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Troca de presidentes fragilizados no Peru: como isso afeta o Brasil e a América Latina?

A "peruanização" da crise de governabilidade deixa de ser um cenário hipotético e passa a ser um risco real para toda a América Latina

24 fev 2026 - 11h06
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Um presidente encapuzado entra às pressas num restaurante chino‑peruano em Lima, tentando não ser reconhecido. A câmera de segurança registra a cena: é José Jerí, chefe de Estado, chegando a um encontro secreto com um empresário chinês interessado em adiar um grande projeto hidrelétrico, longe de qualquer registro oficial.

À primeira vista, parece uma história distante, ainda que suspeita. Mas essa imagem ajuda a explicar por que o Peru se tornou hoje um risco direto para a segurança, a economia e a qualidade da democracia no Brasil e em toda a América Latina.

Jerí nunca foi pensado para o papel de protagonista. Chegou ao poder por uma carambola institucional, depois do autogolpe frustrado de Pedro Castillo e da queda de Dina Boluarte, que já governava sem vice‑presidentes naquele momento, e com o presidente do Congresso empurrado para a chefia de Estado. Aos 38 anos, com trajetória discreta, assumiu como presidente "de transição" até as eleições de abril de 2026, em meio a um ambiente de profunda desconfiança nas instituições. A promessa de estabilidade mínima se desfez rapidamente.

O contexto interno já era explosivo. Em 2025, o Peru registrou 2.213 homicídios, o pior número desde 2017, mais de cinco assassinatos por dia. A aposta em mais "mão dura" não alterou esse quadro, e um Estado frágil é terreno fértil para o avanço de organizações criminosas que operam também do lado brasileiro da fronteira amazônica.

Na frente externa, o governo rompe relações com o México depois que aquele país concede asilo à ex‑primeira‑ministra Betssy Chávez; em resposta, o México impõe vistos para peruanos e a crise escala a ponto de exigir a mediação do Brasil. O Itamaraty é chamado a atuar como bombeiro regional, gastando capital diplomático para conter um incêndio que espalha faíscas por toda a região andino‑amazônica.

'Chifagate'

O "Chifagate" acelera a implosão. Um presidente encapuzado, um chifa de bairro (restaurante popular que serve a culinária de fusão sino-peruana), um empresário interessado em contratos públicos bilionários: a cena condensa a confusão entre interesses privados e decisões de Estado.

A primeira justificativa - uma simples reunião de amigos - cai quando se revela que o tema era um projeto hidrelétrico estratégico. A segunda - a necessidade de um tradutor - é desmentida pelo proprio currículo do empresário, Ji Wu Xiaodong, tradutor juramentado com 20 anos de atuação. Cada explicação furada aprofunda a sensação de que o presidente age como alguém com algo grave a esconder.

A imprensa abre, então, a caixa‑preta do poder. Surgem denúncias de contratos suspeitos concedidos a jovens mulheres que visitavam o palácio à noite, além de encontros com figuras ligadas à extração ilegal de madeira, incluindo um visitante em prisão domiciliar. A popularidade de Jerí, que começou em torno de 58%, desaba para cerca de 25%, abrindo caminho para a reação do mesmo Congresso que o havia levado ao cargo. Em poucas semanas, a Procuradoria abre investigação, a moção de vacância é apresentada, e o presidente "por acidente" se torna mais um da longa lista de chefes de Estado descartados.

Drama nacional se transforma em alerta regional

É aqui que o caso peruano deixa de ser apenas um drama nacional e se transforma num alerta regional. O Peru vive um parlamentarismo "de facto": a Constituição prevê um presidencialismo, mas na prática o Congresso acumulou tanto poder de bloquear, chantagear e destituir que funciona como um parlamento capaz de "nomear" e "derrubar" presidentes quase à vontade.

Em cerca de uma década, o país já contabiliza oito presidentes, e a pergunta deixa de ser "quem ganhou as eleições?" para se tornar "quem será o próximo a cair - e em quanto tempo?". Essa lógica de "máquina de triturar presidentes" não fica confinada a Lima: ela alimenta um clima regional em queimpeachmente vacância deixam de ser exceção para virar tática corriqueira de jogo político.

A destituição de Jerí, porém, não traz alívio. O Congresso escolhe como novo presidente interino José María Balcázar, advogado de 83 anos, ex‑juiz da Suprema Corte, com um histórico que reacende alarmes éticos e democráticos. Balcázar ganhou notoriedade por se opor a proibir o casamento infantil, defendendo em entrevistas que, na ausência de violência física, relações sexuais entre menores poderiam "ajudar o futuro psicológico da mulher" e reafirmando que "não muda de opinião".

Além disso, o novo presidente enfrenta denúncias de corrupção e foi expulso do Colégio de Advogados de Lambayeque por presunta apropriação de recursos quando atuou como decano. Em vez de restaurar confiança, sua nomeação aprofunda a sensação de que o sistema político peruano está produzindo respostas cada vez mais frágeis, inclusive em temas básicos de direitos humanos.

Por que tudo isso é tão ruim para o Brasil e para a América Latina?

Primeiro, por causa da segurança e do território. Um Estado central fraco, com Executivo efêmero e Legislativo em guerra permanente, perde capacidade de controlar fronteiras e enfrentar redes criminosas transnacionais. Na prática, isso significa mais espaço para narcotráfico, garimpo ilegal, desmatamento e tráfico de pessoas na fronteira amazônica Peru-Brasil, justamente numa região em que ambos os países deveriam cooperar para proteger a floresta. O que acontece em Lima não fica em Lima: se traduz em violência, degradação ambiental e pressão sobre forças de segurança brasileiras.

Segundo, pela dimensão econômica e geoestratégica. O Peru é peça chave em projetos de interesse direto para o Brasil e para a região, como corredores bioceânicos ligando Atlântico e Pacífico, cadeias de valor em mineração e energia, e articulações em foros como CELAC e OEA. Quando o país entra em ciclo de presidentes descartáveis e lideranças controversas, esses projetos são paralisados ou capturados por agendas de curto prazo, abrindo espaço para que atores externos usem o vácuo de poder a seu favor. A América Latina, que já sofre com baixa integração, perde mais uma oportunidade de construir uma inserção conjunta e autônoma no cenário global.

Terceiro, e talvez mais importante, pelo efeito institucional e simbólico. A sucessão de presidentes fragilizados, culminando no par Jerí-Balcázar, reforça a mensagem de que a democracia latino‑americana seria, por natureza, incapaz de produzir governos estáveis e lideranças comprometidas com padrões mínimos de integridade.

Em sociedades que também enfrentam polarização extrema, como o Brasil, isso alimenta a normalização de soluções de curto prazo: usar o impeachment como arma de rotina, hipertrofiar parlamentos sem reforçar mecanismos de responsabilidade e, no limite, abrir espaço para projetos autoritários que prometem "ordem".

A crônica da queda de José Jerí, iniciada com um vídeo de câmera de segurança num restaurante de esquina, termina em perguntas maiores: quem governa de fato o Peru - e a serviço de quê - num sistema que devora presidentes e produz sucessores com posições abertamente contrárias a direitos básicos como a proteção da infância?

Para o Brasil, isso funciona como um espelho incômodo e um alerta: sem reforço das instituições, sem regras claras para relações entre Executivo e Legislativo e sem filtros mínimos para quem pode chegar ao topo do Estado, a "peruanização" da crise de governabilidade deixa de ser um cenário hipotético e passa a ser um risco real para toda a América Latina.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Armando Alvares Garcia Júnior não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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