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Proibida por anos, bebida criada por escravizados se torna símbolo da cultura afro-colombiana

O viche, uma bebida à base de cana-de-açúcar, é uma espécie de moonshine colombiano

29 set 2022 - 05h11
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THE NEW YORK TIMES - LIFE/STYLE - Quando criança, Lucía Solís viu sua família enterrar na floresta um estoque da aguardente querida, mas proibida, chamada viche, com medo de apreensões policiais e até de prisão.

No entanto, em agosto, aqui estava ela cercada por garrafas de vários tipos de viche, com seu líquido da cor de âmbar, creme ou cristal, e ela foi rodeada por clientes ansiosos por um sabor agora legalizado.

Ela estava vendendo sua própria marca da bebida em um estande de uma das maiores celebrações da cultura afrodescendente da América Latina, o Festival de Música do Pacífico Petronio Álvarez, onde 350 mil visitantes transformam uma ampla área da cidade de Cali, na Colômbia, em uma festa gigante.

"Sexta geração!" gritou Solís, 56, esforçando-se para ser ouvida sobre os sons de fortes tambores e marimba enquanto explicava que ela era apenas uma em uma longa fila de mulheres que produziam viche. "Minha avó, minha bisavó, minha tataravó. As ancestrais!"

O viche, feito de cana-de-açúcar destilada, foi inventado por antigos escravizados na região ao redor da costa do Pacífico colombiano e ganhou popularidade como a resposta local ao monopólio do governo sobre a bebida de cana - tornando-se uma espécie de moonshine colombiano.

Distingue-se de outras bebidas de cana-de-açúcar, incluindo a aguardente colombiana, porque a cana-de-açúcar deve ser cultivada perto do mar ou de um rio e ao lado de outras culturas nativas da região que os produtores dizem dar ao viche seu distinto sabor cítrico defumado.

Proibido por gerações, o viche tornou-se um símbolo da exclusão de longa data da cultura negra da narrativa nacional da Colômbia - sua proibição é mais uma evidência, segundo os críticos, de que o país não estava reconhecendo as muitas contribuições da comunidade.

O festival Petronio Álvarez é uma resposta poderosa a qualquer tentativa de ignorar ou descartar a cultura afrodescendente da Colômbia. Batizado com o nome de um músico que celebrou essa cultura em suas canções, começou em 1997 como um evento musical e cresceu como uma mistura de reunião regional, semana de moda, uma série de concursos culinários, um festival de dança e um dos mais importantes shows do ano.

Para alguns, a frequência anual é tradição, semelhante a uma peregrinação cultural. (Petronio, como é comumente chamado o evento, foi virtual em 2020 em meio à pandemia, e aconteceu em formato reduzido no ano passado.)

O festival em si acontece dentro de um complexo esportivo ao ar livre, onde um concurso de música que é uma espécie de "American Idol" colombiano da costa do Pacífico este ano concedeu um de seus maiores prêmios à banda La Jagua.

Mas sua lendária after-party se espalha pelas ruas de Cali, e este ano houve uma participação especial de Francia Márquez, a primeira vice-presidente afro-colombiana do país, que, após uma série de compromissos com presidentes sul-americanos, apareceu em uma sacada, acenando e mandando beijos para uma multidão gritando seu nome.

Depois de gerações em que os colombianos negros foram em sua maioria excluídos dos mais altos escalões da política nacional, a recente ascensão política de Márquez - ela nasceu na extrema pobreza, tornou-se advogada e ativista ambiental antes de ganhar a vice-presidência - eletrizou muitos eleitores.

No festival, a comida e a bebida afro-colombiana são parte essencial da cena, e o viche é o único álcool permitido no evento. Aqueles que tentam vender cerveja são escoltados para fora pela segurança.

O papel proeminente do viche no festival é ainda mais notável considerando sua história fora da lei.

Mas em 2019, o Tribunal Constitucional do país decidiu que uma lei que protege as bebidas ancestrais em comunidades indígenas também deve ser aplicada às afro-colombianas. Isso abriu o caminho para o Congresso legalizar o viche e declará-lo patrimônio coletivo do povo afro-pacífico.

No ano passado, o viche recebeu o status de produto do patrimônio cultural.

Agora, Solís e outros fazem parte de um esforço para convencer os colombianos além do Pacífico a adotar o viche como um emblema cultural de todo o país.

"O México tem a tequila, o Peru tem o pisco, a Escócia tem o uísque", disse Manuel Piñeda, presidente do grupo regional da Associação Colombiana de Bares. "Nós temos viche."

O objetivo, ele disse é, finalmente, tornar-se global.

"É muito importante para nós respeitar esses avós que o trouxeram até este momento", ele disse. "Mas queremos que o mundo conheça essa história."

O clima predominante do festival é de exuberância e orgulho cultural, e visitantes de todas as raças e etnias são bem-vindos.

O viche está em toda parte. Em garrafas em pequenas bancas. Despejado em amostras nos copos de plástico. Vendido até se esgotar nos coolers durante os shows. Enfiado em bolsos e mochilas. Compartilhado entre novos amigos. Celebrado em um pavilhão inteiro com mais de 50 famílias produtoras de viche, chamadas vicheras.

"Uma bebida tão carregada de simbolismo, de valores, me parece deliciosa", disse Neila Castillo, 68, que estava no estande de Solís, provando viches com uma amiga de faculdade, Marta Espinosa, 67. Elas colocaram garrafas de viche puro branco em suas malas para desfrutar mais tarde.

Em 2008, o viche tornou-se a bebida oficial do festival quando os organizadores tomaram a ousada decisão de comercializá-lo durante o evento como parte de um "exercício de conscientização", embora ainda fosse ilegal, disse Ana Copete, diretora do festival e neta de seu homônimo. Na época, o viche recebeu proteção informal no âmbito do evento, ela disse, e os vendedores foram autorizados a vender seus produtos sem interferência das autoridades.

O viche representa a única renda para muitas famílias na região do Pacífico da Colômbia e, em 2018, Copete começou um esforço colaborativo com produtores e organizações locais para colocar a legalização do viche na agenda pública.

O grupo logo garantiu o apoio do Ministério da Cultura da Colômbia e outros formuladores de políticas que viram o potencial econômico da bebida.

"Tem sido uma luta para mantê-lo vivo, para evitar que a tradição desapareça", disse Copete. A sua presença marcante no festival, acrescentou, "permite que outras pessoas que não são do Pacífico conheçam esta bebida e saibam o que ela representa ao consumi-la - isso ajuda as famílias vicheras". /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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Estadão
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