Acordar durante a madrugada é normal ou pode ser alerta de problemas graves?
Especialista explica quando o despertar noturno exige atenção
Despertar ao longo da noite é um processo natural do organismo, mas pode se tornar um sinal de alerta dependendo da frequência, duração e impacto no dia a dia. Esta avaliação leva em conta fatores como o tempo total de sono, o momento em que os despertares ocorrem e possíveis sintomas associados.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
A neurologista Andrea Bacelar, vice-presidente da Academia Brasileira do Sono no Rio de Janeiro, explica que acordar algumas vezes durante a noite é esperado, especialmente na segunda metade do sono, quando há menor pressão para dormir e maior facilidade de despertar. Segundo ela, o sono profundo predomina no início da noite, enquanto fases mais leves e com maior atividade cerebral, como o sono REM (fase final do ciclo do sono), aumentam a chance de interrupções.
"Se não se trata de uma pessoa extremamente matutina, aquela que dorme às 20h30 e 4h já está na hora de despertar para a vida", o problema passa a existir se o tempo acordado ultrapassa 30 minutos ao longo da noite, seja de forma contínua ou fragmentada. "Isso, sim, é problema", disse Andrea em entrevista ao Terra nesta quinta-feira, 23.
Há também uma forte relação entre ansiedade e problemas no sono. Acordar muito cedo e não conseguir dormir novamente pode ser um sinal de alerta para o possível desenvolvimento de transtornos mais sérios, afirma a especialista.
"Existe uma associação muito grande de transtorno de ansiedade e transtorno de humor com o sono. Faz parte das queixas de depressão o chamado despertar precoce. São aquelas pessoas que realmente acordam 3h, 4h e não conseguem voltar a dormir. Então, se isso está acontecendo e muitas vezes pode até preceder o critério diagnóstico de depressão. É um sinalizador", explica Andrea.
Episódios frequentes de interrupção do sono podem levar à privação crônica. O quadro está relacionado a impactos na saúde mental e também a riscos físicos. "Se a gente tem uma privação crônica de sono, não há restauro do corpo e da mente para o novo dia, e isso cronicamente acontecendo é fator de risco para várias doenças", diz Andrea, que elenca irritabilidade, ansiedade, alteração de humor, como algumas das mais preocupantes.
Além disso, podem ativar "gatilhos para quem tem predisposição genética de doenças psiquiátricas e questões físicas". "Resistência insulínica, sobrepeso, baixa imunidade, aumento de picos hipertensivos. São fatores que a gente tem que ficar preocupado, sim", alerta Andrea.
Para evitar tudo isso e lidar com despertares noturnos é necessário identificar a causa imediata da interrupção -- desconfortos físicos, sede, temperatura ou ruídos, por exemplo -- e resolvê-la antes de tentar voltar a dormir. Caso o sono não retorne, permanecer na cama pode agravar a ansiedade e prolongar o estado de alerta. Nesses casos, a recomendação é levantar e realizar uma atividade monótona, em ambiente com pouca luz, até sentir sonolência novamente.
"É sair da cama, vai ficar na penumbra, tentar ler um livro, ver até uma televisão em algum canal também sem grande interesse", recomenda.
Antes de dormir, comportamentos ao longo do dia também influenciam diretamente o sono. A recomendação de Andrea inclui praticar atividade física regularmente, preferencialmente pela manhã ou até três horas antes de dormir; evitar refeições pesadas à noite e reduzir o consumo de cafeína nas horas anteriores ao descanso. O uso de telas deve ser interrompido pelo menos uma hora antes de deitar, pois a exposição pode dificultar o início e a manutenção do sono.
O hábito mais importante, segundo a neurologista, é ter regularidade nos horários de deitar, dormir e levantar, o que, segundo ela, aumenta inclusive a longevidade. "E também entender qual é o seu tempo total de sono necessário. Não ficar na cama além de seu sono e não acordar com despertador e ficar em privação crônica de sono", aconselha.
Comentários
As opiniões expressas nos comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Terra.