Com torres e anéis metálicos gigantes, experimento tenta descobrir como a Amazônia vai reagir ao aumento de CO₂
Projeto simula, em plena floresta, condições atmosféricas que podem se tornar comuns nas próximas décadas
Em uma área de floresta próxima a Manaus, pesquisadores estão realizando um ambicioso experimento científico para entender o futuro da Amazônia diante das mudanças climáticas. O AmazonFACE utiliza estruturas instaladas entre as árvores para aumentar artificialmente a concentração de dióxido de carbono (CO₂) em determinadas parcelas da floresta e observar como o ecossistema reage.
- Com curadoria da Mandalah, consultoria global de inovação consciente, o Encontro Futuro Vivo acontece em 1º de setembro para promover reflexões sobre o presente e o futuro que queremos construir coletivamente.
A pergunta central da iniciativa é relativamente simples, mas tem consequências globais: o aumento da concentração de CO₂ ajudará a Amazônia a resistir às mudanças climáticas ou não será suficiente para compensar os efeitos do aquecimento e da maior ocorrência de períodos secos?
O experimento é coordenado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com participação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e cooperação do governo do Reino Unido. O experimento é considerado pioneiro por aplicar a tecnologia de enriquecimento de CO₂ ao ar livre em uma floresta tropical.
Uma espécie de laboratório a céu aberto
O nome AmazonFACE vem de Free-Air CO₂ Enrichment, tecnologia que permite elevar a concentração de gás carbônico diretamente no ambiente natural, sem colocar as árvores dentro de estufas ou câmaras fechadas.
O experimento foi estruturado em seis anéis instalados na floresta. Três receberão o enriquecimento de CO₂, enquanto outros três funcionarão como áreas de controle, permitindo aos cientistas comparar o comportamento da vegetação em condições diferentes.
A infraestrutura inclui torres de dezenas de metros de altura distribuídas ao redor das áreas experimentais. Por meio delas, o gás será liberado sobre a vegetação, o que permite os pesquisadores acompanharem as respostas da floresta em condições próximas as naturais. Na área dos seis anéis com 30m de diâmetro há 430 espécies de árvores identificadas até agora.
“[Basicamente] a ideia é simular uma atmosfera de várias décadas daqui para frente, que vai ter maior temperatura e presença de CO₂, segundo as projeções”, explica Laynara Figueiredo Lugli, pesquisadora do Inpa.
“O experimento é como uma janela para o futuro, por isso é importante replicar o que pode acontecer para tomarmos as devidas providências, junto ao poder público, a fim de cessarmos essa trajetória”, diz Lugli.
Os outros experimentos desse tipo foram realizados na Europa e nos Estados Unidos, onde o clima é temperado e foram identificadas no máximo quatro espécies de árvores nas florestas que tiveram os seis anéis com os diâmetros construídos.
O que os cientistas querem descobrir
O CO₂ é matéria-prima para a fotossíntese e, em determinadas condições, uma maior disponibilidade do gás pode aumentar a capacidade das plantas de absorver carbono e utilizar água de maneira mais eficiente. Em outras palavras, as árvores crescem mais. Por outro lado, menos água é liberada para a atmosfera. Além disso, a floresta também está sujeita ao aumento das temperaturas, à alteração do regime de chuvas e a períodos de seca.
Por isso, o AmazonFACE não pretende analisar apenas o crescimento das árvores. Os pesquisadores também acompanham processos relacionados ao ciclo do carbono, à água, aos nutrientes do solo, à biodiversidade e ao funcionamento geral do ecossistema. Inclusive, como os efeitos dessas mudanças afetam as pessoas. Uma vez que 50% das espécies encontradas no experimento têm uso humano.
Por que o experimento é importante
Uma das principais dificuldades para prever o futuro da Amazônia é] ]a complexidade da floresta. Experimentos em laboratório ou em pequenas áreas podem revelar como determinadas espécies respondem ao aumento de CO₂, mas não necessariamente reproduzem o comportamento de um ecossistema inteiro.
É justamente essa lacuna que o AmazonFACE tenta preencher. Ao observar árvores adultas, plantas do sub-bosque, solo, água e diferentes componentes da biodiversidade simultaneamente, os cientistas podem produzir dados capazes de melhorar modelos utilizados para projetar o comportamento da Amazônia nas próximas décadas.
“A Amazônia desempenha diversas funções numa escala local, regional, nacional, e também global. Ressalto, por exemplo, o próprio funcionamento da floresta que afeta o clima em todas essas escalas. Pela transpiração da floresta, temos a regulação de chuvas que abastecem outros lugares do Brasil, além de também afetar a movimentação global do clima”, afirma a cientista.
Uma janela para o futuro da floresta
O interesse pelo AmazonFACE vai além da produção de conhecimento acadêmico. As respostas encontradas pelos pesquisadores podem ajudar governos e instituições a elaborar estratégias de adaptação às mudanças climáticas e de conservação da floresta. Faz parte dos objetivos científicos do programa o desenvolvimento da interface entre ciência e política.
“Por sermos um programa do MCTI, estamos, desde sempre, muito integrados no objetivo aconselhar e guiar políticas públicas”, diz a cientista.
Para uma região que influencia o clima da América do Sul e participa de processos fundamentais do sistema climático global, responder a essa pergunta pode ser decisivo. O AmazonFACE transforma a própria floresta em um laboratório para tentar antecipar um futuro que, para os cientistas, já começou.
“[Basicamente] A ideia é simular uma atmosfera de várias décadas daqui para frente, que vai ter maior temperatura e presença de CO2, segundo as projeções.”
“A tecnologia teve que ser adaptada também para as condições climáticas da floresta, que tem muita umidade, muito calor, muita formiga, e muito cupim. Os sensores foram totalmente desenhados para essas condições.”
”O experimento é como uma janela para o futuro, que eu espero que não chegue em termos de concentração de CO2 atmosférico. Daí que vem a importância de replicar o que pode acontecer no futuro para tomarmos providências, junto ao poder público, para que cessemos essa trajetória.”
“A Amazônia que desempenha diversas funções numa escala local, regional, nacional, e também global. Ressalto, por exemplo, o próprio funcionamento da floresta que afeta o clima em todas essas escalas. Pela transpiração da floresta, temos a regulação de chuvas que abastecem outros lugares do Brasil, além de também afetar a movimentação global do clima.”
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