Pesquisa da UFRGS relaciona TDAH a alterações cerebrais e envelhecimento celular
Dividida em três capítulos, a pesquisa buscou entender como diferentes marcadores biológicos se relacionam com o TDAH e entre si
A tese de doutorado da bióloga Maria Eduarda Tavares, desenvolvida no Programa de Pós-graduação em Genética e Biologia Molecular da UFRGS, investigou conexões entre o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), estrutura cerebral, genética e envelhecimento celular.
Dividida em três capítulos, a pesquisa buscou entender como diferentes marcadores biológicos se relacionam com o TDAH e entre si.
Alterações na substância branca e o TDAH
Na primeira etapa, Maria Eduarda utilizou dados genômicos de grandes estudos internacionais e aplicou a técnica de randomização mendeliana. O objetivo foi verificar se alterações em estruturas específicas da substância branca do cérebro influenciam o desenvolvimento do transtorno.
Foi identificado que a redução da anisotropia fracionada (FA) — medida obtida por ressonância magnética que indica a integridade dos tratos da substância branca — na cápsula interna anterior tem efeito causal significativo no diagnóstico de TDAH. Essa área é essencial para funções como atenção, controle motor e tomada de decisões.
Sintomas e conectividade cerebral em crianças
Na segunda fase, a pesquisadora analisou imagens cerebrais de mais de 7 mil crianças dos Estados Unidos, usando dados do estudo Adolescent Brain Cognitive Development (ABCD).
Os resultados mostraram uma forte associação entre sintomas de desatenção e alterações em regiões específicas da substância branca, como o fascículo longitudinal superior e as vias córtico-estriatais — responsáveis por conectar áreas relacionadas à atenção e formação de hábitos.
Já os sintomas de hiperatividade não mostraram relação significativa com essas estruturas, sugerindo que o TDAH está mais ligado a dificuldades de atenção do que à agitação motora.
Encurtamento dos telômeros e envelhecimento precoce
No terceiro capítulo, a pesquisa examinou o possível vínculo entre TDAH e envelhecimento celular precoce. Para isso, foram avaliados os telômeros — estruturas que protegem o DNA e encurtam com o tempo.
Combinando dados genéticos de grandes estudos com informações clínicas de 345 brasileiros diagnosticados com TDAH, a análise mostrou que os pacientes tinham telômeros significativamente mais curtos que os do grupo controle.
Também foi identificada uma região do cromossomo 17 associada tanto ao TDAH quanto ao encurtamento dos telômeros, indicando uma possível ligação genética com o envelhecimento acelerado.
Segundo Maria Eduarda, os resultados sugerem que o TDAH envolve não apenas alterações no comportamento, mas também modificações biológicas relevantes, como envelhecimento celular precoce e mudanças estruturais no cérebro — fatores que podem ajudar no entendimento e no diagnóstico do transtorno.