O desafio em torno das minas navais no Estreito de Ormuz
Há forte apreensão sobre os riscos em trafegar o canal marítimo estratégico
Irã afirma ter colocado minas na estratégica passagem para desencorajar o tráfego independente de embarcações. Quão perigosos são esses artefatos e o que pode ser feito para removê-los?O chanceler federal alemão, Friedrich Merz, afirmou na sexta-feira (17/04) que seu país estava preparado para fornecer serviços de remoção de minas navais e de reconhecimento marítimo para ajudar a garantir a segurança do Estreito de Ormuz.
"Nós poderíamos colocar à disposição embarcações de remoção de minas. Somos bons nisso", disse Merz, acrescentando que seria necessária uma "base jurídica sólida" para esse tipo de intervenção. O anúncio ocorreu após consultas com outros líderes europeus sobre uma possível missão multinacional para proteger o estreito após a guerra.
No mesmo dia, o principal diplomata do Irã, Abbas Araghchi, declarou que a via navegável estratégica estava "completamente aberta" durante o período do cessar-fogo entre Israel e o Líbano. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também afirmou que ela estava "liberada para passagem total". No dia seguinte, porém, o Irã voltou atrás e fechou novamente o estreito.
De toda forma, há forte apreensão sobre os riscos em trafegar o canal marítimo estratégico, uma vez que autoridades iranianas indicaram haver minas navais no estreito. Especialistas, no entanto, levantam dúvidas sobre o risco real que a ameaça implica.
"Nem sequer temos certeza de que existem minas [no Estreito de Ormuz]", disse Johannes Peters, especialista em guerra submarina do Instituto de Política de Segurança da Universidade de Kiel, na Alemanha. "Mas a ameaça subjacente é suficiente [para dissuadir a passagem]. Por enquanto, ninguém na zona de guerra pode realmente ir lá verificar."
Como funcionam as minas navais?
As minas navais são dispositivos explosivos subaquáticos relativamente baratos, projetados para detonar quando acionados por embarcações que passam nas proximidades. Existem três tipos principais, de acordo com sua forma de posicionamento:
minas à deriva, que flutuam livremente na superfície da água ou próximo a ela;
minas fundeadas, que flutuam abaixo da superfície e ficam ancoradas ao fundo do mar;
minas de fundo, que repousam diretamente sobre o leito marinho.
Durante toda a Segunda Guerra Mundial, minas fundeadas equipadas com alavancas de contato, que acionavam uma explosão ao encostar em um navio, eram o modelo padrão da Marinha britânica - copiadas de minas alemãs capturadas, desenvolvidas na Primeira Guerra Mundial. "As minas modernas têm muito pouco a ver com aquelas", explicou Peters.
Os mecanismos de disparo dos dispositivos mais recentes não exigem mais contato direto, podendo ser acionados por determinados efeitos magnéticos, ondas sonoras subaquáticas ou pela redução da pressão sob a água causada pela passagem de navios.
Para programar uma mina para um tipo específico de embarcação, "submarinos podem ajudar a determinar o perfil acústico de um navio inimigo", explicou Peters. "Essas embarcações hostis vão acionar as minas por meio de suas assinaturas acústicas, enquanto navios aliados podem continuar a atravessar a área minada sem qualquer problema."
Busca demorada por possíveis explosivos
O processo de desminagem, que envolve a caça e a varredura de minas, pode ser demorado. Para caçar uma mina, é preciso primeiro localizar objetos suspeitos; depois, especialistas precisam determinar se eles representam uma ameaça.
Caso representem, há várias formas de lidar com a situação: especialistas podem recuperar a mina, desarmá-la ou provocar uma explosão subaquática controlada. No entanto, técnicas mais recentes oferecem novas oportunidades para remover minas sem colocar vidas em risco.
"Quando possível, usamos drones para procurar objetos, depois identificá-los e destruí-los", disse à DW, no início deste ano, o soldado ucraniano Mykola. Ele faz parte de uma força-tarefa ucraniana responsável por remover minas navais no Mar Negro, colocadas pela Rússia como parte de sua ofensiva de guerra.
Marinha alemã e o uso de drones
A Marinha da Alemanha também passou a usar drones para caçar minas marítimas. "Nós utilizamos predominantemente sistemas autônomos para examinar o fundo do mar", disse o capitão de fragata Andreas, do 3º Esquadrão de Varredura de Minas da Marinha alemã. Por razões de segurança, apenas seu primeiro nome pode ser divulgado.
"No passado, embarcações equipadas com sistemas de sonar precisavam passar diretamente sobre áreas onde se suspeitava da presença de minas para detectá-las", continuou Andreas. "Os sistemas autônomos significam que essas 40 vidas não precisam mais ser colocadas em risco direto."
Esses sistemas também reduzem significativamente a necessidade de pessoal. Os drones enviam de forma independente imagens do fundo do mar para sua base, onde são avaliadas. Ainda assim, cabe a pessoas analisar as imagens para distinguir sucata inofensiva de minas letais e decidir como lidar com os explosivos quando encontrados.
Segundo Andreas, o uso de drones para examinar o fundo do mar tornou a Marinha mais eficiente de maneira geral, mas ainda pode levar décadas para eliminar minas de uma área marítima após uma guerra. Artyom, outro removedor de minas ucraniano no Mar Negro, confirmou isso com base em sua própria experiência.
"Ainda estamos encontrando minas da Segunda Guerra Mundial, e até algumas da Primeira Guerra Mundial", disse ele. "Isso mostra quantos anos de trabalho ainda temos pela frente."
Limitações dos drones na busca por minas
A capacidade das baterias dos drones utilizados pela Marinha alemã ainda limita o tempo de operação em águas abertas. Por enquanto, eles precisam ser lançados relativamente perto da área a ser examinada.
"Você sempre precisa estar por perto", explicou Andreas. "Isso seria difícil em uma área sensível como o Estreito de Ormuz. O Irã [e seus armamentos] tem longo alcance, e precisamos proteger as pessoas que trabalham para nós."
Várias empresas já trabalham no desenvolvimento de drones capazes de operar por períodos mais longos. Uma delas é a Euroatlas, de Bremen, no norte da Alemanha. A empresa afirma que seu drone subaquático Greyshark atualmente consegue manter 10 nós (18,5 quilômetros por hora) por seis horas, ou 4 nós por um período três vezes maior.
A Euroatlas anunciou que a versão autônoma e movida a bateria entrará em produção em setembro de 2026. Espera-se que a produção em série de um modelo subsequente, equipado com um sistema de célula de combustível que permite missões com duração de semanas, comece até o fim do ano.
O diretor comercial da Euroatlas para veículos subaquáticos autônomos (AUV, na sigla em inglês), Markus Beer, explicou à DW como os drones chamados Greyshark poderiam ser úteis na atual crise na costa iraniana.
"Navios no Estreito de Ormuz correm o risco de sofrer ataques vindos de terra", afirmou. "Isso inclui embarcações de caça a minas. Mas o reconhecimento subaquático [com drones] ainda seria possível, sem riscos e sem escalar a situação."
Ele acrescentou que os drones Greyshark oferecem a vantagem de maior alcance, o que permite que sejam lançados a uma distância segura. "Os pequenos drones atualmente usados na caça a minas só conseguem operar por algumas horas", explicou o executivo. "Os drones Greyshark podem percorrer distâncias muito maiores", disse, além de serem capazes de captar imagens em alta resolução e identificar de forma autônoma objetos encontrados no fundo do mar.
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