Sistema digestivo da barata pode inspirar processos mais limpos de produção de energia; entenda
Pesquisadores mapearam enzimas, micro-organismos e etapas físico-químicas que permitem ao inseto degradar com grande eficiência fibras vegetais
Pesquisadores do Instituto de Biociências da USP e da UFRJ estão de olho no aparelho digestivo da barata Periplaneta americana para inspirar processos industriais mais limpos e eficientes de produção de bioenergia. O grupo mapeou enzimas, micro-organismos e etapas físico-químicas que permitem ao inseto degradar com grande eficiência fibras vegetais — conhecimento que pode ser "traduzido" em tecnologia para acelerar a conversão do bagaço de cana em etanol de segunda geração.
A proposta é biomimética: nada de "usinas com baratas", e sim reproduzir, em escala industrial, o coquetel enzimático e a sequência de operações que o inseto realiza naturalmente. Segundo os autores, isso tende a reduzir custos e a necessidade de área agrícola, ao extrair mais energia da mesma quantidade de biomassa. Os resultados foram descritos na revista BioEnergy Research.
O trabalho detalha uma linha de produção biológica que combina trituração mecânica (as "mandíbulas" de quitina), etapas enzimáticas em ambientes com diferentes pHs e potencial de oxidorredução, e uma fase microbiana no intestino, onde bactérias especializadas finalizam a quebra dos açúcares. Replicar esse fluxo — com temperaturas moderadas e sem reagentes agressivos — é visto como caminho para tornar o etanol celulósico mais competitivo.
Os cientistas já planejam ampliar o olhar para outros "engenheiros da biomassa", como cupins e tenébrios. No caso dos cupins, a expectativa é ainda maior: esses insetos conseguem degradar perto de 90% da celulose, o que pode revelar novas combinações enzimáticas para a indústria.