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Solitárias por natureza, onças-pintadas são flagradas em grupo no Pantanal

Câmeras instaladas perto de currais de criação de gado da região registraram em vídeo grupos de até quatro onças próximo às cercas das fazendas

16 jan 2026 - 10h04
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No Pantanal Norte, no Estado do Mato Grosso, campos alagados dividem espaço com faixas de mata e pastagens abertas. Ali, uma cena pouco usual começou a ser registrada por câmeras instaladas perto de currais das fazendas de criação de gado, atividade primordial na região. Em vez da figura solitária de uma onça-pintada, que tradicionalmente percorre seu território sozinha, as imagens mostraram quatro onças passando em frente às câmeras em sequência. Elas paravam, cheiravam o ambiente e observavam umas às outras. Tudo isso acontecendo em um intervalo de pouco mais de dois minutos.

Para quem estuda a espécie, também chamada de jaguar, em vida livre, essa aproximação é muito rara e chama atenção. O registro em vídeo faz parte de um estudo que analisou em detalhes essas interações e foi recentemente publicado na revista científica Biota Neotropica.

Estratégias para proteger o gado e as onças

As filmagens foram realizadas em currais cercados por fios eletrificados, parte de um sistema de manejo criado por nosso grupo de pesquisa e já adotado na Pousada Piuval e em outras áreas do Pantanal para evitar ataques ao gado. Em estudos anteriores, havíamos demonstrado que a eletrificação diminuiu de modo importante os ataques ao gado, mas não tínhamos ainda dados para entender como as onças percebiam a barreira. O novo registro ajuda a responder essa pergunta

A paisagem ao redor ajuda a entender o contexto. A Pousada Piuval está numa região do Pantanal onde a pecuária ocupa grande parte do território, e onde também há pressão de garimpo e expansão urbana. Mesmo assim, ali já foram identificadas por câmeras ao menos 31 onças nos últimos três anos. O monitoramento contínuo permite registrar comportamentos que, de outro modo, passariam despercebidos. O arranjo familiar observado - fêmea adulta, seus subadultos e um jovem macho (sem ser filho dela) - mostra um tipo de tolerância social raro na espécie, que normalmente circula de forma independente.

As revelações das câmeras

As câmeras mostram uma onça jovem se aproximando da cerca, recebendo o choque e recuando. Logo depois, duas onças subadultas (entre equivalente à adolescência) chegam, observam a reação do primeiro animal e se mantêm à distância. A fêmea adulta, mãe das duas onças, acompanha o grupo e aparece por último, cheira o local e também evita o contato. A cena sugere que a experiência de um indivíduo passou a orientar o comportamento dos demais.

A composição do grupo chama a atenção por si só. As câmeras registraram uma fêmea adulta, dois filhotes subadultos e um terceiro jovem macho, aparentado, mas não filho. Coalizões de onças são descritas quase sempre entre machos adultos. Aqui, trata-se de um arranjo familiar mais complexo, possível porque há parentesco para reduzir tensões. Pudemos observar que o macho subadulto, mesmo não sendo prole direta desta fêmea específica, foi aceito por ela no grupo. Essa aceitação demonstra uma tolerância passiva incomum por parte da fêmea adulta, que transcende o cuidado com seus próprios filhotes, sugerindo que o parentesco genético ou mesmo um instinto maternal ampliado facilitou a integração do indivíduo no núcleo social.

A sequência registrada entre 23h03min56s e 23h05min58s mostra detalhes importantes. Primeiro, o animal jovem (ID3) curioso se aproxima da cerca e recebe o choque. O segundo animal (ID4) aparece logo depois e vocaliza um sibilo em direção ao primeiro, — um gesto que pode indicar alerta. Em seguida vem a terceira onça (ID5), que observa a área, cheira a estrutura e recua. Por fim, a mãe conhecida como Baia (ID2), se aproxima e repete o comportamento cauteloso. O ritmo contínuo da cena indica que os quatro estavam circulando juntos naquela noite.

Imagens: Instituto Impacto.

Os registros seguintes ampliam essa percepção. No dia anterior ao episódio do choque, guias viram quatro onças juntas perto de uma área onde uma capivara seria predada no dia seguinte. As câmeras mostram o mesmo grupo voltando à carcaça em momentos diferentes: o jovem macho aparentado, a fêmea e um de seus filhotes. O padrão se repetiu dias depois em outra carcaça, de guaxinim, visitada pelos dois filhotes e jovem macho, pelo menos em quatro datas diferentes. Esses retornos sugerem que os indivíduos estavam usando o espaço de maneira coordenada e compartilhando recursos naturais.

Esse tipo de registro se soma a um conjunto de informações que nosso grupo de pesquisa já vinha acumulando no Pantanal antes deste estudo: ao lado de fazendeiros e pousadas da região, conseguimos atuar em uma área de cerca de 30 mil hectares, onde instalamos dezenas de armadilhas fotográficas para identificar individualmente as onças e testamos medidas anti-predatórias, como o uso de cercas elétricas noturnas para proteger o gado.

Em paralelo, passamos a coletar e analisar fezes dos animais para entender sua saúde, os parasitas que carregam e o papel que exercem no controle de zoonoses. Esses trabalhos anteriores mostraram que é possível reduzir ataques ao rebanho, valorizar o turismo de observação e, ao mesmo tempo, manter onças e pantaneiros no mesmo território, com benefícios para a economia local e para o ecossistema.

Chances de conviver em harmonia

Neste estudo, vimos que é possível que a barreira elétrica tenha desempenhado um papel importante no processo de mudança de comportamento das onças. Em geral, animais jovens ainda estão desenvolvendo suas habilidades de caça. É muito provável que a aversão ao curral de outros animais, motivada pelo choque, possa ter direcionado a atenção desses indivíduos para presas naturais. A própria repetição das visitas às carcaças indica que o grupo encontrou ali um recurso seguro, sem interferência humana. Em 23 de agosto, semanas depois do choque, o macho jovem (que não era filhote nem irmão das outras onças), retornou ao curral. Cheirou o local, examinou a cerca e foi embora sem tentar atravessá-la, um indício de que a lembrança do choque se manteve.

As câmeras revelaram, ainda, uma dinâmica mais delicada: jovens onças aprendendo a tomar decisões num ambiente que mistura risco, oportunidade e sinais deixados por outros indivíduos. O episódio da cerca elétrica não apenas afastou o grupo do gado naquele momento, mas parece ter influenciado a forma como os jovens passaram a usar a área e buscar alimento nos dias seguintes.

O estudo abre espaço para novas observações. Como essas associações se formam? Por quanto tempo duram? Há transmissão de comportamentos entre parentes? Jovens que aprendem cedo a evitar estruturas humanas tendem a se envolver menos em conflitos? E de que maneira essa convivência, num ambiente tão marcado pela presença humana, molda a vida social de um animal que, no senso comum, é sempre descrito como solitário?

As onças-pintadas continuam sendo felinos que preferem circular sozinhos. Mas, como mostram esses registros, também são capazes de observar, ajustar e escolher caminhos a partir do que veem nos outros. Às vezes, fazem isso em grupo, mesmo que por pouco tempo. E esse intervalo breve é suficiente para revelar um lado menos conhecido da espécie. Um lado que aprende, experimenta, erra, observa e tenta de novo.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Paul Raad fundou e coordena o Instituto Impacto, focado na convivência harmônica entre humanos pecuaristas e grandes felinos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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