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Inovar-Auto não foi responsável pelo fracasso da Mercedes

Opinião: ao contrário do que se diz, programa Inovar-Auto foi bom para o país, melhorou os carros e trouxe novas marcas, como a Jeep

18 dez 2020
11h54
atualizado às 16h06
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Fábrica da Mercedes-Benz em Iracemápolis: segunda tentativa fracassada da marca no país. Ou do país em manter a marca?
Fábrica da Mercedes-Benz em Iracemápolis: segunda tentativa fracassada da marca no país. Ou do país em manter a marca?
Foto: Mercedes-Benz / Divulgação

O fechamento da fábrica de automóveis da Mercedes-Benz em Iracemápolis (SP) tem provocado alguns artigos na imprensa que condenam o programa Inovar-Auto, instituído no governo Dilma Rousseff em 2012 e que durou até 2017. Até o termo “insanidade” foi cometido. Não é bem assim. Os fatos comprovam que o Inovar-Auto foi benéfico para a indústria automobilística e para o país.

É fato que a fabricação dos Mercedes Classe C e GLA não se mostrou sustentável. Da mesma forma, são cada vez mais fortes os indícios de que a Audi também vai encerrar a produção do Audi A3 Sedan em São José dos Pinhais (PR), assim como já parou a do Q3. Ainda que não tenham sido colocadas na marca do pênalti, as operações da Jaguar Land Rover em Itatiaia (RJ) e da BMW em Araquari (SC) têm volume de produção limitado.

Todas essas marcas produzem carros de luxo. Num país com a baixa renda per capita, como o Brasil, é normal que esses carros vendam pouco. Porém, se não fosse o Inovar-Auto, não teríamos hoje fábricas como a da Nissan em Resende (RJ), da Caoa Chery em Jacareí (SP) e da FCA em Goiana (PE). 

É verdade que 370 pessoas podem ficar sem emprego com o fechamento da fábrica da Mercedes em Iracemápolis. Mas a fábrica de Jacareí emprega 600 pessoas. A de Resende emprega 2.000 pessoas. E a de Goiana emprega outras 14.600 pessoas, incluindo FCA, parque de fornecedores e terceirizados. Tem mais: sem o Inovar-Auto, não teríamos hoje no mercado carros com motores turbo, mais potentes, mais econômicos, mais eficientes. São muitos, como o 1.0 TSI e 1.4 TSI da Volkswagen e o 1.0 Turbo e 1.2 Turbo da GM.

Fábrica da Jeep em Pernambuco: Inovar-Auto foi bom para quem soube escolher o produto.
Fábrica da Jeep em Pernambuco: Inovar-Auto foi bom para quem soube escolher o produto.
Foto: FCA / Divulgação

Além disso, motores menores, de três cilindros, passaram a equipar carros da Ford, da Volkswagen, da Fiat, da Hyundai e da Nissan. Todas as montadoras investiram em tecnologias que permitiram aos brasileiros gastar menos combustível no trânsito e reduzir a poluição do meio-ambiente. Para se ter uma ideia, a meta do Inovar-Auto era melhorar a eficiência energética em 12%. 

Segundo um levantamento da Bright Consulting publicado pelo Automotive Business, o consumo médio dos 1,94 milhão veículos leves vendidos de outubro de 2016 a setembro de 2017 alcançou 1,74 MJ/km, equivalente a emissões de 131 g/km de CO2, o que resultava em melhoria de 15,9% em comparação com 2011 e colocava o Brasil em nível parecido com a Europa, ajudando a cumprir o compromisso de redução de emissões assumido pelo País na COP21, a convenção da ONU sobre mudanças climáticas. O presidente da AEA na época, Edson Orikassa, disse ao UOL que o Inovar-Auto foi “um dos mais ousados planos de melhora de eficiência energética já vistos no mundo”.

Há, claro, especialmente no Brasil, aqueles que dão uma banana para a questão ambiental -- o que apenas atrapalha o país quando os grandes fabricantes mundiais de automóveis decidem seus projetos futuros. Afinal, a indústria inteira está fortemente focada em reduzir as emissões de poluentes dos automóveis. No Brasil, não há sequer incentivo para a produção de carros híbridos e elétricos -- uma das falhas do Inovar-Auto foi não incluir isso no programa. Em 2012, entretanto, falar em carros híbridos ou elétricos produzidos no Brasil era quase uma utopia.

Quanto à questão comercial em si, o fracasso da operação de automóveis da Mercedes-Benz não foi culpa da “insanidade” do Inovar-Auto. Pelo contrário. Foi culpa da incapacidade do país de corrigir a questão do emprego e da renda. Mais: antes da pandemia, a moeda brasileira já enfrentava forte desvalorização perante o dólar e o euro, para citar as duas principais moedas estrangeiras.

Em sua coletiva mensal do comecinho de março, a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) fez duras críticas ao ministro da Economia, Paulo Guedes, e grandes elogios ao então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, por estar atento e pró-ativo em relação ao desastre que poderia nos antigir. Na época, a pandemia de coronavírus ainda não havia chegado ao Brasil. Quando chegou, o que foi feito? Mandetta foi demitido. 

É triste que a Mercedes-Benz tenha fechado sua fábrica de automóveis, mas esta não foi a primeira vez. Aconteceu também em 2005, quando o Classe A deixou de ser produzido em Juiz de Fora (MG). Da mesma forma, a Audi e a Volkswagen também haviam desistido da produção do Golf e do Audi A3 em São José dos Pinhais, e tentaram de novo.

Fábrica da Caoa Chery em Jacareí: sem o Inovar-Auto não teríamos uma marca com nome nacional.
Fábrica da Caoa Chery em Jacareí: sem o Inovar-Auto não teríamos uma marca com nome nacional.
Foto: Caoa Chery / Divulgação

Devido ao programa Inovar-Auto, cerca de R$ 14 bilhões foram investidos na inauguração das oito fábricas citadas anteriormente. Outros R$ 15 bilhões foram investidos em pesquisa e desenvolvimento de motores de várias marcas. Também é preciso lembrar que no comecinho da década passada, carros importados de várias marcas chegavam ao país e vendiam muito, especialmente de marcas asiáticas como JAC, Chery, Hafei, Chana, Jinbei e Kia. De todas, só a Chery deu certo depois que se uniu ao Grupo Caoa e hoje faz carros de qualidade.

O Inovar-Auto teve erros, sim, como o de sobretaxar os veículos importados em 30% além dos 35%, o que provocou uma condenação do Brasil na OMC (Organização Mundial do Comércio) por prática de protecionismo. Porém, já se passaram três anos do fim do Inovar-Auto, o super IPI caiu, mas o imposto de 35% se mantém. Por que? É mesmo necessário taxar os importados em 35% com o dólar cotado a mais de R$ 5?

Finalmente, é preciso entender que ninguém obrigou a Mercedes-Benz, a Audi, a Jaguar Land Rover e a BMW (para citarmos só as marcas de luxo) a produzir carros no Brasil. A Volvo, por exemplo, não quis, e parece estar satisfeita. Se o mercado não se mostrou tão grande quanto parecia, certamente a culpa não foi do Inovar-Auto, e sim dos problemas estruturais do Brasil que nenhum governo consegue consertar. 

Entre eles podemos citar a precariedade das estradas, a opção por concentrar o transporte quase todo no modal rodoviário, a burocracia que aumenta os custos das empresas, o excesso de tributação para todos os setores produtivos, inclusive para os trabalhadores autônomos, o desemprego que nunca acaba e a baixa renda per capita da população. O resto é análise de mercado. Entre continuar investindo no Brasil ou investir em países mais amigáveis para a produção de automóveis, a Mercedes-Benz preferiu a segunda opção. Infelizmente, ela não será a única e isso não é culpa do Inovar-Auto.

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