uma realidade ainda comum: dificuldades de aprendizagem seguem sendo tratadas como falha pessoal, preguiça ou desinteresse, quando, na verdade, envolvem fatores neurobiológicos e sociais complexos.

"Ter dificuldade para ler, escrever ou aprender matemática não significa falta de inteligência. E muito menos deveria ser motivo de humilhação", afirma a psicóloga clínica e neuropsicóloga Francilene Torraca, especialista em transtornos de aprendizagem.

“Dislexia e discalculia não definem inteligência”, reforça Francilene Torraca, sobre participante do BBB26
“Dislexia e discalculia não definem inteligência”, reforça Francilene Torraca, sobre participante do BBB26
Foto: Revista Malu

Dislexia: a dificuldade de aprendizagem

Segundo Francilene, a dislexia é classificada como um Transtorno Específico da Aprendizagem, dentro dos Transtornos do Neurodesenvolvimento. Isso significa que se trata de uma condição que surge ainda no desenvolvimento infantil e envolve, sobretudo, diferenças neurobiológicas no processamento da linguagem escrita.

"Na prática, a dislexia se manifesta principalmente como dificuldade persistente na decodificação das palavras, na fluência leitora (ler com velocidade e precisão), e na ortografia. Não é falta de esforço, é uma barreira real no processamento da leitura", explica.

Entre os sinais mais comuns estão leitura lenta e cansativa, bem como trocas de letras e sílabas, erros ortográficos persistentes, desconforto para ler em voz alta e, muitas vezes, vergonha, ansiedade e esquiva. "É exatamente nesse ponto que o estigma machuca. Uma dificuldade que poderia ser acolhida com suporte vira motivo de exposição e humilhação", alerta a especialista.

Discalculia: quando os números também se tornam um obstáculo invisível

A dislexia, muitas vezes, não aparece sozinha. É comum a associação com a discalculia, transtorno que afeta o raciocínio matemático e as habilidades numéricas básicas. Foi o que ocorreu no caso de Leandro Boneco.

A discalculia se manifesta em dificuldades persistentes para compreender quantidades (maior/menor), realizar cálculos simples, entender valor numérico e ordem, reconhecer símbolos matemáticos (+, −, ×, ÷), lidar com dinheiro, calcular troco, ler horas ou estimar medidas. "Não é 'não querer aprender matemática'. É uma barreira neurocognitiva real, que impacta o cotidiano e a autoestima", afirma Francilene.

Dislexia não é analfabetismo

Francilene Torraca reforça que há uma confusão entre dislexia e analfabetismo, entretanto, são situações distintas. Enquanto a dislexia é um transtorno do neurodesenvolvimento, a alfabetização tardia costuma estar relacionada a fatores sociais e educacionais, como pobreza, falta de acesso à escola, precariedade do ensino, evasão escolar, necessidade de trabalhar cedo ou negligência institucional.

"Uma pessoa pode ter dislexia e, por falta de diagnóstico e suporte, evoluir com fracasso escolar e só aprender a ler mais tarde. Isso não define inteligência, nem valor", explica.

Usar o termo "analfabeto" como xingamento, segundo a especialista, é especialmente cruel. "Quando alguém usa essa palavra como insulto, não está atacando só uma pessoa. Está desqualificando histórias inteiras de exclusão escolar, desigualdade educacional e sofrimento silencioso."

Informação como ferramenta de mudança

O episódio no BBB26, apesar da polêmica, abre espaço para um debate necessário e para a psicoeducação em larga escala. "A pergunta que precisamos fazer não é 'por que ele lê assim?', mas quantas crianças e adultos estão sendo humilhados hoje por dificuldades que poderiam ser avaliadas, tratadas e acolhidas", provoca Francilene.

Segundo ela, dificuldades de aprendizagem exigem avaliação neuropsicológica e pedagógica, intervenções específicas, como fonoaudiologia e psicopedagogia, além de adaptações escolares e institucionais.

"Dislexia e discalculia não definem inteligência. Alfabetização tardia não define valor. O que define o futuro é acesso, suporte e pertencimento", conclui.

O caso de Leandro Boneco reforça uma lição que o país ainda precisa aprender: dificuldade não é sinônimo de incapacidade, e informação pode mudar destinos.

Revista Malu Revista Malu
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