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Preços dos ingressos para a Copa do Mundo refletem o aumento da desigualdade entre ricos e pobres

As oscilações bruscas dos preços dinâmicos, as contínuas acusações de corrupção na Fifa e dúvidas quanto à idoneidade do país anfitrião geraram uma enorme reação negativa

11 jun 2026 - 11h43
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Análise econômica pode trazer alguma clareza sobre o que levou os ingressos da Copa a preços exorbitantes e inclui problemas como preços dinâmicos, corrupção e uma crise global de acessibilidade. Chip Somodevilla/Getty Images
Análise econômica pode trazer alguma clareza sobre o que levou os ingressos da Copa a preços exorbitantes e inclui problemas como preços dinâmicos, corrupção e uma crise global de acessibilidade. Chip Somodevilla/Getty Images
Foto: The Conversation

Em 1994, última vez que os estádios dos EUA sediaram a Copa do Mundo, o preço médio dos ingressos era de US$ 58 (cerca de R$ 300. O ingresso mais caro para a final podia ser adquirido por US$ 475 (R$ 2,45 mil).

Ajustados pela inflação americana desde então, esses valores seriam de US$ 131 (R$ 680) e US$ 1.069 (R$ 5,53 mil), respectivamente. Adiantamos o relógio 32 anos, no entanto, e vemos que os preços atuais dos ingressos da Copa são bem mais altos.

No torneio que terá início em 11 de junho de 2026 no Estádio Azteca, México, os preços médios dos ingressos têm girado em torno de US$ 1.300 (R$ 6,72 mil). Os ingressos mais baratos para a final estão custando incríveis US$ 10.000 (R$ 51,7 mil), e o preço é ainda maior para os melhores lugares.

Isso representa um aumento, ajustado pela inflação, de cerca de 1.000% no preço médio dos ingressos entre as duas vezes em que os EUA sediaram ou cossediaram a Copa. Como referência para comparação, nesse período, a renda média das famílias nos EUA, ajustada pela inflação, aumentou apenas 32%.

Mas será que o preço dos ingressos é o verdadeiro problema da Copa do Mundo? Como economista especializado em futebol e coapresentador do podcast Soccernomics, essa é uma questão sobre a qual venho refletindo há muito tempo. E a análise econômica pode trazer alguma clareza sobre o que levou a esses preços exorbitantes dos ingressos, se eles são justificáveis e por que muitos os consideram injustos.

Para começar, vamos fazer um exercício de reflexão. Os três países anfitriões da Copa do Mundo - Canadá, México e Estados Unidos - abrigam cerca de 200.000 indivíduos com patrimônio líquido ultraelevado, aqueles que possuem fortunas superiores a US$ 30 milhões (R$ 155 milhões). Se esse grupo de elite contivesse 82.500 torcedores de futebol dispostos a pagar US$ 300.000 (R$ 1,55 milhão) por um ingresso para lotar o MetLife Stadium, em Nova Jersey, para a final, isso representaria uma receita de quase US$ 25 bilhões (quase R$ 130 bilhões) para a Fifa. E esse não é um preço fantasioso — os ingressos para a final já foram listados por valores muito mais altos.

Agora, se a Fifa prometesse que todo esse dinheiro seria destinado a boas causas — digamos, erradicar a malária ou garantir que crianças carentes tivessem acesso a equipamentos e programas de futebol de última geração — alguém realmente reclamaria que isso custou tornar os ingressos inacessíveis a todos?

O problema é que a Fifa não está prometendo nada disso. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, afirmou que todo o dinheiro gerado "volta para o futebol em todos os lugares". Mas, dada a reputação de práticas financeiras obscuras dos órgãos reguladores, há motivos para acreditar que grande parte do dinheiro nunca será devidamente contabilizada.

O ponto principal é este: não são realmente os altos preços dos ingressos em si que são o problema; é o contexto em que eles estão sendo vendidos.

O problema dos preços dinâmicos

Esse contexto envolve pelo menos três elementos que os críticos consideram particularmente ofensivos.

O primeiro é o mesmo que é o pesadelo tanto dos fãs de música que vão a shows nos EUA quanto dos passageiros frequentes de companhias aéreas e de carros de aplicativos: os preços dinâmicos.

O termo econômico para tal política é "discriminação de preços". Isso significa cobrar das pessoas de acordo com sua disposição a pagar, em vez do custo de fornecimento do produto ou serviço.

A precificação dinâmica é simplesmente um algoritmo criado para alcançar isso explorando o poder de mercado. Embora não seja ilegal, o anúncio de investigações pelos procuradores-gerais de Nova York e Nova Jersey sugere que a Fifa pode enfrentar alguns problemas legais no futuro.

A tela de um celular mostra alguns valores em dólares.
A tela de um celular mostra alguns valores em dólares.
Foto: The Conversation
A precificação dinâmica elevou o preço de alguns ingressos para a final a mais de US$ 2 milhões.Maximilian Haupt/picture alliance via Getty Images

Em segundo lugar, o cheiro de corrupção em torno da Fifa nunca desaparece.

Os processos judiciais de 2015 contra altos dirigentes do futebol revelaram a extensão das práticas corruptas relacionadas à venda de direitos de transmissão. Uma declaração recente de figuras proeminentes do mundo da administração do futebol sugeriu que, desde então, as coisas pioraram.

Quando se trata de receitas com ingressos, para onde vai todo esse dinheiro? A maior parte volta, de uma forma ou de outra, para as federações nacionais de futebol que compõem a Fifa.

Mas a forma como elas usam esse dinheiro depende de sua probidade. Idealmente, o dinheiro seria investido no desenvolvimento das divisões de base — mas, em muitos casos, parece haver pouco a mostrar em troca da generosidade da Fifa. Figuras notórias como Jack Warner de Trinidad e Tobago e Chuck Blazer dos EUA — conhecido como "Sr. 10%" devido à comissão que recebia por fazer negócios com ele — são apenas os exemplos mais flagrantes.

A Fifa é acusada de fazer pouco ou nada para investigar onde o dinheiro que distribui acaba indo parar. Acredito que um pouco de luz do Sol seria um ótimo desinfetante.

Torcedores tapam o nariz até certo ponto

A terceira questão, relacionada à corrupção, diz respeito à identidade dos países anfitriões.

A Rússia sediou a Copa em 2018 apesar de ter invadido o território soberano de outro membro da Fifa quatro anos antes. O Catar, em 2022, foi autorizado a sediar o evento apesar das evidências de violações dos direitos humanos. Agora, temos o espetáculo bizarro em que uma Copa do Mundo está sendo cossediada por um país cujo líder ameaçou anexar um país coanfitrião e iniciou uma guerra contra uma das nações participantes.

Há uma longa história de fãs ignorando as realidades políticas para poderem curtir o futebol, mas há limites para os torcedores. As Copas do Mundo não apenas enchem os cofres da Fifa, elas proporcionam um impulso diplomático e econômico para os países anfitriões - algo que muitos veem como "sportswashing" quando os referidos anfitriões têm reputações questionáveis.

Portanto, os torcedores têm motivos genuínos para se ressentir da forma como a Fifa organiza a Copa do Mundo, tanto politicamente quanto comercialmente.

Mas, em um mundo ideal, os preços dos ingressos deveriam ser baratos? Economistas costumam ter uma resposta presunçosa para isso: o preço deve ser definido de acordo com o que o mercado suportar. A Copa do Mundo é popular, os ingressos são escassos e, portanto, é claro que devem ser caros.

Na minha opinião, isso é um pouco simplista demais. A proposição econômica fundamental é que os preços devem refletir o custo adicional de fornecer o serviço, ou "custo marginal" no jargão econômico. E, neste caso, o custo marginal de cada ingresso é pequeno - não há sequer despesas gerais muito substanciais a serem cobertas, o que frequentemente justifica um preço mais alto.

O fato de que a fixação de preços com base no custo marginal levaria à revenda, gerando lucros extraordinários para quem tiver a sorte de conseguir um ingresso escasso, não altera o princípio. Em vez disso, apenas demonstra que existe um problema.

Crise de acessibilidade do futebol global

A resposta aparente da Fifa ao problema da escassez é permitir um sistema que dá acesso apenas às pessoas mais ricas.

Se as pessoas ricas fossem ricas porque trabalham duro, e as pessoas pobres fossem pobres porque não trabalham, talvez tudo isso parecesse justo. Mas a maioria das pessoas vê que não é assim que o mundo realmente funciona. Se houver escassez, a maioria das pessoas provavelmente preferiria que os torcedores comprometidos, sem interesse em revenda, fossem recompensados com ingressos de baixo custo.

Em termos simples, o torcedor típico está enfrentando uma crise de acessibilidade quando se trata dos preços dos ingressos nesta Copa do Mundo — os ingressos que eles podiam comprar em 1994 agora estão fora de alcance, ou pelo menos representam um grande peso no orçamento familiar.

Mas isso reflete um problema social mais amplo. A insatisfação com os preços dos ingressos da Copa do Mundo de 2026 reflete um mal-estar geral com a distribuição de renda no mundo moderno. A desigualdade de renda tem consequências muito maiores para a maioria das pessoas — em termos de suas perspectivas e expectativa de vida — do que a possibilidade de conseguir entrar em um estádio para assistir a um jogo da Copa do Mundo.

A diferença entre as elites ricas, que podem pagar por tudo o que querem, e a classe média em dificuldades, para a qual cada vez mais oportunidades de vida estão ficando fora de alcance, é um dos principais problemas econômicos da nossa época. Para mim, os preços dos ingressos para a Copa do Mundo são uma ilustração impressionante de quão profunda essa desigualdade se tornou.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Stefan Szymanski não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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