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Política

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Checamos a entrevista de Ronaldo Caiado ao 'Estadão'; veja o resultado

CANDIDATO DO PSD À PRESIDÊNCIA ERROU SOBRE TERRAS RARAS E SEGURANÇA PÚBLICA

3 set 2026 - 16h25
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Resumo
O Estadão Verifica analisou declarações de Ronaldo Caiado em entrevista e apontou imprecisões na maioria das falas. O candidato foi classificado como enganoso ao tratar do cronograma da Lava Jato, do efetivo de facções, do impacto da reforma tributária, de incentivos fiscais e de terras raras. Também faltou contexto sobre seu histórico judicial e o policiamento em Londres. Por outro lado, foram confirmados como verdadeiros o índice de 88% de aprovação de sua gestão em Goiás e o pioneirismo estadual em IA.

O candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD) foi entrevistado na manhã desta quinta-feira, 3, pelo Estadão. O Estadão Verifica, núcleo de checagem de fatos do jornal, analisou a veracidade das alegações feitas ao longo da entrevista.

Ronaldo Caiado (PSD), durante sabatina para o Estadão.
Ronaldo Caiado (PSD), durante sabatina para o Estadão.
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

Foram consideradas apenas afirmações factuais, como números, datas, comparações de grandeza e outras. A depender da apuração, podemos atribuir as etiquetas "falso", "enganoso", "exagerado", "subestimado", "impreciso", "falta contexto" e "verdadeiro".

Veja o resultado:

Sem máculas

O que disse Caiado: que tem 40 anos de vida pública, sem nenhuma mácula ou envolvimento com corrupção.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: falta contexto. Em 2024, a Justiça Eleitoral de Goiás condenou Caiado a oito anos de inelegibilidade por abuso de poder político. A sentença em primeira instância sustentava que o ex-governador usou o Palácio das Esmeraldas, sede do governo, em eventos de apoio à candidatura do prefeito eleito Sandro Mabel (União). Contudo, em 2025, a decisão de inelegibilidade foi revertida pelo Tribunal Regional Eleitoral de Goiás, mantendo-se o pagamento de multa de R$ 60 mil, devido ao uso indevido do palácio.

Ao Verifica, a assessoria de Caiado disse que a decisão foi revertida e que, portanto, não houve condenação de Caiado. "E o caso não envolve corrupção, mas um suposto abuso de poder político", disse.

Lava-Jato

O que Caiado disse: que, "uma semana antes" das eleições de 2014, "começou um rumor" de um grande escândalo de corrupção, referindo-se à Operação Lava Jato. Disse ainda que "a Dilma foi eleita e, em poucos dias, veio à tona tudo aquilo".

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é enganoso. A primeira fase da Operação Lava Jato ocorreu em março de 2014, sete meses antes das eleições, com as prisões dos doleiros Carlos Habib Chater e Alberto Youssef, dentre outros. Em novembro de 2014, mês seguinte à eleição, estourou a fase Juízo Final. Um ex-diretor da Petrobras e alguns empreiteiros foram presos. Apenas em março de 2015, cinco meses após as eleições, é que o então relator Teori Zavascki tirou o sigilo das investigações. O STF autorizou a abertura de inquéritos contra 28 políticos.

Segundo a assessoria de Caiado, a Lava Jato realmente é de março de 2014, mas os fatos mais graves foram revelados na reta final e depois da eleição de Dilma. A assessoria citou a delação de Alberto Yousseff, a prisão de Renato Duque e de dirigentes de empreiteiras, além da revelação de Paulo Roberto Costa de que R$ 2 milhões teriam sido destinados à campanha de Dilma em 2010.

Facções criminosas

O que Caiado disse: que as facções criminosas têm mais homens armados do que as forças de segurança brasileiras.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é enganoso. O efetivo policial do Brasil, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, é de 818.521 agentes - destes, 413 mil são policiais militares. Segundo o levantamento From Narco Cartels to Criminal Networks: The Structural Transformation of Organized Crime in Latin America and the Caribbean, do Instituto Igarapé, o PCC tem cerca de 40 mil integrantes, e o Comando Vermelho, de 20 mil a 30 mil.

Em resposta ao Verifica, a equipe de Caiado disse que, apesar de o número das forças de segurança brasileiras ser maior do que o de faccionados, a presença do crime organizado armado no Brasil é inquestionável.

Policiais em Londres

O que Caiado disse: que, em Londres, não tem policial com arma. Eles usam cassetete e apito.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: falta contexto. A maioria dos policiais no Reino Unido não porta armas de fogo rotineiramente, e sim recursos menos letais, como dispositivos de eletrochoques (tasers), cassetetes e sprays irritantes. Mas existem unidades especializadas em porte de arma de fogo, de acordo com o site da Polícia Metropolitana. Apenas agentes com treinamento específico são autorizados e respondem a incidentes de alto risco. Segundo o governo do Reino Unido, em março, 6.558 policiais eram autorizados a portar arma de fogo.

Segundo a assessoria do candidato, o objetivo do plano de segurança de Caiado é buscar Londres como exemplo, para que, a médio e longo prazo, não seja necessário que as forças policiais brasileiras precisem utilizar armas de fogo para combater a violência no Brasil.

Aprovação em Goiás

O que disse Caiado: que saiu com 88% de aprovação do governo de Goiás.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é verdadeiro. Uma pesquisa feita pela Genial/Quaest mostra que o governo de Caiado era aprovado por 88% dos goianos em agosto de 2025. Outro levantamento mais recente, de abril de 2026, feito pelo instituto Paraná Pesquisas, apontou uma avaliação positiva de 84,7% da população local.

Reforma tributária

O que Caiado disse: que o cidadão paga hoje 5% de Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS) e vai passar a pagar 28%.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é enganoso. Não se trata de aumento de tributação, como insinuou o candidato. Como explicou o Estadão Verifica, a reforma tributária do consumo unifica cinco impostos que incidem sobre produtos e serviços: os federais Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), Programa de Integração Social (PIS) e Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins); o estadual Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS); e o municipal Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS). Eles foram substituídos pelo Imposto sobre Valor Agregado (IVA) Dual, que soma a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), federal, e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), estadual e municipal. A alíquota-padrão do IVA foi instituída com um teto de 26,5% pela reforma. Mas, após alterações na Câmara dos Deputados e no Senado, a alíquota poderá chegar a 28%.

Caiado omitiu que a implantação do IVA Dual é gradativa e só entrará completamente em vigência no ano de 2033. A mudança do ISS e do ICMS para o IBS, por exemplo, será feita de 2029 a 2032.

O Verifica explicou em mais de uma checagem (aqui, aqui e aqui), que, mesmo que a alíquota seja de 28%, isso só poderá valer a partir de 2033. Ainda assim, o valor não será de 28% para todos os produtos, já que serviços têm diferentes alíquotas.

Segundo a Receita, o empresário não deverá pagar a mais do que paga hoje. O órgão define que o objetivo central da reforma é a manutenção da carga tributária atual em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).

Ao Verifica, a assessoria de Caiado disse que os grupos que terão incidência de 28% no IVA passarão a lidar com uma carga tributária muito alta e que isso prejudica o empreendedorismo e a geração de empregos.

Terras raras pesadas

O que Caiado disse: que o governo federal não sabia o que eram terras raras pesadas.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é enganoso. Em 2011, durante a gestão da presidente Dilma Rousseff (PT), o governo federal produziu um plano nacional de mineração que destacava a importância das terras raras para a aplicação em produtos de alta tecnologia. Elaborado pelo Ministério de Minas e Energia e pela Secretaria de Geologia, Mineração e Transformação Mineral, o documento classificava as terras raras na categoria de "materiais portadores de futuro", junto com lítio, cobalto e tântalo, e traçava metas para o setor até 2030. O plano também citava "terras raras pesadas". Além disso, o tema vinha sendo debatido no segundo mandato de Lula (PT).

Segundo a assessoria de Caiado, o governo federal pode ter produzido esse plano, mas jamais teve uma política efetiva que transformasse conhecimento geológico em exploração, processamento e cadeia industrial.

Incentivos fiscais em Goiás

O que Caiado disse: que cortou R$ 3 bilhões em incentivos fiscais em Goiás.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é enganoso. Em valores corrigidos pela inflação, as isenções fiscais eram de R$ 10,8 bilhões em 2018, e foram para R$ 10,2 bilhões em 2025.

Em resposta ao Verifica, a assessoria do candidato disse que, quando assumiu o governo, em 2019, Caiado deu fim a incentivos ultrapassados que eram concedidos sem critérios claros. "Na época, esses incentivos cortados representavam por volta de 50% da arrecadação do estado", alegou a nota. A assessoria também informou que Caiado criou o programa pro-Goiás para modernizar e melhorar os critérios de aprovação de incentivos fiscais e que, ao final do primeiro e segundo mandatos, já em uma situação fiscal completamente diferente, foram aprovados novos incentivos específicos.

Inteligência Artificial

O que Caiado disse: que Goiás avançou nas discussões sobre inteligência artificial em 2019 e já tem uma lei para isso, o que o Brasil ainda não tem.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é verdadeiro. Em 2019, Goiás criou o Centro de Excelência em Inteligência Artificial (Ceia) em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG). Em maio de 2025, entrou em vigor no Estado a Lei Complementar nº 205/2025, que instituiu a Política Estadual de Fomento à Inovação em Inteligência Artificial. A nível nacional, um projeto que regulamenta o uso da IA no Brasil ainda está em tramitação. O texto foi aprovado no Senado, mas precisa passar pela Câmara dos Deputados.

Estadão
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