Por que algumas pessoas reagem tão mal às picadas de mosquito? A resposta está na saliva dos insetos
Uma picada de mosquito pode parecer um incômodo menor, mas reflete uma interação complexa que ocorre no sistema imune
A intensidade da reação a picadas de mosquito varia conforme a resposta imune à saliva do inseto, rica em compostos que causam inflamação e facilitam infecções virais. Crianças e pessoas expostas a novas espécies reagem mais forte por falta de tolerância prévia, enquanto fatores genéticos causam hipersensibilidade rara, como a síndrome de Skeeter. Devido ao papel da saliva na transmissão de patógenos, a ciência já estuda o desenvolvimento de vacinas voltadas contra essas proteínas salivares.
Duas pessoas passam uma noite no mesmo jardim e recebem aproximadamente o mesmo número de picadas de mosquito. Pela manhã, uma mal percebe as picadas, enquanto a outra está coberta de marcas grandes, inchadas, que coçam intensamente e perduram por dias.
A maioria de nós já passou por isso ou conhece alguém que já passou. Mas por que as picadas de mosquito afetam algumas pessoas de maneira tão diferente? A resposta está na forma como a saliva do mosquito interage com nosso sistema imune.
Quando um mosquito pica você, ele injeta saliva na sua pele. O sistema imune reconhece a saliva como estranha e libera histamina — uma substância química das células imunes que causa sintomas alérgicos, como vermelhidão, inchaço e coceira.
Mas isso explica apenas parcialmente o que está acontecendo. A saliva do mosquito também contém uma variedade de outros compostos biologicamente ativos que interagem com o sistema imune de maneiras mais complexas do que se supunha anteriormente.
Por exemplo, a saliva do mosquito também contém proteínas que impedem a coagulação do sangue e mantêm o fluxo sanguíneo, para que ele possa se alimentar sem interrupções.
Essas mesmas proteínas salivares influenciam a resposta imune que ocorre no local da picada. Em vez de atuar apenas como um auxílio à alimentação, a saliva do mosquito pode alterar o ambiente imune local poucos minutos após a picada.
Em termos simples, a saliva direciona o sistema imune para um tipo específico de resposta (chamada de "resposta Th2") que está mais associada a reações do tipo alérgico do que ao combate a infecções. Isso torna os vasos sanguíneos próximos temporariamente mais "permeáveis", o que ajuda a atrair células imunes adicionais para a área.
No caso de uma simples picada, isso significa, em geral, apenas mais vermelhidão, inchaço e coceira. Mas os pesquisadores acreditam que essa mesma mudança imune também pode facilitar que os vírus transportados pelo mosquito se estabeleçam na pele e se espalhem pelo corpo.
Por que algumas pessoas reagem mais intensamente
Uma das características mais marcantes das picadas de mosquito é a enorme variação na forma como as pessoas reagem.
Um grande estudo genético com mais de 84.000 participantes confirma isso. Estas pessoas relataram ter sentido desde pequenas protuberâncias leves até inchaços grandes e intensos. Até mesmo as reações de uma mesma pessoa às picadas de mosquito mudaram com o tempo.
Crianças frequentemente reagem mais intensamente do que adultos, e pessoas expostas a espécies desconhecidas de mosquito também podem reagir de maneira diferente, pois a saliva varia entre as espécies. A razão para isso se deve, em grande parte, à exposição.
As reações tendem a ser mais intensas nas primeiras vezes em que alguém é exposto a uma determinada espécie de mosquito. Elas tendem a diminuir com a exposição repetida, à medida que o sistema imune se adapta — um pouco como se fosse o desenvolvimento gradual de tolerância.
Como as crianças simplesmente ainda não foram picadas tantas vezes, é mais provável que ainda estejam nessa fase de reação mais intensa. A mesma lógica explica o efeito das "espécies desconhecidas": um adulto que reage levemente aos mosquitos locais pode reagir fortemente em uma viagem a algum lugar com espécies diferentes de mosquitos, já que seu sistema imune ainda não encontrou essas proteínas salivares específicas antes.
A genética provavelmente também contribui, com diferenças hereditárias na regulação imune influenciando a intensidade da resposta de uma pessoa.
Mas a principal razão pela qual as pessoas reagem tão mal às picadas de mosquito se resume a ter uma hipersensibilidade leve à saliva do mosquito.
Um número muito menor de pessoas desenvolve reações locais exageradas, às vezes chamadas de síndrome de Skeeter, em que o inchaço se estende bem além da picada em si e é frequentemente confundido com celulite bacteriana (uma infecção de pele que causa vermelhidão e inchaço).
Não há uma causa única conhecida para a hipersensibilidade. No entanto, acredita-se que a síndrome de Skeeter resulte de uma resposta imune excepcionalmente forte às proteínas presentes na saliva do mosquito, envolvendo anticorpos específicos contra o mosquito e outras respostas imunes inflamatórias.
Ainda não se sabe ao certo por que algumas pessoas desenvolvem essa resposta exagerada — embora a idade, a exposição prévia a mosquitos e a suscetibilidade individual possam ter influência. Felizmente, reações alérgicas graves a picadas de mosquito são extremamente raras.
Se você é alguém que reage mal a picadas de mosquito, aplicar uma compressa fria logo após a picada pode ajudar a reduzir o inchaço. Anti-histamínicos orais e cremes tópicos com corticosteroides leves também podem aliviar a coceira e a inflamação, principalmente quando usados logo no início.
Evite coçar, pois isso pode prolongar a inflamação, danificar a pele e aumentar o risco de infecção. Pessoas que apresentarem reações excepcionalmente intensas, agravamento da dor ou febre devem procurar orientação médica.
Prevenir picadas continua sendo a melhor estratégia. O uso de repelentes de insetos, cobrir a pele exposta e dormir sob mosquiteiros tratados com inseticida em locais onde ocorrem doenças transmitidas por mosquitos podem reduzir o risco de picadas.
Saliva do mosquito e doenças
As implicações da saliva do mosquito vão além das picadas incômodas que coçam que eles deixam para trás.
Pesquisadores estão reconhecendo cada vez mais que essas proteínas salivares podem influenciar o que acontece quando patógenos são transmitidos dos mosquitos para os seres humanos.
Especificamente, as mesmas alterações imunes que causam a coceira nas picadas parecem ajudar vírus transmitidos por mosquitos, como a dengue, o zika e o vírus do Nilo Ocidental, a estabelecer uma infecção inicial mais forte e a se espalhar pelo corpo mais rapidamente do que se o vírus fosse injetado sem a saliva.
Outra descoberta intrigante vem da pesquisa sobre a malária. Um estudo marcante descobriu que crianças infectadas com Plasmodium falciparum — espécie de parasita responsável pela forma mais grave da malária humana — apresentavam odores corporais alterados em comparação com crianças não infectadas. Vários compostos químicos estavam presentes em níveis mais elevados, e os mosquitos eram atraídos por alguns desses odores.
Essas descobertas sugerem que os parasitas da malária podem alterar os odores do hospedeiro de maneiras que aumentariam a atração dos mosquitos, potencialmente melhorando suas chances de transmissão.
É por essas razões que os cientistas atualmente estão explorando vacinas que têm como alvo a própria saliva do mosquito, e não apenas os patógenos que ela transporta.
Uma picada de mosquito pode parecer um incômodo menor, mas reflete uma interação complexa entre a saliva do mosquito e o sistema imune.
Khalid Beshir não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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