Recuo da Ford nos elétricos escancara dilema global da indústria
Entre lucrar nos Estados Unidos e competir contra a China na transição elétrica global, montadoras enfrentam escolhas difíceis
O recuo da Ford em seus projetos de veículos elétricos expõe um dilema que hoje atinge toda a indústria automotiva global, especialmente relevante para mercados emergentes como o Brasil. A montadora estadunidense anunciou o cancelamento de vários modelos elétricos e um ajuste contábil de US$ 19,5 bilhões em ativos ligados à eletrificação, após acumular cerca de US$ 13 bilhões em perdas no segmento desde 2023.
EUA seguram elétricos, mas Europa e China mantêm o foco
Segundo reportagem da Reuters, o CEO Jim Farley reconheceu que muitos desses veículos não encontrariam compradores dispostos a pagar seu preço no mercado americano. A decisão reflete o impacto direto da redução de subsídios e do afrouxamento das regras ambientais nos Estados Unidos sob Donald Trump, o que tornou os elétricos menos viáveis financeiramente, no curto prazo.
O problema é que, fora dos EUA, a realidade é oposta. China e Europa seguem exigindo eletrificação acelerada, tanto por regulação quanto por concorrência direta com fabricantes chineses altamente eficientes, como a BYD. Isso obriga montadoras globais a manterem estratégias distintas por região – um custo extra que desmonta a lógica do “carro global” adotada nas últimas décadas.
Ford sinaliza que eletrificação deixou de ser trajetória única
Para enfrentar esse cenário, a Ford passou a priorizar projetos pontuais, como a recente parceria com a Renault. A empresa mantém apenas alguns elétricos estratégicos em desenvolvimento e busca alianças tecnológicas para seguir competitiva fora dos EUA, enquanto sustenta sua rentabilidade doméstica com picapes e SUVs a combustão.
O movimento ajuda a explicar por que a transição elétrica avança em ritmos tão diferentes ao redor do mundo – e por que mercados como o Brasil seguem convivendo com múltiplas tecnologias. Mais do que um recuo isolado, a decisão da Ford sinaliza que a eletrificação deixou de ser uma trajetória única e passou a depender, cada vez mais, das condições econômicas e regulatórias de cada país.
Fonte: Reuters – Nora Eckert