Ucrânia aproveita vácuo de internet e faz retomada recorde
Bloqueio imposto pela Starlink deixou tropas russas sem acesso à comunicação no início de fevereiro, o que favoreceu rápida reconquista de territórios ucranianos, segundo observadores do conflito.A Ucrânia recapturou 201 quilômetros quadrados da Rússia na semana passada, no que tem sido considerada a mais rápida ação de retomada das forças de Kiev. A área é quase equivalente aos avanços russos durante todo o mês de dezembro, de acordo com dados do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW) analisados pela agência de notícias AFP.
Para esse feito, a Ucrânia contou com uma ajuda do céu - ou melhor, do bilionário Elon Musk e sua empresa de satélites, a Starlink, que interrompeu o sinal de internet para as tropas russas no período em que a análise foi feita, de 4 a 8 de fevereiro.
"Esses contra-ataques ucranianos provavelmente estão aproveitando o recente bloqueio do acesso das forças russas à Starlink, que, segundo blogueiros militares russos, está causando problemas de comunicação, comando e controle no campo de batalha", informou o ISW.
Observadores militares notaram a interrupção das antenas, usadas por Moscou na linha de frente, em 5 de fevereiro, após anúncios de Musk sobre "medidas" para acabar com o uso dessa tecnologia pelo Kremlin.
Kiev alegou que os drones russos estavam usando essas antenas para contornar sistemas de interferência eletrônica e atingir seus alvos com precisão. Segundo as informações do ISW, as forças russas passaram a avançar novamente em 9 de fevereiro.
Os territórios recapturados estão concentrados principalmente a cerca de 80 quilômetros a leste da cidade de Zaporíjia, numa área onde as tropas russas fizeram progressos significativos desde meados de 2025.
Mais uma rodada de negociações
A contra-ofensiva ucraniana sugere que Kiev pode chegar fortalecida nas negociações de paz que acontecem a partir desta terça-feira (17/02) em Genebra.
As delegações russa e ucraniana estão na cidade suíça para mais uma rodada da recente iniciativa dos Estados Unidos de pôr fim à guerra que já dura quatro anos. Não há grandes expectativas de avanços, visto que os dois lados lançaram ataques de longo alcance horas antes.
O presidente americano, Donald Trump, tem buscado se cacifar como mediador do conflito, mas as duas rodadas anteriores coordenadas pela Casa Branca em Abu Dhabi, além das várias tentativas no ano passado, não tiveram sucesso.
Autoridades ucranianas relatam uma pressão crescente do governo Trump para que façam concessões. "É melhor a Ucrânia se sentar à mesa, rapidamente", disse o presidente americano a repórteres, antes das negociações.
As tropas russas têm avançado pelo leste e sul da Ucrânia há meses, com um custo humano imenso. A guerra se transformou no conflito mais mortal da Europa desde a Segunda Guerra Mundial, com centenas de milhares de mortos, milhões forçados a fugir de suas casas na Ucrânia e grande parte do leste e sul do país devastada pela guerra.
Kiev tem pedido a seus aliados europeus garantias de que a Rússia não voltará a invadir em caso de um acordo.
A Rússia ocupa cerca de um quinto da Ucrânia — incluindo a península da Crimeia, que tomou em 2014, e áreas que os separatistas apoiados por Moscou haviam tomado antes da invasão de 2022.
Mas suas preocupações econômicas em tempo de guerra estão aumentando, com a economia estagnada e um rombo orçamentário crescente, à medida que as receitas do petróleo, sufocadas pelas sanções, caem para o nível mais baixo em cinco anos.
sf/ra (AFP, ots)